Nilton Santos chega aos 80 anos

No seu andar calmo, de bermuda e camiseta, a coluna reta sustentando uma barriga avançadinha, um quase anônimo senhor Nilton dos Santos cruza a rua Senador Vergueiro, no Rio, como se fosse um cidadão comum. São 8 e meia da manhã e ele está começando a caminhada de todo dia, que segue pela praia do Flamengo e vai até o fim do aterro. "Não posso me atrasar, os pardais da praça estão esperando pelo miolo de pão que eu levo pra eles", avisa.Uma hora e meia depois está de volta, ultrapassados os cinco ou seis torcedores que sempre o cercam para elogiar ou criticar o seu amado Botafogo. Chega ao apartamento - num 12º andar, com janela de frente para os braços abertos do Cristo Redentor - pronto para não fazer nada até a hora do almoço. Essa rotina, que continua com um bom cochilo de tarde - seja no Rio ou em Araruama, onde tem uma confortável casa de praia - tem sido a marca de seus dias, e não será muito diferente agora, só porque aceitou ser conselheiro do técnico botafoguense Paulo César Gusmão.Avesso ao agito que encanta as celebridades, o maior lateral-esquerdo da história do futebol brasileiro - e que a Fifa elegeu o melhor do século, em 1998 - gosta mesmo é de recordar sambinhas dos anos 40 e 50, Orlando Silva, Sílvio Caldas, Ari Barroso, e despejar seu caminhão de recordações numa roda de velhos companheiros. Agenda cheia, jamais - que o diga sua mulher, Maria Célia, que organiza diariamente os seus compromissos.Um deles, que lhe dá prazer, é encontrar toda semana cinco bons amigos - "e, imagine, para falar de remédio!", explica. É no Projeto Vital Brasil, do governo estadual, uma rede de farmácias que vendem medicamentos baratos. "Vamos lá, o Jair (Rosa Pinto, Botafogo, anos 50), o Pinheiro (Fluminense, anos 50), o Brito (Vasco, anos 70), o Roberto (Botafogo, anos 70) e o Silva (Flamengo, anos 70). Os torcedores vão ver a gente e nós promovemos os remédios".Aos 80 anos, que completa amanhã, Nilton está bem de vida, de saúde e de amigos, mas não quer saber de festa. "Eu não comemoro velhice", defende-se. "Nesta segunda-feira vou dar um jeito de ninguém me achar." Pode ser verdade, ou brincadeira - ele é assim mesmo. Muita gente achou que era verdade a história de que, no primeiro treino no clube, lá por 1953, Garrincha já lhe passou uma bola no meio das pernas. "Fui eu mesmo que inventei isso. Por quê? Ora, porque as pessoas gostam de ouvir..."Ele reage com certo desgosto às modernidades de um futebol que perdeu a educação. "A classe anda muito desunida, é demais essa violência de um contra outro em campo", queixa-se. Sua vingança é rir dos fricotes de muitos iniciantes. "Não tenho paciência para aturar esses astros cheios de frescura e que não jogam nada.""O balanço que faço dos meus 80 anos é o seguinte: não sou escravo de ninguém". É mais que um certificado de independência financeira: é um aviso de que ele preza tanto hoje, como no passado, velhas lições de honra, coragem, auto-estima. O campeão que ignorou, com dignidade, terem omitido seu nome na lista dos "100 mais" da Fifa, há dois anos - "o Pelé esqueceu e pronto" - é o mesmo que, em 1965, deu um tapa no árbitro Armando Marques em pleno Pacaembu, por causa de um dedo em riste. "Era um jogo com o Corinthians. Ele veio pra cima de mim daquele jeito e pensei: se eu me curvar, o que é que eu vou dizer pro meu filho ao chegar em casa?" Nilton tinha cacife para fazer isso sem estragar a carreira. Àquela altura, todas as torcidas do Brasil já o reverenciavam como "a enciclopédia do futebol", definição do locutor Valdir Amaral.Gestos assim pontilham toda a sua biografia. Na Copa de 1950 ele encarou o todo-poderoso Flávio Costa, "porque não arrumava direito o time, e não por me deixar na reserva do Bigode", garante. Oito anos depois, expulsou pessoas estranhas que invadiram o vestiário ao final da vitória de 2 a 0 sobre a União Soviética (na Copa de 1958, na Suécia), para falar de política. E na véspera dessa cena, foi com Zito e Didi pressionar o técnico Vicente Feola para escalar Pelé e Garrincha no time."Ele pressionou o Feola para colocar o Garrincha e eu porque éramos reservas, e nos treinos nós deixávamos os titulares loucos", confirmou Pelé, na semana passada. "E quando avisei ao Mané que ia jogar, ele me disse, olho no olho: ?Se eu vou jogar, então pode deixar (comigo)?. Ali é que nós começamos a ganhar a Copa da Suécia."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.