Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

'Não tenho vontade de sair do São Paulo', diz Michel Bastos

Meia sonha com a conquista do título da Libertadores

Entrevista com

Michel Bastos

Ciro Campos, O Estado de S. Paulo

30 de abril de 2015 | 07h00

Em oito meses no São Paulo o meia Michel Bastos conseguiu vencer a desconfiança da torcida e agora é de titular incontestável. Autor de gols decisivos e líder de assistências no ano, o jogador concedeu entrevista exclusiva ao Estado para falar da Libertadores e garantir que a vitória sobre o Corinthians marcou o reinício da equipe na temporada.

A vitória sobre o Corinthians virou o modelo de atuação para o São Paulo seguir?

Quando se conquista um resultado positivo em um jogo em que a equipe foi bem em todos os quesitos, tem de pegar esse jogo como exemplo e tentar manter ou melhorar. Temos de pegar o jogo como ponto de partida. Estamos nas oitavas da Libertadores e depois tem o Brasileiro, então vamos dizer que daqui se começa do zero. E é sempre bom iniciar com confiança, vindo de uma grande vitória.

O São Paulo tem pela frente um confronto contra outro time brasileiro. Mata-mata caseiro é pior ou mais fácil?

Nesse momento da competição eu não posso dizer que seja melhor ou pior. Agora vai afunilando e só tem as equipes que fizeram as melhores campanhas na fase de grupos. Então cada vez mais se chega perto da decisão e mais dificuldade se tem. Não podemos escolher adversários. Poderia ser difícil da mesma forma caso o jogo fosse contra alguma equipe de outro país. 


O São Paulo caiu no lado difícil do mata-mata da Libertadores e para ir à semifinal pegará Cruzeiro e River ou Boca. O que vocês acham disso? 

Gosto de desafios, até para valorizar a vitória e uma boa atuação, contra uma grande equipe. Lógico que se fosse escolher, eu tentaria facilitar, mas eu tento levar para o lado positivo. É bom poder enfrentar um Cruzeiro, um Boca ou um River, porque isso te dá oportunidade para jogar um clássico, contra uma equipe grande, e amanhã ter história para contar. Posso dizer que joguei na Libertadores e fiz um gol contra o Corinthians em um jogo decisivo. Posso contar isso para o meu filho e ficar marcado.

Você extravasou bastante na comemoração, inclusive.

Sempre extravaso bastante quando faço gol. Mas não tenho nada contra o Corinthians, só defendo a camisa do time em que jogo. Quem está do outro lado quer ganhar e fazer gol no São Paulo, e do nosso lado também tem essa vontade. Não vou mentir: a gente precisava ganhar aquela partida e eu pude ajudar.

A cada fase que passa pode significar o último jogo do Rogério Ceni pela Libertadores. Ele fala isso para vocês?

O Rogério passou para todos nós o que é ganhar uma Libertadores, e isso deu um gás para todos nós. Alguns aqui são novos, outros têm mais experiência, como eu, com quase 32 anos, e é a minha primeira Libertadores. Logo na estreia estou em um grupo que tem condições de ser campeão. Com certeza o fato de o Rogério ter exposto para a gente que ele não quer parar no meio do caminho nos incentivou. 

O que mais te surpreendeu na Libertadores?

O nível técnico talvez não se compare à Liga dos Campeões, mas o nível de agressividade, contato com o jogadores, é muito mais forte. É muito mais pegado. Um jogo que vi que o time veio aqui só para bater foi contra o Danubio. Os times muitas vezes esquecem de jogar bola. 

Como está a sua renovação de contrato (o vínculo termina no fim do ano)?

Já expus que tenho vontade de permanecer no São Paulo, pelo que venho vivendo e pelo meu bom relacionamento com os torcedores, treinador, comissão técnica e diretoria. Não esperava que fosse dessa forma. Todo mundo aqui hoje aposta no meu futebol. Não tenho vontade de sair. Vim aqui com um contrato curto, mas tanto eu como o São Paulo já falamos sobre a vontade de continuar. Tenho certeza de que vai ter acordo logo.

Gols de Michel Bastos no jogo contra o Osasco Audax, pelo Campeonato Paulista


Por ser experiente, você tem um papel de liderança no grupo do São Paulo?

