'Na massa, o indivíduo abdica de seus próprios conceitos'

Especialista explica que em algumas situações o comportamento não reflete os princípios das pessoas

Entrevista com

João Ricardo Cozac

Almir Leite, Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2014 | 17h00

Psicólogo esportivo e presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, João Ricardo Cozac considera estar ocorrendo um crescimento da agressividade nos estádios e comportamentos racistas e homofóbicos é reflexo disso. Ele alerta, porém, que quando fazem parte de um grupo, as pessoas acabam deixando a individualidade de lado em detrimento do comportamento coletivo. Com isso o indivíduo, em algumas ocasiões, pode deixar seus próprios princípio em segundo plano e ter atitudes que não fazem parte de sua cultura e conceitos. Cozac defende punições duras contra os atos de intolerância, mas também aconselha: “É preciso prevenir, fazer o que eu chamo de alfabetização emocional, para que os torcedores não prejudiquem o clube nem a si mesmos’’.

Comportamentos racistas e homofóbicos podem ser atribuídos ao conceito de que tudo é permitido em um estádio de futebol?

O que acontece é uma fusão emocional de pessoas que torcem para um clube. Essa simbiose pode gerar em alguns casos comportamentos violentos e homofóbicos.

Como assim?

O indivíduo, quando está na massa, tem a sua identificação dissipada pela identificação do grupo. Nesse caso, ele deixa de agir de acordo com seus próprios princípios. Por algumas horas, abdica de seus próprios conceitos.

Isso leva a pessoa a ter atitudes que normalmente não teria?

O discurso da Patrícia (Moreira, a torcedora do Grêmio que chamou Aranha de macaco) comprova isso. Ela disse não ser racista, mas teve uma atitude de racismo no calor do envolvimento com a massa.

Não está havendo exagero?

Está se perdendo um pouco as características das arenas, porque começa a haver um abuso no comportamento. O movimento de abdicar do eu em favor do grupo tem mostrado um crescimento da agressividade.

As punições são caminho eficaz para controlar o problema?

Eu acho que tem de ser severo nas punições. Mas também é preciso fazer a prevenção, informar as pessoas. Fazer o que chamo de alfabetização emocional do indivíduo para que os torcedores não prejudiquem o clube nem a si mesmos.

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