Doze FC
Doze FC

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

14 Março 2015 | 17h00

O Doze Futebol Clube traz seu diferencial no nome, logo de cara. Não, o time não joga com doze atletas, mas apresenta um modelo de gestão em que o torcedor participa das decisões a partir das informações oferecidas pelo clube na internet. Ele é, portanto, mais que um torcedor, é um sócio-diretor. Por isso, é o 12.º elemento. A experiência inovadora no futebol brasileiro começa a ser testada hoje na estreia da equipe na segunda divisão do Campeonato Capixaba. 

O Doze é uma empresa e isso muda tudo. A participação dos torcedores na gestão faz parte de um projeto novo para, obviamente, trazer lucro para a organização. É um negócio. A meta é conseguir 3000 sócios-diretores até o final do ano – cada um paga R$ 49,90 como mensalidade. Somando as rendas dos jogos, patrocínios, licenciados e venda de jogadores, o plano de negócio é que o orçamento fique no azul. Para Israel Levi, fundador e CEO do clube, não se trata apenas de business. “Nós representamos uma causa, a participação do torcedor na decisão dos clubes. É uma revolução”. 

Hoje, o Doze é mantido por dez investidores. Levi não revela os valores, mas garante que a conta não chega a R$ 10 milhões. Por enquanto, tudo é feito na base da parceria. Os jogadores treinam no CT Parque do China, luxuoso hotel-fazenda presente na lista da Fifa de locais recomendados para a Copa de 2014. A parceira com o Doze foi feita em troca de visibilidade na mídia. Os jogadores moram lá. 

 

O pulo do gato para fazer o time virar é o compartilhamento de poder, ou seja, permitir que os torcedores participem das decisões, sintam-se donos do negócio a ponto de colocar dinheiro no clube. Outra parte da inspiração são os jogos virtuais em que os torcedores administram o clube, como o Football Manager. “Somos o videogame da vida real”, compara Israel. 

O mundo virtual é outra grande aposta. Os dirigentes prometem abrir o dia a dia do clube nas redes. Por ali, os sócios-diretores podem definir a renovação de contrato do treinador e do jogador, ver a folha salarial, relatórios contábeis e até vídeos dos treinamentos. 

Tudo isso já começou. Um grupo de 120 sócios-diretores escolheu o uniforme, o CT, o nome do time e até alguns jogadores. Cinco atletas foram selecionados em uma peneira virtual depois de enviarem um vídeo explicando porque deveriam ser contratados. Na primeira leva, foram 152 cadastros. Daí, saíram 30 selecionados para a peneira de verdade, no campo, em janeiro. Sobraram cinco, entre eles, o zagueiro Hudson, de 19 anos. “Tenho potencial e quero fazer parte desse grande projeto”, disse o zagueiro no final do vídeo em que mostrou habilidade e bom domínio de bola. 

  

 Por enquanto, tudo bem. O clube conseguiu R$ 1,5 milhão em mídia espontânea, e a fila de espera para ser sócio-diretor tem 800 pessoas. A fan page do Doze já tem 24 mil curtidas. O primeiro lote de 500 camisas foi vendido em duas semanas. Existe até um pedido de Londres, onde o Ebbsfleet tentou uma experiência semelhante à do Doze em 2008 (ver abaixo). 

O professor Renato de Souza, da Fiemg (Fundação das Indústrias de Minas Gerais) e um dos primeiros estudiosos do tema no Brasil, explica que o Doze tem dois desafios. “O principal é mostrar para as pessoas que elas podem confiar no negócio. O segundo é vencer um certo tradicionalismo dos brasileiros”.

A experiência do Doze nasceu na universidade. No curso de Mecatrônica, Levi começou a estudar a Crowd Science (Ciência da Multidão), novo conhecimento que investiga o comportamento das multidões na sociedade. No caso do time, sua vertente é o Crowd Managing (Gestão Compartilhada, em tradução livre). 

Levi é descontraído e simpático, fala bastante, mas não perde o fio da meada. É técnico na construção marítima de poços em Caratinga na Petrobrás, mas tem talento para vendas e comunicação. Seu discurso é muito parecido com o de Flávio Augusto da Silva, empresário brasileiro que adquiriu o Orlando City, que é um dos seus inspiradores. O outro é o falecido Steve Jobs – seu sonho é, um dia, ser comparado a ele. No momento, diz que está lendo cinco livros ao mesmo tempo, entre eles, “O jeito Disney de encantar clientes”. Acredita que tem um produto perfeito nas mãos. A prova dos nove, no entanto, começa hoje. 

