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'Não dei opinião sobre o Gareca. Queria o Vanderlei', diz Brunoro

Executivo afirma que preferia ter contratado Luxemburgo, fala dos erros da gestão e diz que Paulo Nobre precisa amadurecer

Entrevista com

José Carlos Brunoro

Daniel Batista, O Estado de S. Paulo

15 de dezembro de 2014 | 07h00

Um dos nomes mais criticados pela torcida, José Carlos Brunoro deixou o cargo de executivo do Palmeiras com o sentimento de dever cumprido. Em entrevista ao Estado em seu escritório, Brunoro revelou que quase pediu demissão porque suas opiniões não eram levadas em consideração. Brunoro contou que queria Vanderlei Luxemburgo no lugar de Ricardo Gareca, criticou a falta de liberdade para trabalhar e disse que o presidente Paulo Nobre precisa amadurecer e tomar cuidado com falsas amizades. A seguir os principais trechos da entrevista.

Porque você resolveu falar agora? Quando era dirigente do Palmeiras não apareceu tanto assim...
Desde o início da gestão foi elaborado um projeto que toda entrevista tinha que passar pela assessoria (de imprensa). Ela que definia quando, onde e com quem falar. Nunca pude ter a liberdade para falar quando eu quisesse, mesmo na crise. Eu queria falar, mas não tinha autorização.

Qual sua parcela de culpa por tudo que aconteceu no Palmeiras?
Parcela de culpa é complicado, mas tive participação em todas as decisões. Só que não dava a palavra final. Foi decidido que tudo seria resolvido em uma conversa entre o Nobre, o Omar (Feitosa, ex-gerente de futebol) e eu. E esse ano tinham mais dois vices (Maurício Galiotte e Genaro Marino) que se aproximaram do futebol.

O Palmeiras terminou o ano com quase 40 jogadores no elenco. Isso não é falta de planejamento?
Quando chegamos, em 2013, o Palmeiras tinha 18 jogadores e precisava montar o elenco para a Libertadores e Paulista e sem dinheiro. Por isso, trouxemos alguns reforços por empréstimo e subimos alguns da base. No meio do ano, voltaram jogadores de empréstimos e não teve recolocação no mercado. Sempre que chegava um treinador, a gente perguntava se era para afastar alguém e eles falavam que queriam trabalhar com todos, porque afastar alguém poderia criar um ambiente ruim. E empréstimo, os times queriam os atletas de graça e não aceitávamos isso.

Não seria melhor emprestar de graça ao invés de deixá-los só treinando?
Na minha visão, sim. Sempre bati nesta tecla. Você economiza, água, luz, funcionários e, claro, valoriza o jogador, porque ele poderia ir bem em outro clube e ser negociado. Mas era uma opinião pessoal, que não foi levada em consideração. Prevaleceu a vontade da maioria e a gente trabalhava junto, concordando ou não.

Queria ter ficado?
A minha família não queria que eu ficasse e eu ficaria dentro de algumas condições. Não seria mais o CEO porque assumi muita responsabilidade que não era vista. Só o futebol interessa e parece que tudo se resume ao time e o patrocínio master. Se fosse para ficar, seria só para tocar o futebol, mas nem chegamos a falar dessa possibilidade. O Nobre só me disse que não teria mais o meu cargo e ele tinha razão. O cargo de CEO é muito profissional para existir no futebol brasileiro, onde tem muita política.

Faltou liberdade para você trabalhar?
Sim, mas não foi culpa do Nobre. Ele tinha assessores e foi difícil assimilar esse modo de trabalho. A carreira toda eu tive autonomia e sempre fui um cara que confiavam muito em mim. Mas eram regimes profissionais e não estatuários. Eu tenho culpa nisso, também. Primeiro por ter aceito tudo isso e depois porque muitas vezes minhas opiniões não eram consideradas. Eu devia ter saído, mas durante toda a minha vida, nunca pedi para sair e sempre tive a esperança de que as coisas poderiam melhorar. Mas sim, acredito que precisava ter um pouco mais de liberdade para fazer as coisas.

