Martin Meissner / AP
Martin Meissner / AP

Neymar volta à Liga dos Campeões e deve passar carnaval 'em branco'

Depois de ficar fora da fase de mata-mata das últimas temporadas por lesão, brasileiro faz acordo com a diretoria para buscar título europeu

Gonçalo Junior, O Estado de S. Paulo

17 de fevereiro de 2020 | 18h09

Arsène Wenger, um dos técnicos mais conceituados do futebol europeu, foi irônico ao comentar o retorno de Neymar ao Paris Saint-Germain na partida desta terça-feira, diante do Borussia Dortmund, válida pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. O jogo será às 17h (horário de Brasília), na Alemanha. "Quando Neymar está em campo, ele é fantástico. O problema é que, quando março chega, ele nunca está lá", disse o ex-técnico do Arsenal. A ironia do treinador francês resume a dúvida que paira sobre Neymar na Europa. 

Por causa de graves lesões, o craque só esteve em um mata-mata importante de seu clube nas duas últimas temporadas. Com isso, o brasileiro tenta fazer um ajuste de contas com seu passado recente. Fontes ligadas à diretoria do clube afirmam que o diretor esportivo Leonardo fez um acordo com Neymar e pediu três meses de concentração total ao atacante, sem carnaval, para o time chegar à final da competição. A princípio, Neymar topou. 

Por outro lado, o carnaval é uma das grandes paixões do jogador brasileiro. No ano passado, ele foi liberado pelo PSG para se recuperar no Brasil de uma cirurgia no quinto metatarso do pé direito. Ao lado dos amigos, participou do carnaval na Bahia e também assistiu aos desfile das escolas de samba no Rio de Janeiro. A imprensa europeia criticou o comportamento do craque. "Neymar festeja carnaval no Rio enquanto seus companheiros se preparam para enfrentar o Manchester United", escreveu o inglês Daily Mirror, referindo-se ao jogo decisivo da Liga dos Campeões. 

No início deste mês, Neymar realizou sua festa de aniversário contra a vontade do próprio clubeDe acordo com jornal francês L'equipe, a festa aconteceu no dia 2 de fevereiro na casa noturna Yoyo, um clube moderno em Paris, que acolhe regularmente eventos musicais, culturais ou festas particulares e pode acomodar até 800 pessoas. O diretor Leonardo, o técnico Thomas Tuchel e o presidente Nasser Al-Khelaïfi não estiveram presentes. Tuchel já havia dado a entender que não iria à festa, alegando que ela é "uma distração" e que "faz parecer que nós não somos sérios".

Em sua terceira temporada no clube francês, o craque ainda não conseguiu colocar o PSG – nem ele próprio – em outro patamar. Neymar foi contratado para ganhar a Liga dos Campeões. Ele tem sete jogos – considerando-se as oitavas de final, quartas, semi e uma eventual final – para se reafirmar. Se conduzir o PSG ao título, será certamente lembrado como um dos candidatos para o prêmio de melhor jogador do mundo deste ano. Sucesso. Em um ano sem Copa do Mundo, no qual as atuações pelos clubes conta muito, ele pode chegar forte à briga com Messi e Cristiano Ronaldo, por exemplo. Se fracassar, seu projeto de trocar o Barcelona pelo PSG para ser o melhor do mundo ficará pelo caminho mais uma vez.

Obviamente o jogador contratado por 222 milhões de euros em 2017 ainda tem tempo, não se trata de vida ou morte. Com 28 anos completados no dia 5 de fevereiro, ele terá mais chances pela frente de se recuperar. Mas é o retrospecto negativo, de ausências nos momentos decisivos, que torna o momento importante. Há ainda a desconfiança de que essa seja a última temporada de Neymar no PSG.

HISTÓRIA

O histórico de lesões quase se repetiu pela terceira vez neste ano. Os franceses viveram dias de tensão com receio de que Neymar novamente fosse desfalque. Por causa de um problema na costela, o craque não atua desde o dia 1º de fevereiro. Ele ficou fora dos últimos quatro jogos do time, diante do Nantes, Lyon e Amiens, pelo Campeonato Francês, e Dijon, pela Copa da França. Mas ele está na lista dos jogadores convocados para a partida na Alemanha. Desde o início da temporada, esta foi a terceira lesão de Neymar. 

