Léo Lemos/Náutico
Torcida do Náutico Léo Lemos/Náutico

Náutico pode superar crise financeira e quebrar jejum de 14 anos

Clube planeja deixar Arena Pernambuco e voltar a mandar seus jogos no estádio dos Aflitos a partir de maio

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2018 | 07h00

Um dos mais tradicionais clubes do Nordeste, o Náutico iniciou 2018 em meio ao cenário de terra arrasada após colecionar fracassos regionais, ser rebaixado à Série C e ganhar fama de mau pagador. O rendimento desta temporada, no entanto, tem contrariado qualquer prognóstico. Sob nova direção e com política de contenção de gastos, o time largou na frente dos rivais, chegou à final do Campeonato Pernambucano e pode sair de uma fila de 14 anos sem títulos. Pela frente, terá o Central, de Caruaru, que pela primeira vez em 99 anos de história participa de uma decisão estadual.

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O atual presidente do Náutico, Edno Melo, assumiu em janeiro com discurso de “reconstruir” e “pacificar” o clube. Outra bandeira da sua gestão é o retorno ao estádio dos Aflitos, onde planeja voltar a mandar os jogos a partir de maio. Para a temporada, manteve o treinador Roberto Fernandes e promoveu um corte de cerca de 80% da folha salarial, calculado como o suficiente para pagar em dia. Segundo o técnico, o orçamento girava em torno de R$ 900 mil por mês, no primeiro semestre de 2017. Neste ano, o time foi montado com R$ 180 mil mensais – o menor valor histórico.

 

Entre 2007 e 2013, o Náutico teve presença habitual na Série A, participando de cinco de sete edições, com folhas acima de R$ 1 milhão. Entre os jogadores que se destacaram pelo clube na época, estão o uruguaio Beto Acosta, o atacante Kieza e o lateral-esquerdo Douglas Santos, campeão olímpico pelo Brasil. Jogando a Série B, o time bateu na trave duas vezes em 2015 e 2016, quando não subiu por uma vitória, mas acabou rebaixado no ano passado. Passou a maior parte do campeonato na lanterna, onde terminou.

“A gente tinha de cair em uma realidade de ajustes. Quando o clube conquista um acesso, nada mais natural que os atletas se valorizem. Então, no descenso, é justo que haja reajuste”, disse Roberto Fernandes ao Estado. Quinto treinador a ser contratado para salvar o time da temporada desastrosa em 2017, ele teve de aceitar reduzir o próprio salário para permanecer no cargo.

Primeiro, a situação financeira trouxe dificuldades para renovar contratos. Parte dos atletas optou por deixar o Náutico e ir atuar até em clubes de divisões inferiores, como Cianorte (PR), Madureira (RJ) ou Aparecidense (GO). Dos jogadores que encerraram 2017 e não eram formados pelo clube, ficaram quatro – dois deles em tratamento de lesões graves. Atualmente, há 15 jogadores da base sendo aproveitados no elenco. Três são titulares com frequência: o goleiro Bruno, o lateral-esquerdo Kevyn e o atacante Robinho.

Contratar também foi difícil. Um dos que estava nos planos, o experiente atacante Marcos Aurélio (ex-Santos, Internacional e Coritiba), por exemplo, preferiu jogar no Botafogo da Paraíba. Inicialmente, o time acabou formado por jovens desconhecidos e atletas que já tinham passagem sem grande destaque por Pernambuco. “Com o orçamento muito baixo, tivemos que fugir um pouco do perfil que o torcedor do Náutico estava acostumado a ver”, afirmou Roberto Fernandes. “O critério técnico sempre foi a prioridade, mas tivemos de optar por um time mais guerreiro, mais competitivo.”

Em campo, o time tem adotado uma postura retraída que explora a velocidade dos pontas. Joga no erro do adversário: estratégia que vem produzindo resultados. Na Copa do Brasil, conseguiu avançar para a quarta fase, a última antes da entrada das equipes que jogam a Libertadores, e, agora, enfrenta a Ponte Preta.

Com parte dos R$ 4,3 milhões de premiação por se classificar (mais de 50% fica com a Justiça do Trabalho), investiu nas duas maiores contratações do ano: o atacante paraguaio Ortigoza, com passagem pelo Palmeiras, e o volante Wendel, que participou da Tríplice Coroa do Cruzeiro em 2003. “São dois jogadores que agregam qualidade técnica, experiência e profissionalismo. O grupo é muito jovem, esses caras ajudam a manter o foco”, disse Roberto Fernandes.

