No Brasiliense, rotina não incomoda

É dia de treino no Brasiliense. Vários jogadores chegam ao Estádio Serejão bem antes do horário marcado para o coletivo, atividade daquele dia. Um deles, o zagueiro Aldo, desce do carro, vai para o vestiário e, em poucos minutos volta, com sabão, balde e um pano na mão. Coloca a mangueira na torneira e, com a maior naturalidade, começa a lavar seu carro, um Gol ano 2000. "Preciso dar um trato. Carro sujo não dá. E a cidade aqui é muito poeirenta. Tem de lavar??, justifica. Aldo dá "um trato?? no carro três vezes por semana. E nem pensa em levá-lo a um lava-rápido. "Lavo eu mesmo. Gosto e economizo um dinheirinho??, argumenta o zagueiro, de 24 anos, ajudado pelo lateral-esquerdo reserva Vainer, a quem havia dado carona, na "missão??. Nem a presença de desconhecidos da imprensa incomodam. Afinal, seguem uma rotina da qual gostam. No Brasiliense é assim. Nada de pompa. Nem poderia ser diferente num clube onde o salário médio é de R$ 5 mil mensais. No elenco, prevalecem os carros Gol. O técnico Péricles Chamusca utiliza um Pálio, um dos poucos carros do ano no estacionamento. Um Vectra, como o do atacante Maurício, é um "luxo??. Pelo menos os jogadores não gastam com aluguel. Alguns moram em hotéis. Outros, em três casas num condomínio fechado em Taquaritinga, cada uma alugada por R$ 750 mensais. Todas as despesas são pagas pelo clube. Claro que todos os jogadores sonham com salários mais altos e carrões. Mas ninguém reclama do padrão atual. No clube, dizem, têm uma coisa rara no futebol brasileiro: segurança. "Trabalhar aqui é muito bom.Tudo o que o homem cumpre, combina. Recebemos em dia??, diz Aldo. O "homem?? é o ex-senador Luiz Estevão, cassado por falta de decoro parlamentar e acusado de suposto envolvimento no esquema de desvio de verbas das obras do Fórum Trabalhista de São Paulo. "Do jeito que o futebol está, temos de procurar segurança, pensar em nossas famílias. Não adianta jogar num time de maior projeção e não receber??, completa Aldo, que até hoje luta para ver os R$ 25 mil que, diz, o América-MG lhe deve. "Eu ligo lá e dizem que eu não estou precisando de dinheiro, pois recebo em dia aqui. Vou ter de ir à Justiça.?? Thiago, companheiro de zaga de Aldo, concorda com o companheiro.Revelado pelo São Paulo e com passagem inclusive pelo futebol alemão (jogou no Werder Bremen), ele também sabe como é duro trabalhar e não receber. Foi por isso que deixou o Sport Recife, clube pelo qual disputou o Brasileiro do ano passado. "Aqui você tem garantia, tranqüilidade para treinar e jogar. Isso, claro, se reflete no rendimento do time.??

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