Franck Fife/AFP
Franck Fife/AFP

Nascido na periferia de Paris, Mbappé rouba a cena e chega badalado às quartas

Jovem atacante foi o nome da seleção francesa em vitória sobre a Argentina

Gonçalo Junior, enviado especial / Moscou, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 05h00

A palavra francesa banlieue significa subúrbio, periferia. Na maioria das vezes, concentra famílias de baixa renda, como os bairros de Clichy-sous Bois e Bondy. Séculos atrás, o termo significava “lugar proibido”: era para lá que nobres enviavam criminosos e mendigos. A partir dos anos 1970, a palavra ganhou um novo significado.

+ Coincidências com 1998 animam França na busca pelo título na Rússia

+ Griezmann exalta Mbappé e vive expectativa de duelo com o amigo Godín nas quartas

Hoje, ele representa os bairros populares para famílias de baixa renda. São locais que “acolheram” a onda de imigrantes que chegou ao país após a independência das ex-colônias africanas nos anos 1960. Kylian Mbappé, a nova joia francesa, nasceu em Bondy, nos banlieues de Paris. É esse o mundo que ele representa na Copa da Rússia

Os indicadores sociais de onde ele nasceu ficam à sombra da Cidade Luz. No fim de 2017, o índice de desemprego era de 11,4%. Entre os jovens, a taxa era maior: 23%. A repressão policial, outro problema, dificilmente aparece nas estatísticas. Foi esse caldo que alimentou os protestos violentos de 2005. 

Cidadãos franceses descendentes de africanos e árabes, junto com jovens brancos, incendiaram carros e enfrentaram a polícia por mais de duas semanas. Os tumultos começaram no subúrbio de Paris, quando dois jovens morreram aparentemente ao fugir da polícia. Logo, eles se transformaram em uma manifestação contra o racismo, a repressão policial e as escassas oportunidades de emprego para os imigrantes. Cidade partida. Paris dividida.

Na época dos protestos, Mbappé tinha seis anos. Os pais cuidaram para que ele não soubesse direito o que estava acontecendo. O esporte foi a válvula de escape que encontraram. Seu pai, Wilfried Mbappé, era o diretor do time local de futebol; sua mãe jogou handebol. 

Com 11 anos, ele já era considerado um fenômeno. As paredes do quarto eram forradas de fotos do ídolo Cristiano Ronaldo. Ele foi a Londres e passou um período de experiência no Chelsea. Não deu certo. Frustração. Quando voltou, assinou contrato com o Monaco e começou a ultrapassar os muros invisíveis que separam o centro de Paris da periferia. Destaque das categorias de base, Mbappé foi o jogador mais jovem a estrear pelo profissional, aos 16 anos. Também foi o mais jovem a marcar gol no campeonato francês, com 17 anos e 62 dias, desbancando o ex-atacante Thierry Henry, outro de seus ídolos. 

 

Hoje, ele mudou de casa, mas sua lenda – sim, ele já é uma lenda – permanece. Existe um mural gigantesco em um dos prédios centrais com a pintura do novo astro e a frase: “Bondy, cidade das possibilidades”. É uma visão otimista e açucarada do sofrido subúrbio parisiense. 

Com os dois gols que fez na Argentina de Messi, Mbappé se tornou aos 19 anos o jogador mais jovem a marcar duas vezes na fase de mata-mata desde Pelé, que também fez dois aos 17 anos na Copa de 1958. “Fico feliz, mas Pelé está em outra categoria”, disse o menino de 19 anos, sempre sorridente. 

FONTE

Mbappé não é o único representante da periferia na seleção francesa. Pelo contrário. Os banlieues parisienses são uma fonte de talentos. Dos 23 jogadores convocados por Didier Deschamps, oito começaram suas histórias nas regiões de imigrantes. A descrição da história de Mbappé vale para Pogba, Kanté, Mendy e Matuidi – só para citar os titulares. 

Entre os reservas estão Areola, Kimpembe e Nzonzi. Naturalmente mudam os nomes dos bairros, mas a matriz é a mesma. Paul Pogba, por exemplo, cresceu em Lagny-Sur-Marne. 

Depois de serem garimpados nas quadras de cimento com pintura descascada, centenas vão para a Clairefontaine, o centro de treinamento nacional. Aí começam a pular o muro. 

Esses meninos da periferia trazem um estilo de jogo diferenciado, baseado na velocidade, no drible, na habilidade para resolver as jogadas em pequenos espaços e no raciocínio rápido. É do improviso e da criatividade. Esses locais são a versão francesa dos campinhos de terra que são cada vez mais raros no Brasil. Futebol de raiz. As idades e as cores se misturam nos jogos. Mbappé tirou Messi da Copa e aponta um caminho para o futuro do futebol francês. E ele começa atrás do muro.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.