Na Ponte, só Abel mantém o otimismo

A Ponte Preta está a um passo da Série B e há poucas pessoas que ainda acreditam no milagre dela permanecer na elite do futebol nacional em 2004. Vítima da falta de estrutura, desorganização e de uma grande crise financeira, o time de Campinas é o lanterna do Campeonato Brasileiro com 46 pontos. E também apresenta fortes sintomas de que seu rebaixamento é mesmo inevitável. Após a derrota em casa para o São Paulo, por 2 a 1, os jogadores expressaram claramente o clima de insegurança e incerteza que ronda o elenco há muito tempo. Vários deles choraram ainda no gramado do Majestoso, demonstrando o desespero e medo de enfrentar a terrível situação. Restam apenas dois jogos. Um diante do Flamengo, fora de casa, em princípio no Rio, mas que pode ser transferido para Maceió ou Recife. O outro será em casa, diante do Fortaleza, ainda ameaçado pelo descenso. Um dos poucos que não muda o discurso esperançoso é o técnico Abel Braga. "Vamos disputar seis pontos e enquanto tivermos chances nós vamos lutar." Mas faltam armas para as batalhas. O time requer mais qualidade, não existem peças de reposição e nem as condições mínimas de trabalho. Os salários continuam atrasados e sem previsão de quitação. Por conta de tantos problemas, 21 jogadores já deixaram o clube na temporada. A maioria por litígio salarial, inclusive com brigas judiciais. Há a perspectiva negativa de que mais jogadores possam engrossar a lista de desertores. O meia Adrianinho, que interessaria ao Palmeiras, seria o próximo seguindo orientação de seu procurador, Márcio Rivellino. Crise financeira - A crise financeira da Ponte Preta se arrasta desde a temporada passada, quando o presidente Sérgio Carnielli deixou de usar recursos próprios para manter o fluxo de caixa. Este era o procedimento habitual desde 1997, quando assumiu o cargo. Ninguém sabe ao certo o total de investimento nestes sete anos, como também ninguém conhece o quanto entrou nos cofres dos clubes com vendas de vários jogadores. As mais rentáveis negociações foram de Luis Fabiano, agora no São Paulo, e Vander, no Vitória, que foram vendidos ao Rennes da França por algo em torno de US$ 5 milhões, em 1999. Outro negócio vultoso foi a venda do artilheiro Washington para o Fenerbahce, da Turquia, por discutíveis US$ 4,5 milhões. O clube turco chegou a anunciar a compra por US$ 7 milhões. Tudo mudou quando Carnielli foi relacionado na lista do escândalo financeiro do Banestado, Banco do Estado do Paraná que investiga a remessa de US$ 30 bilhões para os Estados Unidos. Ele foi acusado de ter desviado vários milhões de dólares para o exterior. Há pelo menos dois anos, Carnielli é alvo do FBI americano, além do ministério público, do fisco e da Polícia Federal brasileira. Na semana passada, em Campinas, ele depôs para os deputados federais que compõem a CPI sobre o caso, negando seu envolvimento e alegando que seu nome acabou sendo usado para a remessa de dinheiro para fora do país. A diretoria, porém, aponta a Lei Pelé como principal causa da crise, uma vez que as negociações de jogadores era a maior fonte de receita do clube. Outra explicação é o exílio provocado por sua não inclusão ao Clube dos 13, o que resultou numa redução de cota da televisão de R$ 500 mil mensais para R$ 280 mil. Sem opção, a diretoria fez um elenco barato. Manteve no grupo apenas os jogadores formados na base e aqueles que não interessavam a outros clubes. Trouxe reforços sem expressão e apostou tudo na dignidade de Abel Braga, transparente em suas opiniões e deficiente em suas ações em campo. A situação foi empurrada com a barriga. Agora a Ponte Preta está em completa penúria e sua torcida vive o martírio de voltar à Segunda Divisão, da qual escapou em 1997 depois de 11 anos longe do grupo dos principais clubes brasileiros.

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