Calla Kessler/ The New York Times
Calla Kessler/ The New York Times

Não acredita que os americanos estão apostando em tênis de mesa russo? Quer apostar?

Competições obscuras e de baixa qualidade ficaram populares durante a pandemia. O interesse continua forte entre os apostadores

Andrew Keh, The New York Times

01 de fevereiro de 2021 | 10h00

Eles jogam as partidas em salões silenciosos e escassamente decorados de Moscou, em torneios que acontecem todos os dias, a qualquer hora, com uma miscelânea de atletas que variam drasticamente em idade e, em muitos casos, capacidade atlética.

E, a cada mês, milhões de dólares são apostados a cada um de seus movimentos.

Esta é a Liga Pro russa, uma obscura competição semiprofissional de tênis de mesa que nos últimos dez meses virou o fenômeno de apostas esportivas mais improvável dos Estados Unidos.

“É uma loucura pensar que ganhei centenas de dólares vendo uns velhos jogando pingue-pongue na Rússia”, disse Shayan Ahmad, 23 anos, de North Brunswick, Nova Jersey, um dos muitos novos e ávidos apostadores em tênis de mesa.

A improvável chegada do tênis de mesa russo ao cenário das apostas foi rápida e oportuna. Aconteceu nos primeiros dias da pandemia, quando apostadores insaciáveis vasculhavam um cenário esportivo depauperado em busca de alguma coisa, qualquer coisa, em que botar um pouco de dinheiro.

Mas os apostadores e as casas de apostas sempre encontram um caminho, e logo competições como hóquei no gelo bielorrusso, futebol nicaraguense e beisebol sul-coreano chegaram para preencher o vazio. Mais tarde, quando as grandes ligas voltaram cautelosamente à cena, todos esses esportes voltaram à obscuridade.

Todos exceto o tênis de mesa russo, que continua sendo uma das atrações mais populares das mesas de apostas americanas há quase um ano.

“É divertido, é aleatório e parece que tudo pode acontecer”, disse Isaiah Croft, 23 anos, construtor de móveis de Chesapeake, Virgínia, que aposta no site DraftKings durante suas frequentes viagens a Denver, onde cresceu. “É tênis de mesa russo. É muito empolgante”.

O fato de os desimportantes jogos de tênis de mesa, disputados entre jogadores pouco conhecidos, em salões silenciosos feito tumbas, serem caracterizados como emocionantes diz muito sobre a esperteza dos organizadores da competição, dos quais pouco se sabe publicamente, e a estrutura peculiar da liga.

A lista diária de jogos é quase farsesca, com uma nova partida começando a cada meia hora, agitando as mesas da manhã até a noite. Assim como as reprises de ‘Law & Order’, parece que sempre tem algum jogo passando. Para os apostadores americanos, acostumados à lenta sucessão dos fins de semana da NFL, o excesso de oportunidades de apostas é um verdadeiro banquete.

As partidas são transmitidas em algumas plataformas de apostas ou sites de terceiros, mas não são muito interessantes. Uma única câmera colocada num canto superior de um salão quase vazio captura a ação. Não há narração, nem comentários, nem nada da fanfarra dos esportes profissionais.

Alguns jogadores são jovens, outros já estão envelhecendo. Alguns estão em forma, outros nem tanto. O pior deles ainda poderia despachar com facilidade um jogador casual na mesa do porão da casa de alguém, mas o padrão geral fica consistentemente abaixo das ligas profissionais mundiais e das competições internacionais.

“É sempre assim: dois caras velhos de shorts e camiseta jogando num salão vazio”, disse Ahmad, “e às vezes aparece uma garota com o placar, do tipo que a gente via na aula de educação física, onde você tinha que virar os números à mão”.

Deixando de lado a estética maçante, a Liga Pro russa - também conhecida como Liga Pro de Moscou ou Liga Pro da Rússia, dependendo da casa de apostas - parece perfeitamente estruturada para satisfazer o apetite dos apostadores internacionais, e os números indicam que está fazendo um bom trabalho nesse campo.

