Paulo Liebert/Estadão
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Na surdina

O Palmeiras está sozinho na briga com a Globo para a transmissão dos jogos

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2019 | 04h00

O público, isto é, eu ou você, por exemplo, acompanha futebol pelo que ele tem de mais visível, e mais superficial. Vale dizer que ignoramos o que se passa realmente no interior da coisa. Uma vez e outra surgem questões que, de tão mal explicadas, acabam desaparecendo sozinhas ou porque realmente perdem qualquer importância, já que estão além do nosso entendimento. Vejamos a questão entre a Sociedade Esportiva Palmeiras e a TV Globo que ameaça deixar fora da televisão o clube campeão, ou vice, das três ultimas temporadas.

A coisa começou sem que se desse importância maior, depois evoluiu, ou não evoluiu, e chega, sempre sem qualquer destaque ou discussão séria, às vésperas do inicio da disputa. E o Palmeiras parece que está fora. Um caso desses em qualquer lugar do mundo teria repercussão. Aqui, nenhuma.

Nem dos demais clubes, nem das federações, nem dos torcedores, sequer da imprensa. Parecem todos resignados em ter uma ausência dessas na TV, ou então não acreditam em nada dessa disputa e acham tudo uma farsa destinada a se resolver como e onde começou: nas entranhas, nos subterrâneos e no segredo, comuns na história do futebol brasileiro. Talvez seja por isso que ninguém emita qualquer opinião em favor de um lado e de outro.

A questão envolve os donos do futebol brasileiro de um lado e uma das equipes mais vencedoras do País de outro. À primeira vista, minhas simpatias vão para o Palmeiras. Até onde entendi, e é pouco, o clube está sendo punido com sanções por ter decidido se desligar do vínculo que o unia à TV Globo.

Sanções são medidas destinadas, pelo menos no âmbito internacional, para punir algum país por desobediência a uma potência maior que dita as regras. Sanções se tornaram comuns, por exemplo, durante o governo de Donald Trump. Implicam, em princípio, em atitude corajosa de quem protesta e se rebela contra um poder desproporcionalmente maior. Quando se olha mais de perto, porém, essa visão um pouco romântica sofre percalços.

O primeiro vem de um necessário exame da Sociedade Esportiva Palmeiras. É um clube como os outros, apesar de grande. Na sua vida recente, pelo menos, nada indica atitudes progressistas, libertárias ou de inconformismo com regras estabelecidas. Salvo engano não conheço ação do clube que tenha passado, nem de longe, por rebeldia e atitude temerária. A diretoria, ao contrário, sempre trabalhou na prudência e na surdina. Jamais pensei que pudesse partir de lá um brado de coragem a ponto de enfrentar sozinha o poderio da televisão, principalmente ao se ver abandonada por outros clubes que, no início, viram com simpatia a atitude do Palmeiras.

Hoje está só. E resiste. Por quê? Com que armas conta o Palmeiras para esse combate? Não me venham falar coisas genéricas como boa administração e privilegiada situação financeira, que, no fundo, não explicam nada. Espero que jornalistas profissionais, talentosos e capazes se debrucem sobre o tema para que nós, mortais, possamos compreendê-lo também. É ótima matéria para o jornalismo investigativo. A começar pelo fato curioso de que o patrocinador do Palmeiras, razão fundamental do poder e saúde financeira do clube, agora inserido até na sua política interna, é o mesmo que patrocina o Jornal Nacional, carro-chefe da Rede Globo, pelo menos no que tem de mais ostensivamente tradicional e simbólico na sua programação. 

De que lado se coloca a Crefisa? Do lado do Palmeiras ou da Globo? Dizem que a consagrada expressão "acabar em pizza" tem origem justamente em reuniões que beligerantes diretorias do Palmeiras costumavam fazer na Pizzaria Castelões, até hoje firme e forte no Brás. Por que será que me lembrei disso agora?

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