Nacional de Medellín tenta superar ligação com Pablo Escobar

Time colombiano luta para se desvincular da fama de ser a equipe do traficante

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

06 Julho 2016 | 07h30

O adversário do São Paulo na semifinal da Copa Libertadores, nesta quarta-feira, guarda um passado vencedor e misterioso na competição. O Atlético Nacional foi o primeiro time colombiano a ganhar o torneio, em 1989, período em que o clube e o país vivenciavam o temor de estar sob o auge do domínio do narcotraficante Pablo Escobar.

O criminoso, morto em 1993, morava em Medellín e gostava de futebol. A relação com o bandido até hoje incomoda os habitantes da cidade e quem tem relação com o time. "Eu vivi aquela época, sei o que se passou. Tudo o que dizem não passa de histórias. Se fosse do jeito que falam, nós não teríamos nos esforçado para trabalhar", afirmou ao Estado o técnico da equipe de 1987 a 1990, Francisco Maturana.

A ligação entre o clube de maior torcida da Colômbia e o principal traficante do mundo está relatada também no livro escrito por Juan Pablo Escobar, filho do criminoso. Em Pablo Escobar: Meu pai o autor relata a visita de jogadores de futebol em sua casa para festas.

O cineasta Michael Zilberstain lançou em 2010 um documentário sobre o tema. Em Dois Escobares o americano colheu depoimentos com ex-jogadores e autoridades para investigar a relação entre a violência no país causada pelo tráfico comandado por Pablo Escobar e a a morte Andrés Escobar, defensor do Nacional e da seleção colombiana assassinado após marcar gol contra na Copa de 1994.

"O futebol não era apenas o esporte que os traficantes gostavam, mas sim o que dava mais oportunidades para lavar dinheiro", comentou. Segundo o cineasta, a aproximação de Escobar com o futebol se deu em resposta ao cartel de Cali, rival do grupo de Medellín na comercialização de drogas. O América de Cali é suspeito de ser o primeiro a receber dinheiro do tráfico, apoio decisivo para disputar três finais seguidas de Libertadores (1985 a 87).

Como deputado na Colômbia, Escobar fez como melhorias para Medellín a construção de várias quadras esportivas. Nelas, vários jogadores começaram a carreira e formaram a base vitoriosa que levou o Nacional ao título sul-americano. "A época era de grandes jogadores no futebol colombiano. Com os times mais ricos graças ao 'narcofutebol', os dirigentes puderam manter os destaques nos elencos e ainda contratar os melhores treinadores", afirmou o cineasta.

A equipe campeã da Libertadores formou a base da seleção colombiana na Copa de 1990, na Itália. Também sob o comando de Maturana, o elenco de 22 jogadores tinha oito atletas do Atlético Nacional. 

Um dos mais famosos daquela geração era René Higuita. O goleiro do time de Medellín costumava visitar a prisão domiciliar construída por Escobar, chamada de La Catedral, e passou sete meses preso em 1993 sob a acusação de ter intermediado um sequestro para o cartel de Medellín. A reclusão o fez se afastar da seleção colombiana e ficar fora da convocação para a Copa de 1994.

JOGOS REMARCADOS

O temor do vínculo entre o Nacional e o tráfico forçou o Vasco a pedir na Libertadores de 1990 o cancelamento de um jogo contra o time colombiano, em Medellín. "Tinha caras com metralhadora no vestiário, tinha cartel de Medellín no meio", contou o presidente do Vasco, Eurico Miranda, em entrevista ao Estado em 2014. A partida teve de ser jogada novamente, mas no Chile.

Até a final de Libertadores vencida pelo Nacional teve o local alterado. O Olimpia, do Paraguai, alegou falta de segurança para disputar a partida em Medellín. A Conmebol concordou com o pedido e a decisão foi para a capital, Bogotá, onde nos pênaltis os Verdolagas confirmaram a conquista.

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