Não se fazem mais batedores de falta no Brasil como antigamente

Antes um celeiro de batedores, futebol no País vive uma escassez de jogadores com essas características

GONÇALO JUNIOR E WILSON BALDINI JR., O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2013 | 09h55

SÃO PAULO - Está em extinção aquele tipo de cobrador de faltas que deixa o goleiro de pernas bambas quando ajeita a bola, que chuta de qualquer distância e que obriga o narrador a usar o bordão "é meio-gol".

Além da queda nos gols de falta no Campeonato Brasileiro (133 em 2011 contra 116 em 2012), grandes batedores assinam embaixo dessa afirmação. "O talento está escasso", sentencia o ex-meia Marcelinho Carioca, que ganhou o apelido Pé de Anjo pela sua precisão nas bolas paradas. Ao longo de sua trajetória no Corinthians, o camisa sete fez 206 gols, 51 deles de falta. Média: a cada quatro gols, um foi de falta.

Neto, ex-Guarani e Corinthians, afirma que o problema de hoje é a falta de treinamentos. "Os jogadores ficaram preguiçosos e pararam de treinar. Bola parada é treino. Só o dom não resolve", diz o comentarista da Bandeirantes, que, pelas suas contas, marcou um terço dos seus 300 gols com a bola parada.

O volante do Santos Marcos Assunção, outro especialista no assunto, concorda que no passado o futebol brasileiro era muito mais fértil. "Falta a presença de jogadores jovens se dedicando a essa especialidade." A mesma coisa diz Nelinho, lateral-direito do Cruzeiro nos anos 70, dono de um canhão capaz de amedrontar qualquer adversário. Ele conta que treinava tanto que não havia goleiro que o acompanhasse nos treinamentos. "Eu treinava faltas quase todo dia. E eu fazia isso com prazer, porque a coisa que eu mais gostava no futebol era bater na bola. Quando tinha treino recreativo, na véspera do jogo, eu ficava uma hora a mais só cobrando faltas."

A questão é tão séria que entrou no "planejamento estratégico" do supercampeão Corinthians. Tite afirma que um dos pontos vulneráveis do time é o fato de não ter um bom cobrador de faltas. Ele já testou Fábio Santos e Romarinho, mas ainda não encontrou o cara. "Perguntei para o Pato se ele não poderia bater faltas. Ele disse que batia de vez quando. Pensei comigo: ‘Não serve’. Bater faltas tem de ser um hábito", diz Rivellino, apelidado de Patada Atômica na Copa de 70 por causa da canhota indefensável.

Rivellino acredita que os clubes estão menosprezando um lance que decide jogos. E decide mesmo. Zico, por exemplo, conta que um de seus tentos preferidos resolveu a final da Libertadores da América de 1981, contra o Cobreloa. E cada batedor tem uma história de título decidido na bola parada. Marcelinho tem duas: Campeonato Paulista e Copa do Brasil de 1995.

EXCEÇÕES

No marasmo atual, apenas alguns veteranos honram a velha tradição brasileira. É o caso de Juninho Pernambucano e Rogério Ceni. O vascaíno fez cem gols nas oito temporadas em que defendeu o Lyon, da França – 44 de bola parada. O site americano Bleacher Report comparou a maneira como ele cobra faltas com as tacadas de beisebol e, por isso, escolheu-o como um dos melhores. Rogério é um especialista no chute curto, por cima da barreira, e seus números falam mais do que mil palavras. Dos 112 gols de sua carreira, 58 foram de falta.

A cobrança de falta não é um lance fechado no binômio talento/treino. Quando o tempo para diante do duelo entre goleiro e cobrador, há espaço para a criatividade. Antes da final do Paulista de 1995, Marcelinho ensaiou a paradinha que antecedeu a cobrança de falta que decidiu o jogo. Foi mais esperto do que o salto da barreira. Em 2011, Ronaldinho Gaúcho deu uma tacada de mestre por baixo da barreira quando os santistas saltaram. "A falta é um jogo de xadrez, mas é preciso estar preparado para jogá-lo ", resume o santista Pepe, o velho Canhão da Vila.

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