Náutico: Muricy quer surpreender

Apesar de ser o único time de segunda divisão do Campeonato Brasileiro disputando a Copa dos Campeões, o Náutico, já provou que não veio ao torneio para ser coadjuvante. Enfrentou dois times grandes - Corinthians e Fluminense - e, com dois empates, saiu invicto dos confrontos. No domingo, vai decidir uma das vagas para a próxima fase da competição contra o Paysandu, jogando de igual para igual com o time paraense, que deve contar com o apoio de sua fanática torcida.Quem não conhece o Náutico pode ficar um tanto surpreso com seu desempenho, mas o técnico Muricy Ramalho não. O treinador explica que na Copa dos Campeões há muito mais em jogo do que o prêmio em dinheiro. A classificação para a próxima fase seria a prova de que o ex-assistente de Telê Santana está certo ao apostar que os times da ?periferia? do futebol brasileiro têm uma chance de enfrentar as grandes potências apostando no trabalho profissional e na modernização.Muricy não se constrange ao falar da reputação que ganhou em Pernambuco. "Lá eles me chamam de chato", admite com humor. Segundo ele, a fama veio de sua insistência junto aos dirigentes do Náutico de que o clube deveria não só apostar nas categorias de base como forma de investimento - lição que aprendeu no trabalho que realizou no São Paulo - como também procurar oferecer melhores condições de trabalho para atletas e comissão técnica."Quando cheguei ao clube há dois anos encontrei jogadores com problemas de falta de alimentação", lembra Muricy. O treinador conta que estava consciente de que a condição financeira modesta do Náutico não seria suficiente para oferecer as condições de trabalho que conheceu no São Paulo, uma referência no futebol brasileiro, mas havia como fazer progressos.Segundo Muricy, o primeiro passo foi convencer os dirigentes pernambucanos, que por tradição jamais deram importância à infra-estrutura, a investir em melhorias não só para o time profissional como as categorias de base. "Foi um custo, por exemplo, convencer os dirigentes de que precisávamos contar com alguns profissionais como um fisiologista e um nutricionista, além de melhorarmos as condições do nosso departamento médico com equipamentos para alguns exames", conta. "Para conseguir isso, pedia não só uma, duas, mas duzentas vezes, até conseguir. Foi quando começaram a dizer quer eu era chato, mas o fato é que eu não desisto."Com o primeiro desafio vencido, Muricy passou a buscar a implementação de um item que aprendeu ser fundamental em seu contato com Telê Santana: a disciplina. O trabalho neste setor, segundo ele, só serviu para aumentar sua reputação, inclusive com a imprensa local, que precisou de tempo para se adaptar às novas regras de trabalho. Mas dirigentes e jogadores acabaram entendendo a importância de alguns cuidados como pagamento em dia e observação dos horários. Os resultados acabaram aparecendo no ano passado quando depois de uma fila de 11 anos, o Náutico deixou de ser a terceira força do futebol pernambucano, superou Sport e o Santa Cruz, e tornou-se campeão estadual. Dias antes da chegada em Belém, o time repetiu a dose e, com a conquista, Muricy ganhou definitivamente a simpatia da torcida e algumas regalias: trouxe dois juniores para Copa dos Campeões (o meia Aílton é uma das grandes esperanças do treinador) além de aumentar a comissão técnica com profissionais que o estão ajudando a avaliar os adversários.O técnico diz que está feliz com os progressos, mas ainda não está satisfeito. Não conseguiu, por exemplo, evitar o desgaste do time com as comemorações do título pernambucano, o que prejudicou o grupo no jogo contra o Fluminense. Mas Muricy acredita que se conseguir classificar o Náutico para a próxima fase da Copa dos Campeões vai realmente comprovar que suas teorias estão certas. Seria a vitória da chatice, para felicidade da apaixonada torcida do clube pernambucano.

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