Que opiniões não foram respeitadas?
Existem vários pontos. Eu não concordava, por exemplo, com o preço de patrocínio. Achava que a gente pedia um valor muito alto e não aceitava reduzir aquilo. Eu discordava na demora na hora de acertar um contrato também. Tudo virava novela. E tem algumas coisas que na visão da diretoria era considerado custo e eu via como investimento. Por exemplo, a categoria de base. Queriam cortar custos na base e eu achava que tinha que investir mais, pois teríamos retorno. Terminamos o campeonato com cinco garotos da base entre os titulares (Nathan, João Pedro, Gabriel Dias, Victor Luis e Renato). Essas situações foram difíceis de colocar na cabeça das pessoas. Acho um absurdo o marketing do Palmeiras trabalhar com três pessoas para atingir 16 milhões de torcedores e sem ter investimento. A única preocupação era não gastar. Tudo para eles era gasto.

Dentro dessa demora para negociar, o Palmeiras perdeu jogador por causa da lentidão para fechar acordo?
O Alan Kardec. A negociação foi muito longa. Perdemos muito tempo e faço a minha culpa. Eu deveria ter batido o pé e acertar logo com ele. O problema é que a palavra final sempre era do Nobre, então o que eu podia ter feito era sair da negociação, até para mostrar o quanto eu não concordava com o andamento das coisas. Eu sou muito mais prático. Essa demora propiciou que outros clubes entrassem na negociação.

Se você via tanta coisa errada, porque não pediu para ir embora?
Os problemas começaram no segundo ano da gestão. No primeiro, que ficou só o Nobre, Omar e eu tomando conta do futebol, estávamos arrumando a casa e profissionalizando tudo. No segundo ano, começaram a vir diretores estatutários (Genaro Marino e Maurício Galiotte), porque o Nobre precisava ficar livre para fazer a campanha eleitoral e ficou muita gente para decidir as coisas. Várias vezes chegava em casa com vontade de largar tudo. Criaram uma situação em que para a torcida, tudo era culpa minha. Chegaram a colocar na Internet um cartão de visita meu que tinha telefone pessoal anotado de caneta, ou seja, que eu havia dado para alguém muito próximo. Você começa a desconfiar que as pessoas não queriam que desse certo. Tive proposta para sair em outubro (o dirigente não quis revelar, mas o Flamengo o procurou). Eu poderia ter saído, mas não queria deixar o clube naquele momento.

Agora que acabou tudo, a  negociação do Barcos foi um mau negócio, não?
Foi um bom negócio, mas eu não faria de novo. Não tínhamos noção do tamanho do Barcos para a torcida. Como negócio, foi uma boa, porque nos livramos de uma dívida grande que tinha com ele, poderíamos perdê-lo na Justiça e estávamos sem time para inscrever na Libertadores. De uma vez só vieram quatro jogadores. Mas, de fato, poderíamos ter feito um sacrifício maior e segurá-lo pelo o que ele representava para o torcedor. Ele era um ídolo. Isso vale para o Alan Kardec também. Foram dois erros.

Contratar o Gareca também foi um erro?
Ele foi indicação de um sócio do clube e empresário de futebol, o José Luis Galante. Tínhamos combinado que eu falaria com o Vanderlei Luxemburgo, Dorival Júnior e o Arce. O Genaro e o Omar falariam com o Gareca. Eles foram para a Argentina e voltaram com boa impressão. O Gareca era um cara que agradava todo mundo no clube, então politicamente a vinda dele seria importante para unir mais o clube. Outros nomes tinham rejeição. E pensamos que durante a Copa ele poderia se adaptar. A contratação foi legal. A gente não esperava que as coisas fossem dar tão errado.

Então você foi favorável a vinda dele?
Eu não dei opinião sobre o Gareca, porque nem o conhecia. Eu sempre gostei do Vanderlei e queria ele. Senti, na nossa conversa, que ele estava motivado para vir e que poderia dar certo. Sei que ele ficou chateado por fazermos uma entrevista com ele, mas na verdade, o que fomos discutir era sobre comissão técnica e objetivos da equipe. Não daria, por exemplo, para ele trazer toda a comissão dele.

Como avalia o Paulo Nobre como presidente?
Ele precisa amadurecer. Conversei bastante com ele. O Paulo passou por muita coisa e durante toda a vida, teve autonomia para fazer o que quisesse, mas chegou em um modelo político bem complicado. Vários erros aconteceram e ele sabe o que precisa ser feito agora. Bateram muito nele nesses dois anos e acho que ele entendeu que em algumas coisas tinham razão. O Paulo precisa ter equilíbrio e saber que tem pessoas que podem ajudá-lo. Ele só precisa saber ouvir as pessoas certas e ficar em alerta, porque algumas pessoas podem prejudicar o trabalho dele.

Quem são essas pessoas?
Eu não posso falar. No momento certo, ele vai perceber. Alguns eu até já falei para ele tomar cuidado.

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