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Jon Super /AP
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Na Superliga da Europa, um humilde pedido de desculpas e uma nova guerra

Nove clubes separatistas admitiram que ela foi um erro e concordaram em pagar milhões em multas. Mas três insistem em buscar indenização

Tariq Panja, The New York Times

10 de maio de 2021 | 20h00

Menos de duas semanas depois de se tornarem parceiros de uma Superliga europeia que teria abandonado as estruturas e organizações que sustentaram o futebol no continente por quase um século, um grupo dos maiores clubes do esporte agora se lança a uma nova batalha campal nos bastidores. Desta vez, a luta é entre eles mesmos.

No centro da nova batalha estão dois documentos. Um deles, a chamada declaração de compromisso de clube, acordada por nove dos doze clubes fundadores da Superliga e divulgada na quinta-feira, renunciou formalmente ao projeto da Superliga e voltou a comprometer as equipes separatistas com o sistema europeu em vigor.

Em um comunicado de boas-vindas de volta aos nove clubes, o órgão dirigente do futebol europeu, a Uefa, disse que as equipes “reconhecem e aceitam que o projeto da Superliga foi um erro e pedem desculpas aos torcedores, associações nacionais, ligas nacionais, clubes europeus e Uefa” por terem tomado parte dele. O documento também disse que as nove equipes se comprometeram a nunca mais tentar uma separação semelhante.

O humilde compromisso das equipes - Arsenal, Chelsea, Tottenham, Liverpool, Manchester United e Manchester City; Internazionale e Milan; e Atlético Madrid - veio com um custo alto. Os nove clubes concordaram em doar um total de 15 milhões de euros (cerca de US$ 2 milhões por equipe) a uma instituição de caridade juvenil da Uefa; renunciar a 5% da receita que receberiam das competições continentais nesta temporada; e pagar uma multa de 100 milhões de euros (cerca de US$ 121 milhões) se voltarem a participar de uma competição não autorizada.

Mas, ao concordar com os termos de sua reintegração, as nove equipes iniciaram uma luta significativa - e potencialmente cara - em torno do segundo documento: uma carta enviada na quinta-feira pelos três clubes que insistem na Superliga, ameaçando arrancar milhões de dólares em danos de qualquer clube que se afaste do projeto.

A Uefa exigira que os clubes fundadores da liga assinassem a declaração de compromisso, a qual completaria o encerramento formal da Superliga, como condição para o regresso dos clubes às estruturas e órgãos tradicionais que dirigem o futebol europeu.

Mas três dos 12 fundadores da Superliga - Real Madrid, Juventus e Barcelona - se recusam a deixar o projeto morrer. Dobrando as apostas, esta semana eles ameaçaram entrar com uma ação legal por penalidades financeiras contra seus ex-parceiros.

A Superliga, anunciada por seus 12 times fundadores em um comunicado à imprensa no fim da noite de 18 de abril, entrou em colapso 48 horas depois, em meio a reações políticas e populares. Nos dias e semanas que se passaram desde esse recuo humilhante, presidentes de clubes e proprietários de algumas das equipes realizaram reuniões de emergência com dirigentes do futebol em seus próprios países e com a Uefa para tentar limitar qualquer punição que pudessem enfrentar por fazerem parte de uma separação que teria devastado o valor de ligas e clubes em toda a Europa.

A Uefa disse que trataria os clubes arrependidos com mais gentileza do que aqueles que se recusassem a desistir. Os que se recusaram, alertou, estão se arriscando a sofrer a penalidade mais severa disponível para a organização: banimento de dois anos da Liga dos Campeões, a competição mais rica e conhecida da Europa.

Documentos, mensagens e conversas com executivos envolvidos nas negociações desta semana sugeriram que oito equipes dos 12 membros originais da Superliga concordaram em assinar a declaração, um a menos que o número necessário para forçar a liquidação de uma empresa criada na Espanha para administrar a nova liga. O nono clube se comprometeu na sexta-feira, mas agora todos esperam uma longa e cara série de recriminações.

A disputa entre os fundadores da Superliga e os esforços da Uefa para isolar ou punir qualquer resistência é uma indicação de quanto e com que rapidez azedaram as relações entre as principais equipes. E também ressalta como, mesmo após sua breve vida e morte súbita, a Superliga continua a rachar as estruturas do futebol europeu.

A Superliga começou a balançar antes mesmo do anúncio formal de sua criação. No espaço de um dia, algumas equipes começaram a enviar declarações privadas à Uefa, reconhecendo que aderir à nova liga tinha sido um erro.

Menos de 48 horas depois do lançamento da liga, o Manchester City foi o primeiro time a anunciar oficialmente sua intenção de se retirar. Então começou uma cascata, com todas as seis equipes da Premier League divulgando declarações públicas que revelavam seus planos de retirada.

As deserções fizeram os times da Espanha e da Itália reconhecer que a liga não era mais viável em sua forma original, mas esses clubes não chegaram a declarar formalmente que não tentariam revivê-la.

Apesar da reação popular ao projeto, as opiniões endureceram os três clubes - Real Madrid, Juventus e Barcelona - que eram os apoiadores mais comprometidos do projeto. Em sua carta, enviada quinta-feira, os clubes acusaram as equipes que haviam declarado publicamente sua intenção de deixar a Superliga de cometerem uma “violação material” do acordo dos fundadores.

Todas as violações do acordo, escreveram eles aos fundadores que desistiram, “nos causaram danos significativos, os quais continuam se acumulando”.

Eles também prometeram entrar com ações judiciais para provar que as atuais regras do futebol são incompatíveis com as leis de livre comércio e concorrência.

No entanto, suas opções agora podem ser limitadas. Pelo contrato da Superliga, a desistência de nove clubes pode forçar a liquidação da entidade que foi criada para realizar a competição. Essa dissolução foi um dos requisitos da Uefa para encerrar todo o capítulo para os clubes envolvidos.

As tentativas de separação continuam a turvar o futebol também no âmbito doméstico. Na Itália, a federação nacional introduziu novos regulamentos com o objetivo de prevenir qualquer nova tentativa de separação. Na Inglaterra estão ocorrendo discussões sobre mudanças semelhantes e também sobre como punir times cujas ações ameacem os interesses da Premier League.

Espera-se que a Premier League anuncie o resultado de sua consulta dentro de alguns dias. Um plano envolve assegurar compromissos de longo prazo dos clubes membros de não participarem de nenhuma competição não sancionada, ou de se retirarem da competição nacional, com penalidades severas - incluindo multas de mais de US$ 50 milhões - se o fizerem.

Mas está difícil encontrar uma punição adequada. Os dirigentes do futebol estão cientes de que o colapso da Superliga deveu muito à oposição pública dos torcedores dos times ingleses que concordaram em se juntar a ela; o objetivo agora é punir os times de uma forma que não irrite esses mesmos torcedores.

Isso significa que é improvável que os clubes sejam atingidos por sanções esportivas, mas sim por penalidades financeiras destinadas aos proprietários que apoiaram o plano da Superliga. Por enquanto, uma resposta tangível tem sido o ostracismo: dirigentes de seis clubes separatistas foram removidos dos comitês internos da liga. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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