Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

‘Não vou a Brasília nem na ida nem na volta, nem ganhando nem perdendo’

Treinador afirma que não será usado pelos políticos com o Mundial, e diz que a seleção ainda precisa de um bom ‘ritmista’

Entrevista com

Tite, técnico da seleção brasileira

Almir Leite e Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2018 | 07h00

Tite está a quatro meses do início de seu maior desafio. A seleção brasileira estreia na Copa do Mundo em 17 de junho, contra a Suíça, e o treinador passa os dias debruçado nos últimos detalhes para que tudo dê certo na Rússia. Dar certo significa ser campeão. É pressão forte, que traz momentos de insegurança e ansiedade. Ainda assim, ele garante que consegue manter-se sereno. “Um bom dia de trabalho me traz serenidade’’, disse, em entrevista ao Estado.

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A conversa ocorreu em um dos locais preferidos de Tite: sua sala na sede da CBF, no Rio. Nela, passa boa parte dos dias, entre relatórios, planilhas, uma lousa com um campo de futebol que contém distribuição tática e frases de autoajuda e algumas imagens de santos. 

À vontade, o treinador de 57 anos falou dos amistosos de março contra Rússia (23) e Alemanha (27), da formação do grupo que tentará o hexa, de assuntos polêmicos como árbitro de vídeo. E de política. Defendeu de forma enfática o combate à corrupção e deu um recado claro: não vai se deixar ser usado. “Não vou a Brasília nem antes nem depois da Copa. Nem ganhando, nem perdendo.’’

Estamos a quatro meses da Copa do Mundo. Em que estágio está a seleção brasileira?

Em um processo de consolidar e evoluir. Os estágios que ela vai atingindo a gente procura consolidar e ampliar.

Na convocação para os amistosos de março, a seleção vai ter mais jogadores estreantes?

Não. Ela é mais na base já montada. Agora é um momento de consolidação, e até de uma variação de estrutura tática, que é importante para a Copa. E possivelmente eu convoque dois, três a mais (que os 23) para que eu possa observar dentro do ambiente da seleção.

Os amistosos fecharão o grupo?

Eu gosto de falar de merecimento, mas o merecimento tem um limite, que é a necessidade da equipe. O que quero dizer com isso é que daqui a pouco vou ser injusto. Alguém que merecia ser convocado, não vai ser. Daqui a pouco posso precisar de um articulador, um jogador de armação. Para usar um termo próprio de carnaval, de um ritmista. Aí, para encontrar esse jogador, mesmo que ele não esteja na melhor das condições, mas pela necessidade da equipe, será convocado um atleta. 

Neymar foi para o PSG para levar o clube a ser protagonista na Europa e também para ficar mais perto de ser o melhor do mundo. Você teme que se em um primeiro momento ele não atingir esses objetivos, isso possa ter reflexo na seleção?

Quem pensa que o protagonismo de uma equipe pode se dar em um ano só da formação dela, pensa muito pequeno, e não sabe como uma equipe é construída, maturada, evoluída, errada, acertada. É um processo de crescimento que o PSG e o Neymar vão passar juntos. 

Por que o amistoso com a Alemanha?

Fantasminha aqui na frente. Se tiver de enfrentar na Copa, não vou ter de responder tantas e tantas vezes algo como “a Alemanha veio aqui, venceu e foi campeã” e tudo mais. Vamos jogar de novo, com eles. Passamos a nova etapa, mas ainda não pegamos a Alemanha...

Você vai querer desempenho ou resultado?

Desempenho antes. Isso é convicção. Vou cobrar jogar bem. Atleta tem de estar mentalmente forte e jogar bem. Isso eu vou cobrar e cobro de mim antes. O resultado eu não posso controlar. E lá nós vamos ter um desafio, inclusive mental. Contra a Alemanha, que nos venceu dentro da nossa casa, jogar lá na casa deles e ter que jogar bem. 

Existe uma polêmica no vôlei em relação à transexualidade. O que você acha da inclusão do transexual no esporte?

Não é uma questão de preconceito, é uma questão biológica. Foi uma menina do vôlei que respondeu, e eu tenho exatamente a mesma opinião. Tu desenvolves níveis de força, testosterona e o escambau, tem uma força maior que o garoto tem em relação à mulher, à velocidade. Aí, daqui a pouco tu modificas e levas uma vantagem biológica em relação ao processo de maturidade. O quanto isso é justo? Não me parece justo. E não é uma questão de preconceito, é uma questão biológica.

É tradição que a seleção, quando campeã, vá a Brasília falar com o presidente. Você vai a Brasília se for campeão?

Eu, Adenor, não vou na ida nem na volta. Nem ganhando, nem perdendo.

Teme ser usado politicamente? Estamos em ano de eleição...

Não, não. Já aconteceu até comigo, de não ser autorizado, ser filmado e daqui a pouco estar aparecendo a minha imagem num processo seletivo de apoio. Tenho esses cuidados. Até porque é muito mais importante politicamente nós termos um bom comando, porque isso vai gerar uma educação melhor pro País, saúde melhor, segurança maior. Entre a política limpa e o esporte, a prioridade é a política, para a gente ter um Brasil melhor. Se tiver, vai ter um esporte, um futebol melhor. 

Você vai declarar apoio a algum candidato?

Não publicamente, mas internamente, as pessoas próximas a mim, vão saber as pessoas que eu gosto. Mas essa eu já externo: eu não sei às vezes escolher qual que é o melhor, mas eu posso ver quem tem ficha suja. E esses de ficha suja, pra mim, estão todos fora.

Você apoiaria, ou votaria, em alguém ligado ao esporte? Por exemplo, o Bernardinho pode se candidatar...

Se for ficha limpa, sim. Esse é o pré-requisito básico.

Em que ocasiões você olha para essas frases que escreve na lousa que está em sua sala (Saber, ver, entender para julgar e orientar e quem não consegue mudar de opinião não muda nada, entre outras)?

Quando me sinto inseguro, quando meu fantasminha bate mais forte, minha expectativa se torna maior. Eu dou uma refletida, recorro a elas (frases) e começo a refletir. 

E quando isso não é suficiente, a quem você recorre?

À minha família. A minha esposa talvez saiba muito mais (sobre ele). À minha espiritualidade, de ficar um tempo quieto, fazendo reflexão, meditação.

Você está morando no Rio. Como está a adaptação.

Boa, mas é difícil acostumar com o calor. E tem a violência. Preocupa, chateia.

Teme insucesso na Copa?

Claro! Isso é real. Isso me engessa e me amedronta? Não, mas eu convivo com isso porque não ir bem é uma das possibilidades que tenho na seleção, porque vou enfrentar outras de nível. Quando a gente procura querer controlar resultado, isso pode te engessar, gerar pânico. Agora, uma pitada de medo faz com que te prepare melhor, te desafie mais. Eu me desafio. Eu quero ser o melhor Tite possível.

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