Paulo Whitaker/Reuters - 30/05/2010
Paulo Whitaker/Reuters - 30/05/2010

Nasa e IPT analisam bola usada na Copa

Estudo aponta que jogadores não devem ter melhor controle com a Jabulani do que com a Teamgeist, do Mundial alemão

Agência FAPESP,

24 de junho de 2010 | 14h02

Golaço ou gol contra? A maior polêmica da Copa do Mundo na África do Sul até o momento ainda não tem uma conclusão. Para alguns, a bola oficial do evento, denominada Jabulani ('celebração', em zulu), representa uma notável evolução do ponto de vista tecnológico. Para outros, o resultado deixa a desejar.

O atacante Luis Fabiano, da seleção brasileira, criticou a Jabulani. O goleiro Júlio César a chamou de "bola de supermercado". Fernando Torres, atacante espanhol, também falou mal dela. Já Kaká está entre os que a elogiaram.

As maiores críticas foram em relação aos movimentos imprevisíveis da bola, promovidos por sua resposta aerodinâmica, especialmente nos chutes mais fortes. Na primeira rodada, com o baixo número de gols, a reclamação foi ainda maior. Mas, no fim da primeira fase da Copa, os gols voltaram. Portugal marcou sete na Coreia do Norte. O próprio Luis Fabiano fez dois em cima da Costa do Marfim.

Para o fabricante, a Adidas, a Jabulani representa um avanço. Mas o próprio presidente da empresa, Herbert Hainer, reconheceu que é preciso um certo tempo para se acostumar com a bola, por ser "mais aerodinâmica e mais rápida".

Pesquisadores da Nasa, a agência espacial norte-americana, e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) decidiram avaliar o comportamento da Jabulani. No Centro de Pesquisa Ames da Nasa, na Califórnia, foram feitos testes para comparar a bola com a usada na Copa de 2006, na Alemanha, a Teamgeist ('espírito de equipe').

A Teamgeist, no lugar dos hexágonos costurados das bolas tradicionais, tinha oito painéis fundidos por um processo térmico, que elimina a necessidade de costura, mesmo interna. A Jabulani tem 14 painéis e ganhou sulcos aerodinâmicos.

A conclusão da Nasa é que, com a nova bola, os jogadores não devem ter melhor controle do que com a Teamgeist. "É bem óbvio. O que estamos vendo é um efeito 'knuckle-ball'", afirma Rabi Mehta, engenheiro aeroespacial no centro Ames. 'Knuckle-ball' é um arremesso no beisebol em que a bola não é segurada com os dedos, mas sim com seus nós, resultando em movimento com curva acentuada e imprevisível para o rebatedor.

Segundo Mehta, quando a Jabulani se desloca em velocidade elevada, o ar ao redor é afetado pela superfície da bola, resultando em um fluxo assimétrico. Essa assimetria cria forças laterais que podem resultar mudanças súbitas no percurso. De acordo com o cientista, a Jabulani tende a assumir o 'efeito knuckle' ao superar os 75 km/h, o que corresponde a um chute forte.

Outro ponto a ser considerado, segundo Mehta, é que vários dos estádios em que ocorrem os jogos da Copa da África do Sul estão em altitude elevada (Joannesburgo, por exemplo, fica a 1.600 metros do nível do mar). "Isso afeta a aerodinâmica da bola, uma vez que a densidade do ar é menor. Em altitudes altas, ela tende a se deslocar mais rapidamente, com menos empuxo", explica.

NO BRASIL

Os pesquisadores Gilder Nader e Antonio Luiz Pacífico, do Laboratório de Vazão do IPT, fizeram testes no túnel de vento atmosférico do instituto com bolas de torneios oficiais de futebol.

Foram testadas as bolas dos campeonatos Paulista e Brasileiro deste ano e das Copas de 2006 e 2010. Os testes foram encomendados pela Rede Globo. Segundo Nader, foram realizadas medições com visualização do escoamento de ar em volta de cada bola. Para isso, foi utilizado o sistema PIV (Particle Image Velocimetry), com emprego de raios laser.

"Verificamos que a bola do Campeonato Brasileiro, por exemplo, com superfície mais rugosa, do tipo clássico, tem coeficiente de arrasto (resistência ao ar) mais baixo e um bom deslocamento. As bolas das Copas apresentaram um descolamento mais rápido e maior coeficiente de arrasto", diz.

Ao ser chutada, a bola ganha uma velocidade inicial que vai diminuindo até que, em um determinado momento, atinge o chamado "ponto de crise de arrasto", explicou Gilder. "É quando ela faz uma curva. Com a bola do Brasileirão, esse ponto demorou mais para ser alcançado, em uma velocidade de aproximadamente 13 metros por segundo. A Jabulani atinge esse ponto e faz a curva bem antes, em uma velocidade que ainda vamos medir com exatidão", afirma.

As bolas de futebol evoluem constantemente, com grandes novidades surgindo em cada Copa do Mundo. As atuais, e não apenas a Jabulani, são muito diferentes das usadas há meio século. Na Copa da Suécia, em 1958, por exemplo, a bola era de couro curtido, chamada de 'capotão', pesada e que se encharcava em dias chuvosos, dificultando a precisão dos chutes.

Mas isso, claro, não impediu que o Brasil fosse campeão nem que Pelé, então com 17 anos, assombrasse o mundo com momentos antológicos, como o gol da final, em que deu um 'lençol' no zagueiro sueco e chutou a bola ainda no ar para o fundo da rede e da história. Mostrou que craque que é craque dá show com qualquer bola. E isso o mundo já está vendo na Copa da África do Sul, independentemente das polêmicas envolvendo a Jabulani.

 

 

 

 

 

 

 

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