O Doze Futebol Clube tem uma comissão técnica de respeito para iniciar sua trajetória na segunda divisão do Campeonato do Espírito Santo. O técnico é o ex-atacante Sorato e o auxiliar é o ex-goleiro Carlos Germano. Os dois tiveram grande sucesso no Vasco, nos anos 1980 e 1990. Sorato, por exemplo, foi o herói do título brasileiro de 89 sobre o São Paulo, no Morumbi. Os dois estiveram juntos na conquista da Libertadores em 98. Além da questão técnica, foram contratados para dar maior credibilidade ao projeto, atraindo sócios-diretores. 

COMISSÃO TÉCNICA.

Sorato e Germano tiveram uma missão difícil: montar um time do zero em apenas três meses, considerando que os jogadores tinham níveis físicos muito diferentes. “O grupo está assimilando bem nossa filosofia, mas tivemos que acelerar o trabalho”, diz Sorato, que atuava como técnico da equipe Sub-2o do Vasco. 

O plano inicial do Doze era estrear no segundo semestre na Copa Espírito, torneio que reúne times da primeira e segunda divisões e dá uma vaga para a Copa do Brasil. Para disputar o torneio, era necessário passar pelo Estadual, Por isso, os planos foram antecipados em seis meses. 

Germano e Sorato decidiram aceitar o desafio por causa da estabilidade. Assinaram contrato por dois anos e, de acordo com o novo modelo de gestão do clube, serão avaliados pelos diretores e pelos sócios no final do contrato. “Isso dá uma certa segurança para que a gente possa desenvolver o trabalho”, diz Carlos Germano. 

A estratégia principal para montar o elenco foi mesclar jogadores jovens e experientes. Um dos atletas cascudos é o volante Irineu, que passou pelo Flamengo, Cruzeiro, Ipatinga, Paraná, Juventude e outros. “Acho que esse sistema não vai mudar muito para os jogadores. Temos de render todos os dias”, disse o volante de 31 anos. 

O atacante Andinho elogia a estrutura. “A alimentação é melhor do que a que eu tinha no CT de Cotia”, diz o atacante, que passou pelo São Paulo antes de ser emprestado para o Cuiabá. “Essa é a minha grande chance no futebol”, diz o atleta de 20 anos. 

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Na Inglaterra, gestão dos torcedores nos clubes não deu certo

O Ebbsfleet United perdeu envolvimento dos investidores

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

14 Março 2015 | 17h00

Em fevereiro de 2008, o Ebbsfleet United, equipe semiprofissional de Londres que hoje disputa a quinta divisão do futebol inglês, ganhou notoriedade pela primeira vez em sua história ao ser adquirido pelo projeto coletivo Myfootballclub (Meu time de futebol), que adquiriu 75% da sociedade quando o clube estava perto de declarar falência. 

Cinquenta mil pessoas contribuíram com 35 libras cada uma para a compra, conquistando o direito de participar da vida do clube, opinando nos investimentos no estádio, transferências e até com direito de sugerir os 11 titulares da equipe. Muitos desses investidores acreditaram na possibilidade de tentar, na vida real, aquilo que é feito nos jogos de computador de gestão de clubes, como o Elifoot e Football Manager. A realidade, no entanto, mostrou-se diferente dos jogos virtuais. 

Nem todas as votações para compra e venda de atletas levaram em conta a decisão do treinador. Com todas as decisões aprovadas na página web – prolongando os prazos – o sucesso inicial do projeto, quando o clube venceu a Copa da Liga Inglesa para clubes semiprofissionais em 2008, foi esmorecendo. 

Além disso, os investidores ficaram frustrados com as limitações técnicas do Ebbsfleet. No início da temporada de 2010/2011, a queda de divisão e a saída da maior parte dos jogadores do grupo deixaram o Ebbsfleet em situação complicada. Dos investidores iniciais, sobram apenas 800 pessoas, muitas distantes das decisões que vão sendo tomadas no site do Myfootballclub. 

Clubes tradicionais, como o Leeds United, Nottingham Forrest e Cambridge United foram abordados pelo movimento, mas negaram. Especialistas afirmam que a experiência da gestão partilhada no futebol inglês não deu certo.

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