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Nem tudo mudou

Apesar das mudanças que vivenciamos no mundo, a alegria das crianças pelo futebol continua

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2019 | 04h00

Fui um dia desses ver um jogo na casa de um grande amigo. Lá estava seu filho, um garoto de uns sete, oito anos. Com garotos dessa idade opto por ser muito gentil e atencioso. É o máximo que consigo fazer. Uma aproximação maior parece impossível, certamente por meu mundo infantil ter se dado em outra realidade, perdida, soterrada, completamente diferente de um garoto de hoje. Às vezes, no entanto, acho bom estabelecer algumas ressalvas a esse lugar-comum que repetimos até a exaustão. “Ah! como as coisas mudaram!” “Ah! Estamos vivendo mudanças como jamais se viu no mundo!”

De fato o menino que eu tinha diante de mim pouco ou nada tinha a ver com o menino que fui. Não falo do óbvio, roupas, vocabulário, corte de cabelo. Era alguma coisa mais, sutil, difícil de apreender, mais um sentimento de que aquele menino jamais poderia ser um habitante do meu tempo. Comecei a ficar intrigado procurando as razões de tamanha diferença que, no entanto, era incapaz de descrever corretamente. Na verdade, era o mesmo garoto que eu conheço bem, educado, bem-humorado e afetivo. 

Começamos, é claro, a falar de futebol e do jogo que íamos assistir. O conhecimento do garoto sobre o assunto é espantoso. Sabe tudo de escalações, resultados e partidas memoráveis, não só do seu time, mas em geral. Segue diligentemente o futebol nos detalhes.

Parecia que tinha achado finalmente a grande aproximação dele com o menino que fui. Eu também, na idade dele, sabia tudo, do meu time e dos outros times. Sabia, como ele, a tabela inteira, comparava dificuldades ainda a chegar, possibilidades ainda remotas de um final feliz para o meu time. Eu tinha o auxílio das figurinhas das “Balas Futebol”; ele conta com álbuns comprados nas bancas de jornais.

Mas a essência é igual. A atitude é a mesma. E, no entanto, ainda não me sentia completamente próximo do menino. Algo, que me referi acima, ainda me separava dele, misterioso.

A coisa se deu no intervalo do jogo. Irrequieto, como todas as crianças, ele passeava pela sala sem destino, às vezes dando chutes no ar em imaginários lances que talvez tenha visto, e eu observava seus movimentos. De repente, sem saber se estava sendo vigiado ou não, executou um salto exatamente como um goleiro em busca da bola que vem certeira, no canto. Aquilo que em criança chamávamos de “voada”. Um voo, como qualquer goleiro faz.

Não sei se a bola do lance imaginário entrou ou não porque o que me assombrou não foi o voo. Foi o barulho do garoto caindo no assoalho de tábuas. Esse som subitamente ecoou dentro de mim e, como o delicado biscoito embebido em chá, no famoso romance, me atirou de volta a 1949, na velha casa do meu pai, que não mais existem – nem os pais muito menos a casa. 

Quando eu era tomado pelo sonho de que estava no campo disputando algum jogo inesquecível e dava uma voada numa defesa espetacular, era esse som da queda sobre as tábuas que terminava o lance. 

De repente me senti não próximo do menino de hoje, mas o próprio menino. Ali na minha frente, ainda no chão da sala depois da heroica defesa estava não ele, mas eu. E vi, finalmente, que as coisas não tinham mudado tanto. Vi o resto do jogo completamente indiferente ao que se passava diante na TV. Mal e mal me dei conta do resultado. Eu não estava mais ali. Estava ainda no meu bairro do qual tentava não sair.

O jogo terminou, trocamos eu, meu amigo e o seu filho palavras usuais e combinamos, como sempre, repetir a experiência. Mas ela não acontecerá de novo jamais. Me acompanharam até o elevador, gentis e amigáveis. Me despedi deles como se fosse mais uma noitada normal entre pessoas muito amigas. 

Saí feliz, bêbado de passado e de infância. Só saí daquela outra realidade quando a porta do edifício se abriu e me encontrei de novo comigo mesmo em 2019, numa fria noite de São Paulo. 

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