Josep Lago/AFP
Josep Lago/AFP

Neymar terá que declarar valor recebido com transferência

Justiça espanhola exige que brasileiro e suas empresas esclareçam qual foi a renda que obtiveram após venda para o Barcelona

JAMIL CHADE - CORRESPONDENTE EM GENEBRA, O ESTADO DE S. PAULO

03 de fevereiro de 2015 | 17h29

A Justiça espanhola fecha o cerco contra as empresas de Neymar e indicia o presidente do clube, Josep Maria Bartomeu, por crimes fiscais no caso da compra do brasileiro em 2013 . O Barcelona também foi colocado no banco dos réus e, diante da crise, sócios já se unem para pedir que o cartola renuncie. 

Se Bartomeu cair, ele será o segundo cartola a perder o cargo desde a polêmica transferência do capitão da seleção brasileira. No ano passado, foi Sandro Rosell quem teve de abandonar o clube depois das denúncias. 

O Ministério Público da Espanha havia denunciado o cartola por uma fraude milionária na contratação de Neymar. Ontem, o juiz Pablo Ruz aceitou a denúncia e indiciou o cartola por uma fraude ao Fisco de mais de 2,8 milhões de euros, além de outros 10 milhões de euros também sonegados.

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O dinheiro seria a parcela de impostos que o Barcelona deveria ter pago na contratação do brasileiro. Mas como os contratos eram secretos e os valores jamais foram divulgados, a sonegação fiscal teria sido milionária ainda em 2014. 


Em sua decisão, obtida pelo Estado, Ruz ordena não apenas que o Barcelona preste contas do que pagou como impostos, mas também exige que Neymar e suas empresas esclareçam qual foi a renda que obtiveram. O juiz quer do clube os documentos "em relação às rendas declaradas em nome de Neymar Da Silva Santos Jr. e às sociedades do mesmo vinculadas que resultam investigadas nas presentes ações". 


O juiz deixa claro que espera que o clube  apresente um "informe complementar" da declaração de renda de Neymar como pessoa física e sua declaração de impostos sobre a renda de não-residentes. 


Ruz também colocou o Barça no banco dos réus por três crimes fiscais. Para ele, existem "indícios suficientes para uma investigação sobre um possível novo delito contra a Fazenda". Ele deu cinco dias para que o clube apresente todos os recibos de impostos pagos. 

MANOBRA

Segundo as investigações e que servem de base para o indiciamento, os esforços dos dirigentes do Barça era o de garantir que Neymar fosse ao clube um ano antes do acordo dado. Isso exigiria aumentar a oferta e repartindo o pagamento entre três empresas que foram criadas pelo pai do jogador para receber o dinheiro. 


Mas, para não afetar as contas do clube, Rosell e Bartomeu optaram por esconder parte dos gastos dos sócios e do Fisco. "Para realizar esse plano e com a intenção de ocultar o custo real do jogador, Rosell fragmentou o pagamento em diversas parcelas, formalizando uma série de contratos com o Santos e com Neymar", alerta a investigação. "A finalidade dessas empresas era fragmentar o valor real do jogador. Elas operavam unicamente como intermediárias nos pagamentos feitos pelo clube", indicou. 


A investigação ainda revelou um novo dado: o custo total de Neymar ao time foi de 95 milhões de euros, quase R$ 290 milhões. O Barcelona jamais aceitou esse valor. Primeiro, indicou que pagou cerca de 57 milhões de euros. Há uma semana, o clube admitiu que o contrato era de 86,2 milhões de euros (R$ 263 milhões). Agora, a Justiça aponta que o valor é ainda superior. 


Nesse novo capítulo da denúncia, as investigações apontaram que o clube catalão deixou de pagar à Fazenda cerca de 2,6 milhões de euros por conta de um contrato de 40 milhões de euros com o jogador. Esse contrato foi assinado em 3 de junho de 2013. Mas jamais foi apresentado aos sócios ou aos fiscais de renda. Em 2014, a última parcela de 5 milhões de euros desse total de 40 milhões foi depositado na conta da empresa N&N, do pai de Neymar. 


Para o MP, cabia ao Barça registrar essas contratos e pagar seus devidos impostos no exercício fiscal de 2014, o que não ocorreu. 


O clube ainda sonegou 234 mil euros em contratos de imagem do brasileiro e outros 11,7 mil euros por um contrato com o pai de Neymar, avaliado em 22,5 mil euros. Rosell e Bartomeu ainda são acusados de fraude e sonegação em 2011 e 2013. 

DEMISSÃO

Entre os principais investidores do Barça e alguns dos sócios históricos do clube, o sentimento é de "grande frustração". Transformado em réu, Bartomeu garantiu por enquanto que não deixará o cargo e que usará a ocasião para provar sua inocência. Ele terá de prestar depoimento no dia 13 de fevereiro perante o Tribunal. "Há uma diferença entre indiciado e condenado", alertou. "Não vou renunciar". 


Sócios que já se organizam para pedir o impeachment da direção informaram ao Estado que o clube jamais teve de enfrentar uma situação similar a essa diante da Justiça. "A história do Barcelona tem muitas páginas difíceis. Mas ver dois presidentes indiciados é algo sem precedentes", indicou um dos sócios, que pediu anonimato enquanto manobra uma iniciativa para derrubar o presidente. 


A Agência Tributária da Espanha também denunciou o ex-presidente do Barcelona, Sandro Rosell, por três crimes fiscais. Mesmo nos jornais que servem de porta-vozes dos sócios do Barcelona, como o Sport, pesquisas apontaram que 81% dos entrevistados pediam a renúncia do cartola.


Antes do indiciamento, o Barça emitiu um comunicado em que dizia que estava "indignado" com a denúncia. Para o clube, a cobrança dos impostos extras está "equivocada". "O FC Barcelona não permitirá que nada afeta a imagem do clube", indicou.

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