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No País do chutão

A menor das preocupações do Osasco Audax é a questão estética. Classificado para a próxima fase do Paulistinha em primeiro lugar no Grupo C, o time comandado por Fernando Diniz chama a atenção porque tem ideias.

Paulo Calçade, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2016 | 03h00

Para um País que parou no tempo dentro e fora do campo, chega a ser espantoso ver uma equipe pequena se esforçar para tratar bem a bola, sem aquela praga do chutão que contaminou nosso futebol.

É um estilo, é parte do modelo de jogo do Osasco Audax, não uma prisão. Um time de verdade deve estar preparado para resolver seus problemas, que, simplificando, são dois: fazer e evitar gols. 

Cabe ao treinador apontar os caminhos e determinar os conceitos que vão emoldurar a missão.

É justamente nesse momento que o futebol se torna feio ou bonito. A saída de bola da defesa para o ataque, de pé em pé, que acompanha os trabalhos de Fernando Diniz, é uma ferramenta, não uma obsessão.

O gol de Wellington contra o Santos, ontem, na Vila Belmiro, surgiu de um lançamento do goleiro Sidão, que assim resolveu seu problema naquele momento. Afinal, era o caminho mais curto para a jogada. Por que não utilizá-lo?

Diniz criou uma identidade. Não pode ser refém do formato, mas tem o dever de participar dessa batalha conceitual que conduziu o futebol brasileiro ao abismo nos últimos anos. Seria muito mais fácil trancar-se na defesa e abusar de contra-ataques.

Mas nesse caso seria apenas mais um nome na mesmice que inundou o mercado dos “professores”. É um treinador inteligente e tem uma longa trajetória pela frente, pois ainda não está pronto. Não é fácil, porém, convencer a cartolagem de que o percurso pode ser outro.

É um alento ver uma equipe de baixo orçamento fazer o papel que deveria ser dos grandes clubes.

O Audax assumiu o risco ao adotar essa característica. E sabe que suas escolhas têm peso menor na vitória do que na derrota.

Para a sorte do futebol, funcionou. Agora enfrentará o São Paulo como mandante na próxima fase. Obviamente, se os jogadores não tivessem comprado a ideia, nada teria acontecido. Com uma fase curta para os times pequenos e interminável para os grandes, certamente o grupo de Fernando Diniz perceberá o valor da classificação no campeonato.

A parte triste dessa história é que o futebol brasileiro ainda estranha quando encontra uma equipe disposta a ter a bola e a tratá-la com carinho. A troca de passes, as triangulações e o jogo associado são formas de chegar ao ataque e desmontar o adversário.

Mas nada é aleatório, é preciso ter ideias, conhecimento e horas de treinamento.

Dentro de suas limitações, o Audax chegou a um ponto que Palmeiras e São Paulo ainda tentam alcançar. O primeiro passo é escolher um modelo e fazer o jogador acreditar nele. E dar a vida pelo coletivo.

É o que Cuca está buscando na Copa Libertadores da América e no Paulistinha, simultaneamente. Na quarta-feira, contra o Rosário Central, optou por três zagueiros.

Foi corajoso ao mudar o sistema de jogo na base da conversa, sem treinamentos. É inadmissível, mas é a realidade de um futebol de condução amadora.

O presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, tem despejado seus milhões no clube para manter o time saudável, mas é incapaz de se revoltar contra o calendário que, neste momento, coloca tudo em perigo. Até a sua grana.

O Osasco Audax merece aplausos. Não é a oitava maravilha, longe disso. Mas revela o incômodo de um jovem treinador com a situação atual do futebol brasileiro, de um ex-jogador disposto a vincular o seu nome a uma ideia, a um tipo de jogo que já foi muito praticado por aqui e que hoje nos assombra.


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