O Náutico também terminou a primeira fase do Pernambucano na liderança, com o ataque mais eficiente: 17 gols. Perdeu uma vez em 10 jogos – justamente para o Central, por 3 a 0. Contra o Sport, time da Série A e o seu maior rival, fez a melhor partida. Venceu também por 3 a 0, sem sustos. Depois eliminou Afogados (1 a 0) e Salgueiro (3 a 2) no mata-mata, até chegar à final.

As partidas decisivas contra o Central estão marcadas para 1º e 8 de abril. Primeiro no Lacerdão, em Caruaru, e depois na Arena Pernambuco, no Grande Recife. Com 21 títulos locais, o Náutico não vence um estadual desde 2004, o maior jejum do “Trio de Ferro” que forma com Sport e Santa Cruz no Estado. Se não interromper a seca de títulos, o clube automaticamente quebrará outro tabu: pela primeira vez Pernambuco terá um campeão do interior. “Não sou tolo de achar que por não ter a logomarca do Santa ou do Sport vamos ter um trabalho mais fácil”, afirmou Roberto Fernandes. “Colocamos o Náutico como 'maior obrigação'. Daí a colocar como favorito, não.”

Aflitos

Às vistas de 26 mil torcedores, o Náutico fez a primeira partida na Arena Pernambuco em maio de 2013, em um amistoso, contra o Sporting de Portugal. O jogou terminou em 1 a 1, mas foram os adversários que balançaram as redes primeiro – curiosamente em um gol contra do zagueiro Luís Eduardo. A trapalhada poderia servir de prenúncio para a relação entre o time e o estádio construído para a Copa.

O bom público na Arena revelou-se uma exceção. Localizado a 19 km do Recife, o estádio foi construído “no meio do nada”, à beira de uma estrada, e é de difícil acesso por transporte público. Em 2017, a média foi de 2,7 mil pagantes. Neste ano, apesar da boa fase, é de 4,4 mil. Para comparação, em 2012 (último ano nos Aflitos), a média era de 13,1 mil.

As estatísticas também não foram boas. No Brasileiro de 2017, o Náutico fez 14 partidas na Arena Pernambuco. Perdeu 7 e empatou outras 4, um aproveitamento de 31%. Fez, ao todo, 12 gols no estádio. Tomou 17. “A volta para os Aflitos é fundamental, sempre foi a casa do Náutico”, comentou Roberto Fernandes. “Por mais que você tenha um estádio absolutamente moderno, com 5 mil torcedores é campo neutro.”

Neste ano, o clube lançou a campanha “Voltando Pra Casa”, para colher doações para reformar o estádios dos Aflitos. Com custo estimado de R$ 5 milhões, o projeto prevê 19.800 lugares, alambrado de vidro e até foodtrucks na área externa. Segundo os organizadores, 100% do novo gramado já foi plantado. Fases como “iluminação” e “interior do estádio”, porém, ainda estão em 5%. Até o momento, o Náutico recebeu cerca R$ 374 mil em doações.

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ENTREVISTA - Kuki, do Náutico

Terceiro maior artilheiro da história do Náutico com 184 gols, ex-atacante está agora na comissão técnica do Timbu

Entrevista com

Kuki

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2018 | 07h00

Terceiro maior artilheiro da história do Náutico com 184 gols, o ex-atacante Kuki estava em campo nas únicas três vezes que o time foi campeão Pernambucano neste século. Os anos eram 2001, 2002 e 2004. O baixinho – de 1,67 metro, futebol veloz e temperamento explosivo em campo – virou o maior ídolo recente do clube e atraiu atenção de equipes de fora do Nordeste. Aposentado desde 2009, pode voltar a comemorar um título pelo Timbu, desta vez como membro da comissão técnica.

Ao Estado, Kuki afirmou que o clube pode “renascer” em 2018, após adotar uma filosofia “pé no chão” que permite pagar os jogadores em dia. Também contou ter sido procurado para jogar no Palmeiras e deu sua versão sobre a fatídica partida contra o Grêmio, em 2005, quando o Náutico deixou o acesso à Série A escapar em casa, ao perder por 1 a 0, apesar de ter dois pênaltis a favor e quatro adversários expulsos. “Batalha dos Aflitos é uma coisa criada pelo Grêmio.”

 

 

Você foi contratado no ano do centenário do Náutico, em 2001. Era considerado uma aposta. Na época, o clube estava em crise: vivia um jejum de 11 anos e havia montado um time quase do zero para tentar impedir o hexa do Sport. Mesmo não sendo favorito, o Náutico acabou campeão. Vê semelhanças entre 2001 e 2018?

