Paulo Liebert/Estadão
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Não pode, naturalmente

Os planos de privatização do Pacaembu seguem. Mas o que querem fazer com o estádio?

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

19 Agosto 2018 | 04h00

Desde 1988 que o problema do estádio do Pacaembu preocupa órgãos do governo de preservação de bens culturais. Preocupa tanto que o Condephaat, em resolução já antiga, aprovava o tombamento em definitivo de todo o conjunto arquitetônico, e o fez de maneira bastante rigorosa. Estipulava condições que protegiam o estádio de qualquer tipo de descaracterização que pudesse afrontar suas instalações originais.

Ao contrário do tombamento de bens construídos em tempos muito recuados, antes da fotografia, quando era praticamente impossível saber exatamente como um bem tinha sido concebido e qual era seu aspecto original, o estádio do Pacaembu é de ontem, 1940, com arquiteto conhecido e plantas originais existentes. Portanto, pode e deve ser conservado como era quando foi concebido, o que poderia implicar, digamos, na destruição do execrável Tobogã e sua substituição pela concha acústica original.

Essa sim seria uma reforma bem-vinda e não as que virão, com a pretendida privatização que pressupõe a mudança do estádio de bem cultural para bem comercial. Bem cultural, é o destino que lhe dava sua própria origem, quando o conjunto foi pensado na Prefeitura de Paulo Prado e na administração Mario de Andrade, no Departamento de Cultura da cidade de São Paulo. O pressuposto era um local gratuito, acessível a todos. Fazia parte de um projeto de educação pública muito caro a Mario de Andrade.

O Pacaembu, de fato, não é só um estádio. É local de prática de outros esportes, por isso a esplêndida piscina, o belo ginásio de esportes e locais para a pratica de caminhadas e ginástica ao redor do campo. Enfim, é o remanescente de uma cidade que caminhava para ser civilizada e acolhedora.

Agora, a privatização segue firme e forte. Foi suspensa, no entanto, pelo TCM – Tribunal de Contas do Município. A medida é meramente política, não tem nada a ver com preocupações pela preservação do Pacaembu. Produzida nesses instantes incertos e obscuros de véspera de eleições, é possível que o TCM em breve mude de opinião. Essa luta entre Prefeitura e Estado de São Paulo sobre a propriedade do Pacaembu é apenas manobra destinada propositadamente a colocar a questão de maneira oblíqua, que não permite discutir o que importa: o que se pretende realmente fazer do Pacaembu.

Procurei informações sobre a questão da preservação do estádio e encontrei dois textos bastante elucidativos. O primeiro é do professor, urbanista, ex-presidente do Condephaat, José Eduardo Lefévre, que dá seu parecer sobre algumas reformas pretendidas. O outro é da professora Cecilia R. Santos, publicado em 2006. Quem se dispuser a ler, o primeiro está em “Parecer apresentado na reunião n. 1866 do Condephaat. de 12/12/ 2006 aprovado com alteração no item 4”. O segundo em Site Vitruvius.docx(121KB) em 06/04/20006. Falam por si. Outras informações também. Estão em: https//www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/desestatização/projetos/pacaembu/ edital_pacaembu/index/php e são as propostas da Prefeitura de São Paulo com as reformas que pretende fazer no estádio, com fotos.

Essas propostas já foram examinadas pelo atual Condephaat e aprovadas! O leitor que faça seu juízo, a partir desses textos e informações. Já falei e escrevi muito sobre o Pacaembu. Agora, a palavra fica com o professor Lefèvre, a professora Cecilia e os delírios da Prefeitura. O título dessa coluna vem do texto da própria professora Cecilia, citando Lucio Costa quando, diante de longa proposta que tentava explicar a intenção de remodelar o Passeio Público do Rio de Janeiro, deu seu parecer em apenas três palavras. “Não pode, naturalmente”. Precisava dizer mais? 

 

 

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