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Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

'No ônibus, pessoas se recusavam a sentar do meu lado', conta Jefferson

Em entrevista ao 'Estado', goleiro da seleção brasileira fala sobre racismo no futebol

Sílvio Barsetti - Enviado especial, O Estado de S. Paulo

28 de maio de 2014 | 07h01

TERESÓPOLIS - Um atleta convocado para uma Copa do Mundo com possibilidade remota de jogar pode estar dividido entre a alegria da escolha e a frustração da reserva. Essa é quase sempre a rotina dos goleiros brasileiros que disputam um Mundial. Para Jefferson, no entanto, a definição com antecedência de que Julio Cesar é o titular da posição não muda muita coisa. Nesta terça-feira, ele falou sobre isso na Granja Comary. Disse que seria hipocrisia alguém pôr em dúvida que a vaga é de Julio e que a opção de Luiz Felipe Scolari deve ser respeitada. No entanto, deixou claro que vai 'brigar' até o final para demover o treinador. Antes da apresentação do grupo em Teresópolis, Jefferson concedeu a seguinte entrevista ao Estado, na qual aborda também temas sobre o racismo.

ESTADÃO - Na eventualidade de o Brasil conquistar o título do Mundial, você, em especial, dedicaria a vitória ao goleiro Barbosa (que defendeu a seleção na Copa de 1950)?

JEFFERSON - É inevitável. Fizeram uma grande injustiça com ele, a família. Não merecia isso. Carregou por décadas a culpa de um gol que decidiu aquele título e muito disso se deu porque ele era negro. Foi crucificado por causa da cor da pele. Estamos aqui, eu, o Julio Cesar e o Victor, para representá-lo.

ESTADÃO - Como você tem reagido aos casos de racismo que se repetem no futebol?

JEFFERSON - Em geral, são atitudes isoladas. Alguns torcedores vão aos estádios, aproveitam a visibilidade do futebol e apelam. Virou moda. Os jogadores têm pouco poder para mudar isso. Não depende somente de nós. É preciso uma consciência mais ampla. Que envolva todos. Se uma pessoa presenciar outra fazendo algo indevido e grave num estádio, tem de denunciá-la. A responsabilidade é de todos. Na primeira rodada do Campeonato Brasileiro, um torcedor jogou uma garrafa de água em campo, no jogo entre Flamengo e Goiás, em Brasília, e ele foi denunciado por outros. Por que não fazer o mesmo em manifestações de racismo?

ESTADÃO - Você já foi vítima de discriminação racial?

JEFFERSON - Muitas vezes. Isso ocorria com mais frequência quando eu ainda era criança e adolescente. No ônibus, as pessoas se recusavam a sentar do meu lado. Em outras situações, quando eu me aproximava, mulheres seguravam a bolsa com mais firmeza. Uma vez, perguntei a hora para uma senhora, ela gritou e saiu correndo. É um estereótipo que permanece até hoje: jovem negro é quase sempre tratado como trombadinha.

ESTADÃO - Quem sente mais a falta de ritmo de jogo, goleiro ou jogador de linha?

JEFFERSON - É o goleiro, principalmente no aspecto técnico. Se fica sem jogar, perde logo a noção de espaço dentro da área; se posiciona mal em relação às balizas, erra com frequência nas saídas de bola. Toda vez que volto das férias, tenho a sensação que as traves têm cinco metros de comprimento.

ESTADÃO - Costuma-se dizer que o goleiro é quase um cargo de confiança do treinador.

JEFFERSON - É verdade, é assim que funciona, não tenho dúvida disso.

ESTADÃO - O técnico Luiz Felipe Scolari já declarou que Julio Cesar é o titular da seleção. Como você lida com isso?

JEFFERSON - Estou chegando bem maduro na seleção, com confiança e credibilidade. Vou sempre mostrar que tenho condições de brigar pela vaga. Não me importo com isso.

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