A única diferença é que a gente não tinha estrutura na época. Em 2001, o Náutico vinha de um momento muito difícil e começou o ano com apenas três jogadores. Cheguei depois de fazer uma temporada de 32 gols no Inter de Lages e 6 no Brusque (foi o artilheiro da 2ª divisão de Santa Catarina). Só havia dois jogadores conhecidos no elenco, que eram Sangaletti (ex-Corinthians) e Wallace (ex-Sport). Este ano, é igual: o Náutico praticamente refez o time inteiro e está com Ortigoza e Wendel. Creio que o ano 2001 foi o renascimento do Náutico. E agora, também. A semelhança é muito grande. Os jogadores estão se esforçando e resgatando a autoestima do torcedor.

Neste ano, a diretoria cortou a folha salarial e reduziu investimentos. Como você avalia a situação do clube?

Eu sempre preguei essa filosofia, o primeiro reforço do Náutico é o pagamento em dia. A imagem do clube estava muito ruim. Não adianta ter folha grande e só arrecadar metade, como vinha acontecendo. Tem de fazer uma folha “pé no chão” e conseguir pagar. Hoje, os salários estão em dia e o clube honra com os compromissos. Independentemente de quanto recebe, todo jogador tem contas, tem obrigações para cumprir fora do campo. O Náutico está se readequando e isso vai atrair coisas boas. É como Muricy (Ramalho, treinador campeão em 2001 e 2002) falava no vestiário: “Para jogar no Náutico, tem de ter fome”. Mais uma vez, essa frase está dando certo.

Pernambuco nunca teve um campeão do interior, o Central pode ser o primeiro. Não enfrentar Santa ou Sport na final deixa o Náutico mais tranquilo para a decisão?

O importante é ser campeão, não dá para escolher adversário. As duas melhores campanhas chegaram, Náutico e Central fizeram por merecer. O Central tem um time bastante arrumado, (o treinador) Mauro Fernandes resgatou a força do clube. Nos últimos anos, o Salgueiro vinha tomando esse lugar de quarta força de Pernambuco. A gente sabe que vai ser um jogo muito difícil.

Até 2012, o Náutico vinha fazendo boas temporadas. Em 2013, a coisa degringolou: foi rebaixado na Série A, com apenas 20 pontos e 57 gols negativos. Por acaso, 2013 também é o ano que o time começou a jogar na Arena Pernambuco. É coincidência?

Sim, coincidência. A gente tinha um grande time em 2012, mas não tinha condições de segurar os jogadores para o ano seguinte. O treinador Alexandre Gallo também saiu para a comandar a seleção de base. Quando começa a trocar muito de treinador, as coisas tendem a não funcionar. Fizemos um péssimo campeonato brasileiro, mas depois quase subimos por dois anos seguidos.

Você foi o último grande ídolo do Náutico. Algum jogador da atualidade pode assumir esse posto? 

O Ortigoza tem muitas coisas parecidas comigo: consistência, competição. A torcida gosta muito, ele se empenha bastante nos jogos e tem tudo para assumir essa condição. O problema é o Náutico conseguir mantê-lo. É artilheiro, fazedor de gol – e essa é uma posição carente no futebol. O Náutico tem muita visibilidade, chama muita atenção. Fica difícil segurar um cara assim.

Quando jogava, recebeu proposta para sair do Náutico?

Eu tinha identificação muito grande com o clube. O time que mais me procurou foi o Sport, mas pouca gente ficava sabendo porque os diretores eram muito profissionais na forma que me tratavam. O Bahia também fez contato. E Estevam Soares queria me levar para o Palmeiras, mas eu tinha contrato de 2 anos que dificultava minha saída. Fiquei bastante empolgado na época, mas não deu certo. Sempre optei por ficar aqui porque queria trabalhar no Náutico quando parasse de jogar.

Fora de Pernambuco, o Náutico é bastante lembrado pela 'Batalha dos Aflitos', em que você estava em campo. O estigma pesa até hoje?

Não sinto isso. São coisas que acontecem no futebol. Depois daquele jogo, muita gente disse que o Náutico não iria subir nunca mais, mas a gente conseguiu o acesso para a Série A no ano seguinte. A “Batalha dos Aflitos” foi uma coisa criada pelo Grêmio. O termo “batalha” foi questão de marketing. A briga dos jogadores do Grêmio foi com o árbitro, não foi uma batalha com o Náutico. O Náutico estava envolvido com o jogo e só. Eles fizeram isso aí por marketing. É problema deles.

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