Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Neymar e o peso da Copa

Em vez de voltar para casa como legítimo representante de dinastia que teve Pelé, Garrincha, Romário, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, saiu de cena como caricatura

Antero Greco, colunista

11 Julho 2018 | 04h00

Copa serve para criar mitos, consolidar astros e arranhar reputações. Por enquanto, até agora o torneio da Rússia, embicando para a final, foi extraordinário para jogadores como o jovem Mbappé, Hazard, Lukaku, independentemente do duelo de ontem. Eles são alguns dos que subiram degraus no conceito internacional pelas proezas realizadas nos gramados da Rússia. O português Cristiano Ronaldo manteve o status alto, apesar da desclassificação portuguesa nas oitavas. Messi também não saiu arranhado, ainda com outra decepção da equipe argentina; a trajetória dele no Barcelona é muito notável para rebaixá-lo.

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Neymar talvez ocupe a ponta oposta. O brasileiro foi para a segunda experiência na competição cercado de expectativa. Com 26 anos, maduro e calejado em relação ao fiasco coletivo em 2014, era apontado como candidato a estrela maior. Em seu favor contava, também, um time equilibrado, sólido, que, sob a orientação de Tite, não dependia mais apenas do brilho de um só. A “neymardependência” havia ficado para trás.

O desempenho da turma da amarelinha reforçava essa sensação e foi satisfatório até o tropeção diante da Bélgica. O mesmo não se aplica a Neymar. Desde a estreia, no empate por 1 a 1 com a Suíça, atraiu holofotes para si, o que seria natural, não fosse por inversão de expectativas: recebeu mais críticas do que elogios. As reclamações, as tentativas de cavar pênaltis e sobretudo as quedas espetaculares após as faltas que recebia esparramaram uma imagem negativa e encobriam boas jogadas, belas finalizações e gols. 

Neymar virou fonte de espinafradas dos críticos, do entradas ríspidas de rivais e de “memes” (as brincadeiras em redes sociais) de torcedores em todo canto. Em vez de voltar para casa como legítimo representante de dinastia que teve Pelé, Garrincha, Romário, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, saiu de cena como caricatura. Moral em baixa, ao menos para o público externo.

 

Há exagero no julgamento de Neymar - e este é risco que figuras públicas correm. Não há dúvida de que é muito mais do que o personagem visto como mimado e inconsequente, despreparado para lidar com situações adversas. Porém, como tem um monte de gente a cuidar da carreira, vale a pena refletir o que foi a temporada entre a metade de 2017 e a deste ano. 

Nesse período, Neymar saiu do Barcelona de maneira desgastada, chegou ao Paris Saint-Germain como a mais custosa transação da história do futebol, teve entreveros com colegas e treinador, ganhou taças domésticas, sofreu fratura, ficou meses parados. E, mais uma vez, viu o troféu de melhor do mundo ir para Cristiano Ronaldo. A Copa seria o trampolim para o Olimpo dos craques, a passagem definitiva para a maturidade na profissão, o fim de papo de “menino Neymar”, como há ainda quem insista em rotulá-lo, sem perceber que não cabe mais a aura de infantilidade. 

Neymar perdeu também chance de assumir papel de protagonista ao deixar a Rússia sem declarações, exceto uma nota trivial e repleta de chavões postada em redes sociais. Justiça se faça: não foi o único e nem é a primeira vez. Nas desclassificações de 2006, 10 e 14, os jogadores brasileiros tiveram comportamento semelhante. Tão logo veio a dispersão, cada um tomou seu rumo, sem maiores satisfações para o torcedor. Não era obrigação de Neymar dar a cara; contudo, revelaria altivez e consciência.

Neymar pode ganhar destaque, nos próximos dias, porque o mercado europeu largou a todo vapor, com a transferência de Cristiano Ronaldo para a Juventus. O Real Madrid certamente vai anunciar nome de impacto para compensar a liberação do ídolo. O brasileiro até recentemente era o nome ideal. Será agora, depois do que deixou de apresentar no Mundial? A conferir.

*ANTERO GRECO É COLUNISTA DO ‘ESTADÃO’ E COMENTARISTA DA ESPN

 

 

 

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