Pelo fato de ter mais experiência e ter chegado e visto que tenho bastante abertura dentro do grupo, eu sou eu mesmo. Não faço nada daquilo que não seja a minha pessoa. Brinco com quem eu sei que posso brincar. Como aqui no grupo eu tenho bastante abertura para fazer minhas brincadeiras, dar risada e poder animar o elenco, aproveito disso e mostro quem eu sou. Por isso também que eu acho que conquistei as coisas aqui no São Paulo bem rápido. A minha adaptação junto com o grupo foi excelente, sinceramente aqui dentro do São Paulo conquistei amigos. Sou extrovertido mesmo, gosto de brincar e já fazia isso quando estava na Europa. O mesmo espaço que conquistei aqui, consegui nos tempos de Lille e de Lyon. Dei a sorte de chegar nesses clubes e ter a abertura de ser o cara extrovertido que sou, mas que sabe a hora de brincar, de fazer piada. Tem horas que temos que ter seriedade. Também tem momentos no grupo em que tenho que ser sério e se precisar cobrar de alguém, eu vou cobrar. Isso não é exposto dentro de campo, mas já fui de cobrar jogadores dentro do vestiário antes de um jogo ou após, então também tenho um lado mais rigoroso. Mas sou o cara que tenta mais colocar um bom ambiente dentro do grupo.

Você também interessava a outros clubes antes de vir para o São Paulo. Qual poderia ter sido o seu destino?

Quem realmente estava bem encaminhado foi o Cruzeiro. Uma coisa que atrapalhou bastante foi a negociação entre os dois clubes. O salário e o meu contrato já estavam praticamente certos. Depois, com o tempo, a conversa foi mudando um pouco e sempre gostei de ser claro e aberto. O negócio não foi para frente e com o São Paulo foi diferente. Já foi bem direto, tanto quanto o Milton Cruz entrou em contato comigo, como o Gustavo (Oliveira, gerente de futebol). O fato de o Kaká ter intermediado e ter me passado tudo o que ocorria dentro do clube, então ter um amigo aqui dentro também ajuda. Eu queria voltar, queria jogar e por isso também foi bem rápido. Fiquei um bom tempo negociando com o Cruzeiro e com o São Paulo foi algo mais rápido e direto.

Você ficou nove anos fora do Brasil. O que mudou no nosso futebol?

Algumas estruturas melhoraram, estádios modernos por causa da Copa do Mundo e isso é muito bom, mas de resto, não quero entrar em detalhes, mas tem coisas que ficaram paradas no tempo ou até pioraram.

Quais as principais qualidades do trabalho do interino Milton Cruz?

Ele é um cara que tem bastante contato com o grupo, pelo fato de estar aqui há muito tempo e também por boa parte dos jogadores que estão aqui foi ele quem intermediou a vinda e entrou em contato. É um cara muito comunicativo, isso ajuda até no contato do jogador com o treinador. O Milton conhece muito o São Paulo, vem fazendo um bom trabalho. Ele é muito alegra, motiva o grupo e ajuda a trabalhar melhor. Não que o Muricy Ramalho não fosse.

Você sentia falta de ter uma passagem longa por um clube brasileiro?

Sempre tive vontade de voltar, pelo fato de ter ficado muito pouco tempo aqui. Foi comprovado na minha chegada ao Brasil que a maioria das pessoas não conhecia o meu futebol, apesar de eu ter jogado uma Copa pela seleção. Vi que muita gente tinha um ponto de interrogação sobre o Michel Bastos. Sempre quis ter a vontade de voltar e mostrar quem eu sou. Fico feliz de hoje poder mostrar isso. Queria voltar e ter uma estadia maior.

Chegou a receber sondagem para ser naturalizado?

Tive uma pequena reunião com pessoas da comissão técnica da seleção francesa, um encontro no sentido de colocar o negócio em pauta. Acabei até me naturalizando e com certeza, se tivesse vontade de jogar pelo país deles, seria convocado. Mas desde o começo falei que não tinha intenção. Até quando me fizeram pela primeira vez a pergunta falei que não abria mão de tentar um dia jogar pela seleção do meu país.

Você ficou frustrado por não ter voltado à seleção depois da Copa de 2010?

Fomos eliminados na Copa do Mundo, a base daquela seleção saiu e eu fui no embalo. Voltei para o Lyon, fiz boas temporadas, tanto como a que fiz pelo São Paulo. Mas ficou marcado pelo fato de eu ter ido para uma Copa do Mundo não tão reconhecido como os jogadores que estavam lá. Faz parte.

Na sua opinião houve uma ‘caça às bruxas’?

Alguém tem de pagar o pato. Depois da Copa continuei mantendo um bom nível no Lyon e via que as chances de voltar eram remotas, por isso passei a focar no meu clube mesmo. Nunca vou abrir mão de seleção brasileira, mas hoje minha prioridade é o São Paulo. E, se fizer bem o meu trabalho aqui, vou colher alguns frutos.

Foi sofrida a sua adaptação à Europa quando se transferiu?

Na Holanda eu cheguei com 17 anos, foi bastante complicado. Para os outros países nem tanto. Já fui com esposa, família e mais maduro, com mais cabeça e mais vontade. Sempre fui um cara que quando prioriza, vai em frente. Cheguei na França querendo aprender a língua. Hoje falo fluentemente quatro línguas: português, francês, espanhol e inglês. Falo um pouco de holandês também.

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