Nilton Fukuda/Estadão
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Na rua, o silêncio

Nesta seleção, não há para quem torcer, não há carisma, não há empatia e referência

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2019 | 04h00

De sexta-feira para cá, depois de a seleção brasileira ter vencido a Bolívia na abertura da Copa América 2019 e dado seu primeiro passo em busca de conquista importante para o time de Tite e todos os seus comandados, o que se ouviu nas ruas sobre a equipe nacional foi um incomum silêncio.

Não se ouve nada do Brasil, dos seus jogadores, da vitória, da Copa América e da possibilidade de o time ficar com a taça sul-americana.

Nem Tite nem Neymar (cortado por contusão e envolvido em problemas pessoais) nem nenhum outro jogador foi tema de debate. Nem mesmo Philippe Coutinho, autor de dois gols diante dos bolivianos. Nada.

Não houve comoção. Não há discussão. Os estádios estão vazios e os preços das entradas fora da realidade do País, como disse ao Estado o zagueiro Thiago Silva. Quem se aventura a comprar os bilhetes ajuda nas arrecadações recordes de rendas da CBF, como foi no Morumbi na primeira apresentação - renda oficial de R$ 22 milhões.

Há ingressos e espaços nos estádios, e dificilmente vão ser preenchidos apenas com a venda online das entradas.

Tudo parece ruim no Brasil nesse momento, até mesmo o nosso futebol.

Uma série de dez capítulos publicada no Estado chamada Futebol em Debate tentou explicar o futebol fraco e devedor praticado no Brasil nesta temporada e em algumas outras para trás. Lições foram dadas por gente que entende do riscado, ex-técnicos, ex-atletas, profissionais em atividade, alguns mais da antiga, outros nem tanto.

Sobre a seleção brasileira, tenho minha própria explicação. Não há carisma nesses atletas que nos representam. Não há empatia com a torcida. Nossos filhos preferem torcedor para jogadores estrangeiros que arrebentam nos clubes europeus. Há poucos na delegação de Tite que atuam no País, e esses poucos não são tão representativos. Não são nenhum Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho ou Kaká, por exemplo e só para ficar nas referências ainda vivas em nossas lembranças. Neymar, que poderia ser um desses, e acho até que é (ou já foi), anda se perdendo em suas próprias atitudes.

Então, fica fácil entender por que o brasileiro não está nem aí para esse Brasil na Copa América. Pelo menos não de sexta-feira para cá, mas isso pode mudar dependendo do futebol e tudo o mais que envolve o time nacional.

Um outro exemplo que distancia a seleção de sua gente é treinar às portas fechadas, como fazem nossos clubes. Tite treinou no Pacaembu mais de uma vez e manteve os portões fechados em todas elas. Queria silêncio e acabou ganhando a indiferença das ruas, o pior que lhe poderia acontecer.

O treinador, aliás, também se perdeu no cargo, no trabalho e na sintonia com os brasileiros. Tite foi conduzido ao posto depois do fracasso de Dunga nas Eliminatórias em 2016. Pegou o time fora da zona de classificação e o levou até a primeira colocação na América do Sul para disputar a Copa do Mundo da Rússia. Mas começou a se distanciar do público porque deixou de tomar decisões duras, e necessárias, contra as regalias de Neymar. Disse o que seus antecessores disseram, deixou de ser "diferente", perdeu apoio popular, anda falando para as paredes... Enfim, se meteu na mesma cova rasa que já enterrou muitos treinadores que não deixaram saudades na seleção.

Não sei ao certo o que pensa o presidente da CBF, Rogério Caboclo, que vem da linhagem dos últimos presidentes da entidade. Ele diz que Tite está garantido até a Copa do Catar, mesmo se não ganhar essa Copa América. Seus pares do passado disseram a mesma coisa antes de eles anunciarem trocas de técnico. Não sei se ficará ou será demitido. O fato é que Tite parece estar sempre começando do zero. E a seleção não tem nada que chame a atenção.

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