No rastro de Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho, Neymar joga sua primeira Copa

Midiático, atacante do Barcelona pede passagem para fazer história como os dois ídolos

Luiz Antônio Prósperi, O Estado de S. Paulo

17 de maio de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - Neymar já apareceu só de cuecas na televisão. Chupou sorvete. Disparou torpedos no celular. Encarou o ídolo do rali Ken Block em um duelo de habilidades. Ensinou "gringos" a pedir, em português, um guaraná quando vierem ao Brasil para a Copa. Também colocou seu filhinho David Lucca no YouTube a falar assim: "Joga para mim, papai", uma campanha para ajudar a vender produtos de um frigorífico. Apareceu em 1.334 inserções publicitárias na TV aberta, um líder de audiência. E ainda sobrou tempo para jogar futebol.

A menos de um mês da abertura da Copa do Mundo, Neymar inunda o mundo da publicidade com a força de um tsunami. Empresas dos mais diferentes segmentos disputam o craque a tapa para associar seus produtos à imagem do jogador. Ele é, disparado, o mais requisitado pelos agentes de marketing.

Tamanha exposição poderia provocar um pânico no comando da seleção brasileira, temendo por um efeito negativo no desempenho do craque no campo. Não é bem assim. Luiz Felipe Scolari, o chefe de Neymar, também tem sido alvo da publicidade. Em março, por exemplo, o treinador apareceu em 318 inserções de comercias na TV aberta. Perdeu apenas para Neymar, que teve sua imagem em 578 inserções publicitárias nesse mês.

Nem poderia ser diferente, Neymar tem na sua carteira 15 patrocinadores, contra apenas seis marcas representadas por Felipão. Uma corrida desigual que o técnico espera que não possa interferir na seleção durante a Copa do Mundo. Por enquanto, Felipão, o coordenador Carlos Alberto Parreira e seus assessores de comissão técnica estão tranquilos. O comando do time tem certeza de que Neymar não derrapará quando a bola rolar.

RESPONSABILIDADE

"A responsabilidade maior de Neymar não é só pela criação, é pelo contra-ataque, pela improvisação, pelo que é capaz de fazer num espaço em que os outros não fazem. É um complemento de um grupo que trabalha para ele, e ele, em algumas oportunidades, vai ter de trabalhar para esse grupo também", disse Felipão no ato da convocação da seleção, dia 7.

Ou seja, cabe a Neymar fazer a diferença, mesmo sendo o centro do universo, o símbolo maior da Copa no Brasil. É a mesma receita de 1998, quando Ronaldo tinha em sua órbita o Mundial na França. Assim como Neymar transborda nos outdoors das principais cidades brasileiras, Ronaldo entupia as ruas de Paris com sua imagem.

O Fenômeno, aos 22 anos de idade e eleito o melhor jogador do mundo, sofria assédio constante dos patrocinadores e, virava e mexia, tinha de atender aos pedidos da cartolagem com algumas filantropias em plena preparação da seleção brasileira para a Copa. Certo dia, no acanhado estádio de Ozoir-la-Ferrière, cidade a 40 quilômetros de Paris e quartel-general da seleção na Copa da França, Ronaldo atendeu a um casal de sul-africanos que trazia no colo o filho, de cinco anos, que tinha leucemia. O casal entregou o filho aos braços de Ronaldo. Ficaram ali uns cinco minutos.

Ronaldo acarinhou a criança e ouviu dos pais que o garoto tinha, no máximo, mais um mês de vida. O jogador beijou o rosto do menino, o devolveu aos pais e caminhou a passos rápidos para o vestiário da seleção na vã tentativa de esconder as lágrimas. Ronaldo não teve sossego naquela Copa. E na hora H sofreu a convulsão que o fez chegar sem forças à decisão contra a França.

RONALDINHO GAÚCHO

Ronaldinho Gaúcho, eleito o melhor do mundo em 2006, também fez a Copa da Alemanha gravitar aos seus pés. Quer dizer, antes de a Copa começar. O craque desembarcou em Frankfurt campeão de tudo com o Barcelona e pronto para ser o protagonista do Mundial. Carregava em sua carteira 15 anunciantes dos mais variados produtos.

Os mais exaltados disseram que ele poderia ser maior do que Pelé se cumprisse o ritual de guardar a Copa no bolso. Assim como Ronaldo em 98 e Neymar agora, Ronaldinho era objeto do desejo dos marqueteiros e cobiça das grandes empresas. E a maior esperança da seleção, na época sob o comando de Carlos Alberto Parreira. "É impressionante a dedicação do Ronaldinho. Mesmo com todo esse assédio e alto desempenho no seu clube, tem sido exemplar na seleção", disse Parreira. Nos 20 dias de treinos em Weggis, na Suíça, Ronaldinho foi alvo de fãs histéricas. Uma delas invadiu o campo e derrubou Ronaldinho na grama, na tentativa de roubar um beijo do craque.

A Copa começou e o futebol do gaúcho definhou. Voltou da Alemanha sem a taça e sem dar aos seus patrocinadores o retorno esperado. Naquela época, ainda não se falava em redes sociais na internet como hoje. Difícil precisar quantos seguidores Ronaldo teria em 98 e o Gaúcho em 2006.

Neymar tem fantásticos 10,5 milhões de seguidores no Twitter e 4,8 milhões no Instagram. Ele mede forças com Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, os totens de agora. Calejados, Felipão e Parreira sabem que Neymar já é e vai ser ainda mais assediado na Copa que se avizinha. Tudo o que eles não querem é ver Neymar no espelho de Ronaldo em 98 e de Ronaldinho em 2006.

NA REDES SOCIAIS

Lionel Messi

Twitter - 1,9 milhão de seguidores

Instagram - 3,1 milhões de seguidores

Cristiano Ronaldo

Twitter - 26 milhão de seguidores

Instagram - 4,8 milhões de seguidores

Neymar

Twitter - 10,5 milhão de seguidores

Instagram - 4,8 milhões de seguidores

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.