Lucas Figueiredo/CBF
Lucas Figueiredo/CBF

Na pandemia, Pia participa de encontros com clubes, planeja futuro e ganha prêmio

Treinadora sueca ainda busca entender o estilo de jogo do Brasil para ter sucesso na seleção feminina

Leandro Silveira, O Estado de S.Paulo

27 de maio de 2020 | 07h01

O período de paralisação do futebol não tem deixado a técnica da seleção brasileira feminina, Pia Sundhage, inativa. Enquanto trabalha remotamente no planejamento e nas observações táticas sobre a equipe para os próximos meses, a treinadora sueca participou nos últimos dias de encontros com jogadoras e membros da comissão técnica de times do País. Ainda teve o seu trabalho no futebol internacional reconhecido com uma premiação na Suécia.

Convidada, Pia e suas auxiliares se encontraram, ainda que virtualmente, com as equipes do Internacional e da Ferroviária na semana passada para uma conversa sobre o futebol feminino. A treinadora sueca estava acompanhada das auxiliares Lilie Persson, em uma dessas reuniões, e de Beatriz Vaz, em ambos, sendo que esta também auxiliou na tradução das falas durante as videoconferências.

Em uma das respostas durante o bate-papo com as jogadoras da Ferroviária, Pia destacou o desafio único que tem sido dirigir o Brasil, ainda que possua um vasto currículo - antes, ela comandou as seleções da Suécia e dos Estados Unidos, tendo conquistados duas medalhas de ouro olímpicas, em 2008 e 2012, e uma prata, em 2016, além do vice-campeonato mundial em 2011.

"Precisamos entender o estilo que jogamos, que maneira o futebol brasileiro vem jogando. Posso trazer a mentalidade vencedora das americanas e a organização das suecas, mas não posso tirar o que as brasileiras têm de melhor. Precisamos entender isso e passar a informação da melhor maneira para que as atletas consigam ter o melhor aproveitamento. E entender que a sua responsabilidade é para trazer o melhor para o grupo. O fundamental é pensar no grupo”, afirmou Pia, durante a videconferência de 1 hora e 30 minutos com as atletas da Ferroviária.

Além de realizar comentários sobre modelos táticos, estilo de jogo e o cenário da modalidade, a treinadora e suas auxiliares também abordaram a necessidade de as atletas se manterem motivadas, mesmo com o cenário de incerteza sobre o futuro das competições. E lembrou, para isso, a realização da Olimpíada no próximo ano. Ambas as equipes possuem jogadoras entre as convocáveis de Pia, como Aline Milene e Luciana, da Ferroviária, e Bruna Benites e Fabiana, no Internacional.

"O que mais foi ressaltado por ela, não só nessa conversa que nós tivemos aqui com a equipe do Internacional, mas algo que ela ressalta sempre entro da própria seleção, é que todas as jogadoras do futebol feminino brasileiro têm uma qualidade técnica elevada, diferente de qualquer outra jogadora no mundo", afirma Bruna Benites, capitã do Inter.

Com os torneios paralisados e os treinamentos da maior parte das equipes restritos a atividades individualizadas nas residências das atletas, os clubes entenderam esse tipo de encontro como uma importante alternativa de diversificação dos trabalhos, com a aquisição de conhecimento, incluindo o tático, como uma renomada profissional do futebol como Pia. Por isso, convidaram a técnica sueca, que aceitou participar, considerando uma atividade benéfica.

"A gente tenta trazer atividades novas todas semanas. Então surgiu a ideia de trazer a Pia. É um debate relacionado ao futebol, mas que não fica na mesmice de apenas ver um vídeo e discutir uma tática. Abriu para uma questão cultural e uma visão diferente", comenta Carolina Melo, coordenadora de futebol feminino da Ferroviária.

Além desses bate-papos, Pia tem mantido a sua rotina à frente da seleção. A treinadora participa de reuniões quinzenais com o restante do estafe da equipe feminina do Brasil, em que cada profissional passa atualizações sobre o trabalho que tem sido desenvolvido durante o período da quarentena, além da absorção da filosofia da treinadora. O contato mais direto e constante tem sido com Lilie, com quem faz análises de jogos e de atletas através de vídeos.

Nesse início de trabalho à frente do Brasil, um dos seus focos parece ser tornar a seleção mais intensa. "Algo que ela ressaltou nessa conversa foi a intensidade de jogo. O que mais diferencia o futebol feminino brasileiro daquelas seleções que são referência no mundo é a questão da intensidade. Nós somos uma seleção técnica, mas com intensidade abaixo dessas equipes", afirma Bruna Benites, relatando que o tema é abordado com frequência pela treinadora.

Pia e seus colegas também avaliam o cenário para a retomada das atividades, tendo a Olimpíada, agora agendada para 2021, como principal objetivo. Mas tudo dependerá da evolução da pandemia do coronavírus, que provocou o adiamento dos dois amistosos que a seleção disputaria em março, contra Estados Unidos e Costa Rica, ambos fora do País.

Durante o período da pandemia, Pia Sundhage foi escolhida para receber o prêmio "Mulher Sueca do Ano" de 2020. A condecoração é distribuída pela SWEA International, uma organização que reúne mulheres suecas que residem dentro e fora do país. Ela sucede na premiação a ativista ambiental Greta Thunberg, a escolhida para receber a honraria em 2019.

A treinadora assumiu o comando da seção brasileira em julho de 2019, tendo acumulado seis vitórias, quatro empates e uma derrota. O bom desempenho levou a equipe nacional a ascender três posições no ranking feminino, atingindo o oitavo lugar. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.