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Estádio Internacional Khalifa, no Catar. Reuters

No reino da ostentação, Catar apresenta a 'menor' Copa do Mundo

Estádios serão próximos uns dos outros e diplomacia promete abrir a porta aos vizinhos

Mauro Cezar Pereira, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2019 | 04h30

Menor Estado do Brasil, com 21.915 km², Sergipe possui quase o dobro da extensão territorial do Catar. Tem 11.437 km² o país do Golfo Pérsico, palco da Copa de 2022, que não se dá bem com os vizinhos Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. De carro, é possível atravessá-lo, partindo da cidade mais ao sul, As Salwa, para uma situada no extremo norte, Al Mafjar. Os 211 quilômetros podem ser percorridos em duas horas e meia, cortando o deserto, desde que o motorista não se depare com tempestades de areia, em geral não tão fortes em solo catari.

A organização da Copa fala em 50 quilômetros como a maior distância entre estádios (serão oito) no próximo Mundial de futebol – no Google Maps percebe-se 72,5 quilômetros a separar as arenas Al-Wakrah e Al Bayt, em Al Khor. É a cidade-sede mais afastada do centro de Doha, a 55,5 quilômetros da capital.

Em São Paulo, os estádios de Barueri e do Corinthians, em Itaquera, são separados por 50 quilômetros. Isso dá uma ideia de quão próximos serão os locais das 64 partidas que 32 seleções vão protagonizar, isso se a Fifa não inchar o Mundial para 48 participantes antes do previsto.

Na Copa realizada no Brasil, em 2014, a maior distância separava a Arena da Amazônia, em Manaus, do Beira-Rio, em Porto Alegre: 2,1 mil quilômetros. Na Rússia, ano passado, o Kaliningrad Stadium, a oeste, estava a mais de 3 mil quilômetros do Ekaterinburg, no extremo leste do país. Em 2022 será o inverso. O Catar Foundation Stadium, por exemplo, ficará a 8 quilômetros do Khalifa, refeito e único já funcionando.

Em maio, a 16 quilômetros do centro de Doha, será inaugurado o segundo palco do Mundial, o Al Wakrah, na decisão da Copa do Emir. O torneio é uma das incontáveis formas de exaltação a Tamim bin Hamad al Thani, de 38 anos, no poder desde 2013, após o pai abdicar. Sua imagem está, sem exagero, em toda parte, dos enormes prédios de vidro que inundam a capital à entrada de modestas lojas no (imperdível) mercado Souq Waqif. Esse conjunto de lojas, barraquinhas de camelôs, cafés e restaurantes é, por sinal, um dos pontos de Doha onde o visitante sente-se, de fato, no Oriente Médio.

Nos hotéis, restaurantes, prédios, shoppings e avenidas a bordo de carros confortáveis, a sensação é a de quem passa por alguma grande e moderna cidade em qualquer ponto do planeta. No mercado, a experiência é real, você percebe o “Mundo Árabe”.

Saindo do Souq Waqif, circulando em Doha, o que se vê são edifícios gigantescos, em obras, condomínios muitas vezes desabitados e pistas de asfalto impecável. O trânsito é pesado e não se vê transportes coletivos.

Em construção, o metrô, com três linhas, é promessa para 2022. Com ônibus raros, táxis e Uber são a solução para quem está a pé. Sempre com ar condicionado no talo. A Copa acontecerá entre 21 de novembro e 18 de dezembro, período para fugir do calor.

Entre abril e julho, mês que sempre encerrou os Mundiais, as temperaturas giram em torno dos 50 graus centígrados, tornando uma simples caminhada algo insuportável e inviabilizando jogos de futebol. O governo promete ar condicionado em todos os locais de jogos. Não deve ser necessário, mas num país marcado pela ostentação, tamanha chance de impressionar certamente não será desperdiçada.

OBSESSÃO DA COPA

Por que um país como o Catar se empenha tanto para ser reconhecido? Sedia inúmeros eventos, adquiriu o Paris Saint-Germain, contratou Neymar e já patrocinou a Libertadores, a Roma e o Boca Juniors. Mera vaidade da família real? Dinheiro sobrando? Tudo isso e algo mais: a estratégia de defesa do emirado e seu posicionamento no jogo geopolítico local.

