Melina Mejía/Andina
Melina Mejía/Andina

No Peru, euforia e clima de carnaval para decisão da Copa América

Seleção peruana enfrenta o Brasil neste domingo, no Maracanã, na final da competição

Renzo Guerrero de Luna Zárate / Lima / Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2019 | 04h30

O Peru vive um carnaval. Nas ruas se respira, se fala e se vive o futebol, de manhã, de tarde e de noite. A vitória contra o Chile ainda é festejada. Não apenas porque se tratou de um triunfo contra um eterno rival, mas também porque vários peruanos vivem um sentimento novo, já que é a primeira fez que estão vivendo, aproveitando, desfrutando algo desta natureza: a equipe nacional jogará uma final de Copa América depois de 44 anos. 

Nas esquinas, nos ônibus, nos canais de televisão – não se fala de outra coisa que não seja algo sobre os gols de Guerrero, as mágicas de Gareca e Cueva, as mãos sagradas de Gallese, dos bailes ao ritmo do reggaeton de Carrilo. Nestes tempos de futebol, no Peru, a vida é aquilo que se passa enquanto se espera pela grande final. Até mesmo a agenda política se viu detida e casos como a audiência para avaliar a possível liberação de Keiko Fujimori ou o corte de água que afetará mais de um milhão de pessoas foi passado para segundo plano. Além disso, o primeiro a saudar os jogadores pela vitória na semifinal foi o presidente da República, Martín Vizcarra, que apesar de ter dito que não viajará ao Rio de Janeiro, apoiará a seleção como mais um torcedor.

As mães, tios, primos e vizinhos dos jogadores se transformaram em celebridades. María Julia Flores, mão de Yotún, e Mari Luz Blanco, mãe de Miguel Araujo, foram transmitidas em canais abertos, abraçadas e vestidas de vermelho e branco, cantando “onde estão, onde estão, os chilenos que iriam nos vencer”. Em outro meio de comunicação, dona Bessy Saavedra, mãe de Miguel Trauco, conta sorridente que decidiu não telefonar para o seu filho até que acabe a competição. Quando ela falou com ele, o resultado foi negativo. E para não ficar atrás, a avó de Carlos Zambrano, a senhora Betty, conta que anda tão nervosa que tem esquecido de comer, mas afirma que isso não importa se o seu neto sair do Brasil como campeão da Copa América. 

Nas redes sociais, as promessas se multiplicam e já são muitos os que prometem deixar de ser infiéis, que pintarão o cabelo, que sairão sem roupas para correr pelas ruas, que farão uma tatuagem. O restaurante Mi Barrunto, que costuma receber vários futebolistas peruanos, afirma que se o Peru vencer o jogo, eles colocarão 100 caixas de cerveja (120 garrafas de 620 ml) e 10 mil copos de ‘leite de tigre’ (caldo que acompanha o ceviche, tradicional iguaria peruana, e que é feito com suco de limão, água e gengibre ralado, entre outros ingredientes). Uma suculenta promessa cujo pagamento todos esperam que se torne realidade. São os mais veteranos que acreditam que é possível, assim como em 1975, quando nas semifinais a seleção peruana venceu o Brasil por 3 a 1 no Mineirão. Sim, como visitante, como agora. Julio Meléndez, defensor que disputou aquela partida, recorda que antes de começar o jogo, muitos acreditavam que os rivais aplicariam uma goleada. Porém, não foi assim. “Com humildade, nós mostramos para todos aqueles que nos davam como perdedores que era possível. Eu costumo falar que para fazer tortilhas, primeiro frite os ovos”, diz, emocionado.

Assim como Julio Meléndez, são muitos os peruanos que gostariam de viajar, porém as passagem se esgotaram pouco tempo depois do final da partida entre Peru e Chile. Franz Kieefer, chefe de serviço da Avianca, indicou que este mês aumentou em 112% o número de voos ao Brasil. A recomendação é viajar por Buenos Aires e de lá seguir para São Paulo para depois tomar o caminho do Maracanã, no Rio, porém, nem assim é garantido que conseguirão entradas para o jogo. “Eles podem ter 100 mil torcedores gritando por eles, porém nós temos 11 machos que vão dar a alma, coração e a vida para trazer essa Copa para cá, 44 anos depois”, diz Meléndez, que assistirá o jogo com sua família, no bairro de La Perla, em El Callao. 

Como já é tradicional, o domingo será para compartir um delicioso almoço “criollo” ou para saborear um espetacular frango na brasa. Todos sairão de casa com suas camisetas da seleção, como tem ocorrido por esses dias em cada rincon do país. Para essa Copa América, Susana Saldaña, presidente da Coordenação de Empresários do ramo têxtil de Gamarra, o mais importante do país, calcula que foram vendidas mais de 500 mil camisetas, não originais, da seleção peruana. Contudo, com a presença na decisão, ela acredita que esse número passará de 1 milhão. Também tem sido muito procurados gorros, flâmulas, máscaras com as caras de Gareca e Guerrero, orelhas sintéticas de Flores e tudo o que se pode imaginar, até cuecas com o lema: “Arriba Perú”. 

Telões gigantes estão sendo preparados em vários locais do país. O maior deles, na Plaza das Armas, de Lima, onde milhares deverão assistir à decisão na frente da Catedral, para rezar, torcer e perder a voz na torcida. Tudo está preparado para uma grande festa. Ninguém pensa, pelo menos ninguém diz, que o Brasil tem uma equipe melhor. Pelo menos nas cotações dos jogadores, a seleção brasileira vive nas nuvens – Coutinho vale mais que o dobro de toda a seleção peruana. Porém, a esperança é a última que se morre. E os peruanos esperaram com fé 44 anos até que esse grande dia chegasse. Como disse o famoso narrador Toño Vargas, eufórico e que quase foi às lágrimas ao final do duelo contra o Chile: “Isto é para os que estão por aqui e por aqueles que já se foram sem poder desfrutar deste momento”. Peru vive uma loucura e vai seguir vivendo isto, ganhe ou perca a decisão. 

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