Jay Croucher, chefe de negociação da PointsBet, uma casa de apostas online, disse numa entrevista que o tênis de mesa representou mais de 50% do valor total das apostas recebidas em abril, depois que o mundo dos esportes profissionais implodiu sob o peso da pandemia. Mesmo quando as principais ligas do mundo começaram a retornar ao longo do verão, a modalidade ainda era responsável por cerca de ¼ de todas as apostas no site. Hoje, com a maioria dos grandes esportes rodando quase a todo vapor, o tênis de mesa continua sendo a quinta maior atração na plataforma, atrás de futebol americano, basquete, futebol e tênis.

A tendência foi ainda mais pronunciada em alguns estados. No Colorado, por exemplo, o tênis de mesa atraiu US$ 12,4 milhões em apostas em todas as casas em novembro, fazendo dele o terceiro maior esporte entre os apostadores, atrás apenas do futebol americano profissional e universitário.

“É um negócio meio desconcertante”, disse Croucher. “Não é uma coisa que a gente esperava”.

Um representante da liga, respondendo a perguntas por e-mail, disse que a organização está ativa desde 2017 e que seu pool de jogadores é composto por mais de mil “ex-atletas profissionais, semiprofissionais e amadores”. Ele se recusou a revelar os valores dos prêmios, dizendo apenas que são “suficientes e servem como motivação adicional para que eles demonstrem suas melhores qualidades a cada partida e se prepararem bem para os torneios”.

Em relação aos horários peculiares das partidas - alguns jogos são programados para 2, 3, 4 e 5 horas da manhã, horário de Moscou - o representante explicou que “muitos atletas queriam jogar depois do trabalho, tarde da noite”. Sem mencionar as apostas, ele também disse: “Nosso principal objetivo é desenvolver o tênis de mesa na Rússia”.

A ascensão do tênis de mesa no mundo das apostas não foi inteiramente tranquila. Durante o verão, as autoridades de Nova Jersey e do Colorado suspenderam as apostas em competições de tênis de mesa igualmente obscuras da Ucrânia depois que agências levantaram preocupações sobre a possível manipulação de resultados. Essas partidas também tinham ficado famosas entre os apostadores americanos.

No mês passado, a polícia da província australiana de New South Wales, cuja capital é Sydney, prendeu um ex-membro da equipe nacional de tênis de mesa chamado Adam Green por seu papel no que foi descrito como um “sindicato transnacional de apostas”. Suas apostas corruptas em partidas ucranianas resultaram em ganhos avaliados em 500 mil dólares australianos (cerca de US$ 385 mil), disse a polícia.

A Liga Pro russa, porém, nunca foi marcada por qualquer atividade suspeita e continua atraindo apostadores cada vez mais curiosos.

Brad Humphreys, economista esportivo da West Virginia University, disse que a ascensão do tênis de mesa era uma surpresa - “se eu tivesse feito uma lista de esportes que tiveram aumento no volume de apostas, o tênis de mesa internacional não estaria entre os cem primeiros” - mas que seguia uma certa sabedoria básica do mundo das apostas.

O formato, disse Humphreys, é fundamental. Os pontos na Liga Pro se movem rapidamente, e muitos apostadores em tênis de mesa, como Croft, se concentram inteiramente em apostas rápidas no meio do jogo, apostando em qual jogador ganhará o próximo ponto. As partidas também são breves, com os vencedores muitas vezes decididos em menos tempo do que um show do intervalo da NFL. Para os apostadores, é um impulso rápido, equivalente a uma raspadinha de loteria.

“Quando mais rápido você fizer com que a pessoa sinta a adrenalina que sente ao ganhar ou perder uma aposta, mais as pessoas vão querer apostar”, disse Humphreys. “É por isso que as máquinas caça-níqueis são tão viciantes”. / Ivan Nechepurenko contribuiu com reportagem de Moscou. / Tradução de Renato Prelorentzou

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