Neymar e as vaias

Astro brasileiro pode aprender muito com as críticas que vêm de parte da torcida do PSG

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2018 | 04h00

Neymar joga demais, é extraordinário, um dos gigantes da geração dele. Dá prazer vê-lo em ação, e não por acaso custou os tubos (em parte não declarados) ao Barcelona e um monte de dinheiro ao Paris Saint-Germain. Não é à toa, também, que o Real Madrid saliva diante do desejo de levá-lo de volta à Espanha, se possível já na metade de 2018. Não se trata de acidente o fato de a seleção brasileira há sete anos ter forte dependência do moço. E quanta saudade deixou no Santos...

Que magnífico! Abençoado.

Como todo craque, Neymar tampouco age dentro de padrões corriqueiros. Nem poderia. Os gênios da raça se destacam por destoar, seja por talento incomum, seja por excentricidades. Impossível contê-los em um rótulo.

Mesmo assim – ou por tudo isso –, provocam celeumas. Nem todas as reações são compreendidas. Nem todos os gestos soam grandiosos e ímpares.

Neymar não foge à regra, e desde a quarta-feira está no centro de discussões, na França e em meio mundo. Pela atuação estonteante diante do Dijon, massacrado por 8 a 0, com quatro gols seus e duas assistências. E por atitude que desagradou parte do público do PSG: ignorou pedido para que Cavani cobrasse o pênalti que fechou o placar. O uruguaio havia feito um gol e, se marcasse outro, assumiria o papel de maior artilheiro da história do clube, ao superar o sueco Ibrahimovic.

Neymar literalmente não deu bola para a voz das arquibancadas, botou a dita cuja na marca da cal, cobrou à perfeição e saiu para festejar, sem muita exuberância e sob vaias. Após o jogo, foi embora “bicudo”, sem cumprimentar o público, sem dar entrevistas. Dessa forma, respondeu ao que considerou petulância e intolerância dos fãs, após jornada memorável. E mudo permaneceu nos dias seguintes, enquanto os debates a respeito do episódio se multiplicavam lá, cá e além. Com divisão de opiniões, evidentemente.

Houve quem o defendesse, caso de Alain Giresse, ex-astro da seleção francesa e ex-treinador do PSG. Na visão dele, atletas competitivos sempre querem superar barreiras. Emmanuel Petit, campeão do mundo em 1998, referendou a postura de Giresse e vê perigo no comportamento da plateia: “Se ele for embora, depois vão chorar”. Vahid Halilhodzic, que também já dirigiu a equipe, detectou sinal significativo de decepção e senso crítico na postura dos supporters locais: “É um recado importante e a ser considerado”.

Todos certos, ao menos em parte.

Neymar foi levado para Paris com a promessa de ser o solista da companhia, como Thiago Silva é o capitão, Daniel Alves, o líder do vestiário, e Cavani, o goleador. E o técnico espanhol Unai Emery com a incumbência de manter a harmonia da trupe. O PSG pretende equiparar-se às multinacionais da bola, e para tanto conta com o talento e a graça de Neymar. Ponto.

Mas impossível fugir a questões. Era imprescindível cobrar o pênalti? Precisava fazer ouvidos moucos ao apelo da torcida? Faria diferença deixar o lance para o companheiro, que aliás sofrera a falta? Iria diminuir-se diante da vontade popular?

Estou aqui a imaginar que nosso craque ganharia mais com um rasgo de generosidade, de desprendimento, de simpatia. Mostraria para a galera que há sintonia fina, dentro e fora do campo. Provaria ser um cavalheiro, que entende a “alma do povo” e o carinho por um colega que tem mais tempo de casa – e que, desnecessário dizer, está aquém dele.

Neymar é jovem; com tempo e amadurecimento, será profissional mais completo. Quem sabe uma hora entenderá que vaias contêm lições e que, às vezes, ceder é forma inteligente de impor-se e conquistar corações e mentes. Líder brilha mais porque age para que todos possam brilhar.

Noves fora isso, joga muito. E será que sonha, também, com o Real?

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