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Eu não diria que o mais poderoso, mas percebo um ambiente diferente, com mais confiança, e isso ajuda muito no dia a dia
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Neymar, atacante do PSG

 

Na disputa da Liga dos Campeões, o cenário é favorável para o time francês. Barcelona e Real Madrid não parecem imbatíveis. Juventus e Bayern não são dominantes nos torneios locais. O time a ser batido é, sem dúvida, o Liverpool, mas vai dividir as atenções com o Campeonato Inglês, sua obsessão na temporada. Perguntado pelo site da Fifa se o PSG é o mais poderoso das últimas temporadas, ele se esquivou. "Eu não diria que o mais poderoso, mas percebo um ambiente diferente, com mais confiança, e isso ajuda muito no dia a dia", afirmou.

Wagner Ribeiro, empresário responsável pela carreira de Neymar durante vários anos, obviamente aposta na recuperação do craque. "O momento do auge de qualquer jogador é disputar uma Champions. Para o Neymar, contratado pelo maior valor pago em uma transferência, a responsabilidade é grande, mas ele sempre correspondeu. E cresce mais ainda em jogos decisivos", disse ao Estado.

Dentro de campo, Neymar voltou a ser protagonista. Nesta temporada, já são 13 gols e seis assistências em todas as competições. As boas atuações serviram para resgatar parte do prestígio perdido com a tentativa frustrada de se transferir para o Barcelona no início da temporada. Vale lembrar que ele começou jogando sob vaias e xingamentos. Com o passar das rodadas, voltou a ser notícia pelo que faz como jogador e não só como celebridade. O retrospecto do brasileiro com o PSG na Liga dos Campeões enchem os franceses de otimismo: são nove gols em 15 jogos e só três derrotas.

Ligeiro favoritismo

O time francês tenta superar o trauma das oitavas de final, barreira nos últimos três anos. Em 2017, o time caiu diante do Barcelona tomando uma virada histórica por 6 a 1 (o jogo de ida havia sido 4 a 0 para os franceses). Neymar estava no time espanhol. No ano seguinte, duas derrotas para o Real Madrid. Em 2019, o PSG levou nova virada, agora diante do Manchester United.

Na atual temporada, o time chega embalado. Apesar do tropeço na última rodada do Campeonato Francês, o PSG está folgado na liderança. Diante do Amiens, rival que está lutando contra o rebaixamento, o gigante parisiense teve grandes dificuldades, ficou duas vezes em desvantagem no marcador (2 a 0, 3 a 1), chegou a virar o placar, mas sofreu o gol de empate por 4 a 4. O tropeço não trouxe consequências em sua luta pelo título. A vantagem é de dez pontos em relação ao Olympique, segundo colocado (62 a 52).

Na prática, o título nacional tem importância pequena para o PSG, cuja obsessão é a conquista da Liga dos Campeões. Na primeira fase, ficou na liderança do Grupo A com 16 pontos (cinco vitórias e um empate). Depois de ser poupado no empate por 4 a 4, Mbappe é retorno certo.

O Borussia Dortmund vive um momento de oscilações. O time caiu precocemente na Copa da Alemanha e se afastou da primeira colocação do Campeonato Alemão. A falta de regularidade tem comprometido os objetivos da temporada. "Precisamos de força para buscar a vitória, mas obviamente precisamos de atenção. O ataque do PSG tem enorme qualidade", diz Sebastian Kehl, diretor de futebol.

O treinador Lucien Favre perdeu Julian Brandt e Marco Reus, o jogador mais criativo da equipe. Ele é peça fundamental do time e vinha sendo o arco para a flecha norueguesa Erling Haaland, o atacante contratado pelo Dortmund na janela de transferências de inverno que fez uma gigantesca diferença na produção ofensiva. Ele marcou dez gols em sete partidas. "É um desafio enfrentar um atleta que começa a carreira com tanto entusiamo. Mas o PSG também está bem", disse o capitão do PSG, Thiago Silva.

Mesmo sem Reus, o Dortmund obteve um resultado expressivo na última rodada pelo Campeonato Alemão. Em casa, o time goleou o Eintracht Frankfurt por 4 a 0, mantendo a terceira posição. Com 42 pontos, está quatro atrás do líder Bayern de Munique. O time ainda não perdeu em seu estádio no Campeonato Alemão.

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