Werther Santana
Werther Santana

Na Fundação Casa, o futebol pode ser um caminho para a liberdade

Adolescentes disputam a Copa Casa e fazem as preliminares no Campeonato Paulista

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

05 Março 2018 | 07h00

Em oito preliminares do Campeonato Paulista, aqueles jogos que acontecem antes dos jogos principais, o futebol significa um momento de liberdade para os atletas. Literalmente. São os jogos da Fundação Casa (Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente), antiga Febem, que trata da recuperação de menores infratores. A Copa Casa ajuda os adolescentes no processo de reintegração à sociedade.

+ Após Copa Casa, atacante treinou com Renato Gaúcho no Grêmio

“É minha chance de ser olhado e arrumar um futuro quando sair”, diz Sandro (nome fictício), um dos destaques do torneio e que está em fase de testes nas categorias de base do XV de Piracicaba. 

Neste ano, participam do torneio 1250 adolescentes, de 12 a 21 anos, de 82 centros de internação de várias partes do estado. Com o apoio da Federação Paulista de Futebol, o torneio oferece o “pacote completo” para os adolescentes. Com autorização judicial, eles podem sair para treinar fora dos muros do centro.

Na reta final do torneio, a partir das quartas de final, jogam em estádios como Moisés Lucarelli, Vila Belmiro e Canindé, com a mesma estrutura dos times profissionais das séries A-1 e A-2. Depois de atuar, eles assistem às partidas principais – os ingressos, assim como troféus, arbitragem e o local dos jogos são oferecidos pela FPF.

“O futebol tem a obrigação de ser uma ferramenta social. Com a Copa Casa, damos um passo nesse sentido. A FPF e os clubes apoiam a causa e enxergam nela um importante processo de reintegração e ressocialização dos jovens”, opina Reinaldo Carneiro Bastos, presidente da FPF. "Entrar em um estádio de futebol já é a realização de um sonho para esses meninos", diz o ex-jogador Zé Maria, assistente de Direção da Fundação Casa. 

Tudo acontece com as restrições previstas em lei para adolescentes em regime de internação – a maioria por tráfico de drogas. Nos estádios, o esquema de segurança é definido em reuniões prévias com a FPF. O número de agentes de segurança varia de centro para centro. Em geral, são cinco, além do diretor e um professor de educação física. Os adolescentes entram sempre pelo portão mais próximo do vestiário e são vigiados pelo mesmo efetivo que a PM separa para o jogo principal. No final da partida, eles sobem para a arquibancada e assistem à partida em um espaço reservado.

Os organizadores garantem que nunca houve incidentes nos estádios e nos treinos ao longo de 14 anos de torneio. “São meninos que estão preparados para a atividade, pois apresentam boa avaliação em todos os quesitos”, diz Christian Lopes de Oliveira, diretor da Fundação Casa na capital paulista. 

O torneio está inserido em um projeto mais amplo. Não é só a competição pela competição. Cada adolescente possui um Plano Individual de Atendimento com um calendário de atividades esportivas e pedagógicas, que incluem Olimpíada de Matemática, por exemplo. Nesse plano, uma equipe multiprofissional avalia os adolescente do ponto de vista pedagógico, psicológico, social e de saúde. “Se ele não participa das outras atividades socioeducativas, ele não pode jogar”, explica Carlos Alberto Robles, gerente de Educação Física e Esportes. 

Antes das partidas do torneio, cada unidade organiza seus treinos. Na capital, eles acontecem uma vez por semana no campo do Benfica, ali na Vila Maria. Também com autorização judicial, os meninos chegam em silêncio, em uma van branca, com quatro agentes de segurança. O treino tem a parte física, técnica e tática, como uma escolinha de futebol.

Se alguém quer ir ao banheiro, é preciso a companhia de um agente. Se um atleta dá uma bicuda, o agente vai buscá-la. É proibido chegar perto do muro. Por outro lado, não há algemas ou tornozeleiras; a segurança é discreta. De propósito. “O projeto faz com que eles sintam o gosto da liberdade e se esforcem para conquistá-la”, diz Robles. 

Eles sentiram esse gosto vivo na quinta-feira. Um dos companheiros, Manoel (outro nome fictício) foi se despedir depois de cumprir um ano e dois meses por furto qualificado. Na hora dos abraços, ele perguntou se poderia voltar para jogar. “Claro que não, né?!”, sorriu o agente. Essa proximidade com a liberdade, ali, com o companheiro de cárcere, deixou os meninos alegres. E bem-humorados. 

Quando Manoel ia lá longe, perto do portão vermelho de ferro, a última tranca da rua, um dos colegas gritou: “Cuidado para não ser roubado lá fora!”. 

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Após Copa Casa, atacante chegou ao Grêmio de Renato Gaúcho

Jadson Ailton foi destaque do torneio para internos e hoje está na série A3 do Campeonato Paulista

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

05 Março 2018 | 07h00

Quando cumpria pena de um ano e dois meses por tráfico de drogas, em sua segunda passagem pela Fundação Casa de Botucatu, Jadson Ailton Oliveira da Silva Vale (ele faz questão de dar o nome verdadeiro) viu que o futebol era sua (única) chance de mudar de vida. “O futebol foi importante para eu esquecer onde eu estava. Além disso, eu sabia que, se fosse bem na Copa Casa, eu teria um futuro”, diz o atacante de 19 anos. 

A evolução foi rápida. Depois de conseguir liberação para treinar futebol de salão, ele fez um teste no Noroeste e foi aprovado. Depois de cumprir sua passagem na Fundação Casa, ele passou por São Bernardo, Diadema, Catanduvense e União Barbarense. Na disputa da Copa São Paulo do ano passado, foi o autor do gol mais bonito do torneio, o que chamou a atenção de vários clubes, entre eles, Atlético-PR, Gama, Rio Ave e Grêmio. Ele escolheu o último. 

O atacante conta que passou um mês no sub-19 e o restante do ano no time profissional. Chegou a trabalhar com Renato Gaúcho, mas tomou a decisão de sair. Hoje, ele se arrepende. “Na época, eu tive algumas dificuldades, prefiro não falar os detalhes, mas faltou paciência. Hoje, eu me arrependo”, diz o atacante que hoje defende o Velo Clube, na série A3 do Paulistão. “Não tenho vergonha de falar do meu passado. Teria vergonha se tiversse continuado naquela vida”, afirma. 

Francesco Barletta, coordenador da base do Grêmio, afirma que a passagem de Jadson foi boa. “Nós fazemos futebol, não fazemos justiça. Ele cumpriu as obrigações legais. Teve uma passagem boa, mas tínhamos outras opções na posição.”  

Aos 17 anos, Sandro (nome fictício) tenta seguir o caminho de Jadson. Destaque da equipe de Piracicaba, ele soma 17 gols em cinco jogos. Foi aprovado nos primeiros testes na base do XV de Piracicaba, mas agora tenta autorização para sair e treinar duas vezes por semana. “Para mim, o futebol é uma arte. Eu faço por prazer”, diz o atacante de 17 anos. Segundo ele, ainda falta um mês de sua pena de sete por tráfico de drogas.

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