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Não somos ratos

O roedor no campo do Vasco é imagem do futebol brasileiro só para azedos e complexados

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2018 | 05h00

A bola voltou a rolar por aqui, anteontem, e a imagem de um assustado e robusto rato perdido no gramado de São Januário em poucos minutos viralizou – fez sucesso nas redes sociais, para usar linguagem moderninha. Não faltou quem visse no roedor a síntese do futebol nacional. Ainda mais porque houve polêmicas, quebra-pau e invasão em Vasco x Bahia, pelas oitavas de final da Copa do Brasil.

A gozação é inevitável e faz parte do que resta de nosso espírito gaiato, aquele que durante muito tempo nos fez rir de nossas mazelas. Não há como impedir de rivais tirarem onda dos vascaínos. Cachorro a passear em campo é cena comum, aqui e no mundo. Os ninhos de quero-queros, então, viraram fato rotineiro. Mas rato...

O lado chato do episódio são as ilações com ares filosóficos e fatalistas. Os derrotados de plantão não perderam chance de apontar o dedo e ver no prolífico animal o símbolo do que nos tornamos. A coisa estaria tão feia que as ratazanas se sentem à vontade.

Calma lá, conterrâneos, não vamos esculhambar de vez. O panorama não é dos mais entusiasmantes, porém estamos longe de ser a porcaria que a turma do apocalipse proclama. Nem nas figuras de linguagem nem literalmente. Ratos são praga universal e luta inglória. 

(A propósito, abro parênteses para uma historinha. Dois anos atrás, em passagem por Paris, aproveitei folga no trabalho para dar um giro pelo centro. Ao chegar à bela praça ao redor da igreja de Saint-Jacques, vi os portões fechados em horário normal. O local estava interditada por causa da presença de milhares, milhares mesmo, de ratos do tamanho ou maiores do que os de São Januário. Os bichos se espalhavam também pelas calçadas. Paris, capital do país campeão do mundo...)

A escorregada da seleção na Copa da Rússia e a debandada inevitável de meio de ano contribuem para disseminar baixo-astral e atiçam os europófilos, europeófilos – bom, sei lá se existem essas palavras. Enfim, para o pessoal que se curva para qualquer brilhareco que venha da Europa. O que mais se viu, nestes dias, foram elogios à organização, estratégia, evolução, aplicação e um monte mais de qualidades dos donos do mundo da bola. Não lhes tiro os méritos, pois não sou tonto. Só não concordo que na metade Norte do planeta tudo seja maravilhoso, enquanto o restolho fica para a parte Sul. 

Interesse e amor pelo futebol brazuca existem, e a prova surgiu no público que foi a São Januário e ao Mineirão (Cruzeiro x Atlético-PR). Os dois estádios estavam perto de lotação máxima. Gostamos de futebol, e dentro das limitações atuais as competições daqui são mais equilibradas. Isso que a cartolagem ainda um dia vai descobrir.

Precisamos de mudança de mentalidade, e aí a porca torce o rabo. Não dá para esperar grande coisa de uma CBF presidida há décadas por personagens, digamos, controvertidos. Não existe grande perspectiva com federações que viraram feudos, tampouco com clubes esquálidos e com finanças raquíticas – a maioria. 

Há exemplos animadores – Palmeiras e Flamengo para citar duas potências –, mas exceções e sujeitos aos humores de patrocinadores e/ou do empenho de quem os comanda. Se aparecerem perdulários ou espertalhões, vai tudo pro espaço em pouco tempo. São vozes solitárias, que um dia, lá adiante, poderão agregar mais seguidores. 

Por ora, dividimos espaço com notícias sobre Cristiano Ronaldo em nova aventura milionária, ou sobre Vinicius Júnior chamando a atenção nos primeiros treinos no Real Madrid, enquanto o líder Fla verá hoje, diante do São Paulo, como será sua trajetória na Séria A sem o rapaz. Noves fora ceticismo, viva o futebol brasileiro com as suas emoções. 

PS. Que fim levou o ratinho de São Januário? Algum gato o abocanhou?

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