Dono da terceira maior reserva de gás natural do mundo (13%) e com 2,7 milhões de habitantes, o Catar percebeu sua vulnerabilidade em 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait, ação que fez desencadear a Guerra do Golfo. “O país desenvolveu estratégias. Primeiro, buscou alianças múltiplas que o proteja de invasões, depois recebeu a base da marinha americana no Golfo, o que lhe deu garantia de ameaças do Irã, ou de outra potência regional. Mas isso abriu o flanco em relação a grupos fundamentalistas muçulmanos, com os quais o Catar criou relações, nessa estratégia de ter diplomacia multifacetada em busca da segurança. O Catar é um apoiador do Hamas e procura mostrar aos extremistas que não quer ser marionete dos EUA”, explica Jaime Spitzcovsky, do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP.

Capitaneados pelo governo de Riyadh, mais seis países (Bahrein, Egito, Iêmen, Líbia, Ilhas Maldivas e Emirados Árabes Unidos) romperam relações diplomáticas com o Catar em 2017. A fronteira do país-sede da Copa com a Arábia Saudita foi fechada. E como será se alguns desses países obtiverem vaga no Mundial e o impasse diplomático não for superado até lá? “Todos serão bem recebidos na Copa”, assegura o diretor de marketing e comunicação da Associação de Futebol do Catar, Khalid Mubarak Al-Kawari.

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Imigrantes devem aprender o que é permitido na cultura do Catar para a Copa

No país muçulmano, é proibido consumir bebidas alcoólicas em lugares que não sejam fechados

Mauro Cezar Pereira, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2019 | 04h30

Aprender como é a cultura do Catar e o que lá não é permitido. Esta é a primeira providência a ser tomada por quem deseja ir à próxima Copa do Mundo. Naquele país muçulmano, homossexualismo é crime, beijos e carícias na rua geram punição e bebidas alcoólicas só podem ser consumidas em locais privados, como hotéis, e ainda assim por quem não segue a religião local. Roupas mínimas devem ser evitadas e a pena de morte se aplica em casos de homicídio, terrorismo, estupro e tráfico de drogas. Quem xingar uma pessoa poderá ser preso e só deixará a cadeia quando o ofendido perdoá-lo. A Fifa vai discutir algumas dessas regras, mas sabe de antemão que não será fácil derrubá-las durante o torneio.

Nas ruas, é comuns ver mulheres com a abaya, veste que cobre todo o corpo, exceto rosto, pés e mãos. Algumas usam o niqab sobre a face, peça que contém apenas uma abertura nos olhos e é comumente confundida com a burca, que tem uma redinha diante dos olhos. Olhar paras as pessoas, fotografá-las ou abordá-las de forma curiosa não é aconselhável. O emirado é visto como mais liberal do que alguns vizinhos e admite uma espécie de flexibilização durante a Copa. Mesmo assim, o rigor não deverá ser abandonado.

A pouco mais de três anos e meio da Copa, Doha é um canteiro de obras. Com vigilância. Movimentos fora da rotina, como jornalistas portando câmeras e se aproximando de um estádio, bastam para gerar corre-corre e alvoroço. O evento colocou um enorme holofote sobre o Catar, como o governo local queria, o que também realçou aspectos negativos, caso das denúncias contra condições as quais seriam submetidos trabalhadores que erguem a infraestrutura do Mundial.

"Houve até mudanças nas leis. O país se empenha nesse sentido", informa o porta-voz do Comitê de Entrega e Legado da Copa do Mundo 2022, Khalid Al-Naama.

De fato, sob pressão internacional, o Catar alterou a legislação e migrantes deixaram de ser obrigados a apresentar autorização do empregador para saírem do país. Organizações de defesa dos direitos humanos, porém, não acham o bastante. "Se ainda cometermos erros, as pessoas podem nos avisar que estaremos prontos para reparar tudo", promete o porta-voz.

No aeroporto de Doha, se repete a cena dos nepaleses, cujos contratos se encerraram, à espera do embarque. O Estado presenciou filas de homens empurrando carrinhos repletos de itens que conseguiram comprar. Eles aguardavam o momento do check-in nos guichês da Himalaya Airlines – são 4h45 de voo na aeronave que diariamente decola às 2h30 da madrugada. O Catar convive ainda com denúncias de compra de votos para ganhar o direito de sediar a Copa. O emirado foi acusado de pagar milhões para receber a competição. "Existem acusações, mas ninguém conseguiu provar nada", desconversa Al-Naama, que usa recursos modernos para mostrar detalhes do evento esportivo numa espécie de andar multimídia no prédio da Associação de Futebol.

Hoje, a cidade-sede convive com carrões dos mais abastados e com estrangeiros pobres construindo os prédios da Copa. Com as obras concluídas, os operários já terão ido para a fila do check-in.

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