Lucas Figueiredo/CBF
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Neymar perdeu a empatia que tinha com o torcedor por sua postura fora de campo

Jogador desabafa e diz que não sabe mais o que fazer para ter respeito quando veste a camisa da seleção brasileira

Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2021 | 10h29

O desabafo de Neymar sobre não saber o que fazer mais para ter o respeito das pessoas quando está usando a camisa da seleção brasileira resgata sua trajetória no time nacional muito antes do jogo com o Peru, nesta quinta-feira, pelas Eliminatórias da Copa do Catar. Neymar precisa, antes de tudo, respeitar o futebol. Falta carisma a ele. Mas nem sempre foi assim.

Quando surgiu no Santos, ele tinha o carinho dos garotos porque representava cada um deles, sonhadores da bola e que viam no sucesso do colega o que eles queriam fazer da vida. Neymar era inspiração. Sua ausência na Copa do Mundo de 2010 foi bastante cobrada. Muitos entendiam que ele tinha condições de atuar na África do Sul, embora ainda fosse um jogador em formação. 

Ele construiu uma legião de fãs com o passar dos anos. Jovens, adultos, mulheres, todos queriam saber o que estava fazendo. As redes sociais agradecem Neymar de joelhos porque ele movimenta boa parte do planeta com suas postagens, mesmo as mais bobinhas. Ele passou a trabalhar em duas frentes, vendendo sua imagem e jogando bola. Há quem diga que ele pende mais para a primeira tarefa e deixa de lado em alguns momentos sua profissão.

Ele já disse quando estava na seleção que jamais iria mudar seu comportamento, sua disposição para se divertir e fazer o que bem entender. Suas opções têm consequências. E ele está descobrindo isso agora, aos 29 anos. Sua imagem fora de campo faz com que muitos misturem o futebol que pratica com sua vida pessoal. Não é fácil pensar em um Neymar jogador e em outro festivo, fanfarrão, que curte a vida adoidado. As imagens se misturam.

Sua reclamação foi em relação à seleção brasileira, onde ele poderia brilhar mais do que vem fazendo. Isso também tem a ver com os fracassos das Copas do Mundo de 2014 e 2018. O Brasil tem um dos melhores jogadores do mundo e não consegue se impor. É claro que ele não joga sozinho e todos os outros atletas precisam ajudar mais, assim como o técnico Tite. Mas na cabeça do torcedor, a maior responsabilidade é sempre do craque. É o peso da fama. Muitos gigantes no futebol já carregaram esse fardo. De Pelé a Ronaldinho Gaúcho, passando por uma série de outros atletas de quem se esperava mais.

O respeito vem disso. A sociedade, de modo geral, constrói seus heróis e dá a eles comportamentos e falas muitas vezes idealizadas. Neymar não se enquadra nisso. Essa falta de respeito, entendo, tem mais a ver com o que ele construiu nos últimos anos do que propriamente seu rendimento dentro de campo. De dez partidas que faz pela seleção, ele vai bem em nove. Talvez essa falta de respeito esteja mais associada a um Neymar ausente, que trama saída de clube, que é acusado de assédio, que pega folga em momentos em que todos estão trabalhando, que trata o dinheiro com mais valor do que ele tem, que não se aproxima dos torcedores, que não dá entrevistas e que não mostra suas fragilidades... Neymar é muito associado a festas, dinheiro e parças.

Não que isso seja errado, de forma alguma. Ele leva a vida que deseja e pode. E Neymar pode tudo. Mas as pessoas públicas, e Neymar é conhecido no mundo inteiro, pagam preços que outras não pagam. Essa idealização que as pessoas fazem dele não reflete em seu comportamento. E isso causa desdém, cobranças, falta de empatia...

Dentro de campo, Neymar tem o respeito de todos, não duvido disso. Quando veste a camisa da seleção brasileira, o time fica mais forte e a esperança de vitória aumenta. Isso é inegável. Mesmo jogando mal, como foi, por exemplo, diante do Chile, ele faz diferença. Neymar é bom de bola e o Brasil precisa dele para ganhar uma Copa do Mundo. Aos 29 anos, ele deveria ser mais forte emocionalmente, ter melhor leitura dos fatos, entender o que se espera dele. Isso é fundamental.

Quando diz que não vai mudar seu jeito, ele também está dando de ombros para as cobranças. E isso tem um preço. De qualquer modo, Neymar tem muita lenha para queimar e condições de mudar sua imagem, como ele mesmo reclamou, se quiser. Basta ler nas entrelinhas. O torcedor vai continuar esperando mais de Neymar porque sabe que ele tem condições de dar.

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