No Camp Nou, uma festa para a torcida

Não foi apenas um jogo de futebol, mas uma festa, com um jogo de futebol. O tenor José Carreras cantou, houve apresentações do folclore da Catalunha, e uma bateria de escola de samba, formada por espanhóis, da Sociedade Amigos do Brasil, demonstrou sua habilidade com surdos, caixas, tamborins, reco-reco etc, dentre outras atrações. E, claro, a comemoração dos cem anos da federação local de futebol seria também uma excelente oportunidade para protestar: "Catalonia is not Spain." Cerca de 30 minutos antes da partida iniciar-se, as 70 mil pessoas que compraram ingressos parecia que haviam mudado de idéia e ficado em casa. O belo estádio Camp Nou, do Barcelona, estava quase vazio. "Não se esqueça de que a maoiria deixou o trabalho às 20 horas", lembra Pedro Maldonado, funcionário do Nou Camp. Às 21h10, o jogo começa e, incrivelmente, quase todos estão já em seu lugar. O acesso aos locais determinados, e respeitados, é fácil. Há sempre pessoas identificadas com jalecos prontas para auxiliar quem desejar. O espetáculo é grandioso. Os organizadores disponibilaram para a torcida bandeiras da Catalunha, com suas listas horizontais amarela e vermelha. Sobre cada assento havia uma bandeira. Um jogador do Brasil entra no gramado para aquecer-se. Quem não sabe da história imaginaria tratar-se de um espião enfiltrado, tal as manifestações de carinho que recebe. É um ídolo como poucos, Ronaldinho gaúcho. A quase totalidade das bandeiras se agita. O grupo da Sociedade Amigos do Brasil ocupa uma porção da arquibancada baixa. São três níveis de um lado e dois do outro. Julio Cuartero é o vice-presidente. "Somos casados com brasileiras e temos filhos brasileiros e espanhóis." Eles se reúnem às sextas-feiras e celebravam hoje também os 30 anos da sociedade. Estavam devidamente uniformizados com as cores do Brasil. O maestro da bateria é Jorge Arias, que residiu por muito anos em Santos. Orgulha-se da cadência dos músicos. "Você não diz que não são brasileiros." Durante o tempo todo do jogo não arrefeceram. Intervalo de jogo. Promoções ocupam o espaço de cerca de 20 minutos. Um torcedor sorteado deve cobrar um pênalti. O goleiro é o da seleção da Catalunha, Víctor Valdés. Se marcar o gol recebe um cheque de mil euros, oferecido pela Telefonica. O torcedor marca, sem muito interesse de Valdés em defender, que fique claro. A seleção brasileira muda quase o time inteiro. "Vocês têm dois ou três times capazes de disputar qualquer campeonato com chances de vencer", responde ao repórter um torcedor enquanto não tira os olhos de uma moça, possivelmente brasileira, com os seios de fora, pintados com as cores do País. "Há muita diferença entre uma equipe e a outra. Brasil é muito mais técnico", analisa Sergi García, já um senhor que há 50 anos acompanha o Barcelona, seu clube. Muitos catalães não se sentem espanhóis. "Freedom for Catalona", "Independencia" são faixas que traduzem o desejo de ver a região separada politicamente da Espanha. E dentre os protestantes havia até um grupo de brasileiros expondo uma bandeira de seu movimento, o MST. A derrota da equipe Catalã era esperada. Os sete gols, jogadas de muita técnica, especialmente dos brasileiros, enriqueceram a festa, que é o que as pessoas foram buscar no Camp Nou.

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