Cesar Greco/Ag. Palmeiras
Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Nobre acusa Galiotte de traição e diz que Palmeiras pode afundar na lama

Ex-presidente do Palmeiras divulga carta para atacar antigo aliado e criticar relação com a patrocinadora

O Estado de S. Paulo

21 de novembro de 2018 | 18h41

O ex-presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, enviou uma carta aos sócios do clube para criticar a gestão do antigo aliado, o atual mandatário Mauricio Galiotte, a poucos dias da eleição para presidente. No texto, Nobre afirma que o sucesso o traiu, por tomar decisões contrárias e tomar um rumo político antiquado que pode colocar a equipe na lama.

"Minha decepção pessoal com ele foi gigantesca e jamais poderia imaginar que ele tomasse as atitudes que tomou no final do meu mandato e durante os dois anos do seu, demonstrando uma total divergência de princípios e de conceito", escreveu. Nobre teve Galiotte como um dos seus vices ao longo de quatro anos de mandato como presidente do Palmeiras.

A principal crítica do ex-presidente recai à dona da Crefisa e conselheira do clube, Leila Pereira. Antes de deixar o cargo, no fim de 2016, Nobre reprovou documentos apresentados por Leila para comprovar a sua data de associação ao Palmeiras. A decisão, no entanto, acabou revertida por Galiotte, que aceitou uma carta feita pelo ex-presidente, Mauricio Galiotte, que trazia a informação de que a empresária havia se tornado sócia em 1996.

A decisão permitiu a Leila se candidatar e ganhar o cargo de conselheira, em fevereiro de 2017. Isso porque ao comprovar vínculo com o clube desde 1996, a empresária cumpriu o requisito mínimo de oito anos de presença no quadro associativo. "Um ex-presidente não tem, isoladamente, o poder de fazer uma carta e o que está escrito nela passar a ser verdade", afirmou.

Nobre diz que considerava Galiotte mais do que um amigo e conta que sente falta da convivência com a família do antigo aliado. "Me revolta ver alguém que esteve ao meu lado nesta árdua caminhada, mas de sucesso, praticar a contramão de tudo que sempre acreditamos", diz o ex-presidente, que considera a eleição do próximo sábado como uma oportunidade para os sócios mudarem de rumo.

Na carta, ele critica um possível conflito de interesses entre a patrocinadora querer participar da vida política do clube. "Não te preocupa o Palmeiras estar a cada dia andando menos com as próprias pernas e ficando cada vez mais dependente do dinheiro e da boa vontade da patrocinadora?", escreveu. "Você, sócio, já não viu esse tipo de política ser praticada antes e acabar afundando o Palmeiras na lama?", completou.

OUTRO LADO

Em entrevista na tarde desta quarta-feira ao canal Fox Sports, Galiotte explica que parte da indignação de Nobre é fruto de uma divergência pessoal dele com Leila Pereira, conflito que segundo o atual presidente do Palmeiras, por várias vezes foi intermediado no passado por ele próprio. "O Palmeiras precisa de todos. O Paulo Nobre foi muito importante. O patrocínio foi e é importante. O que eu diria: o Palmeiras precisa de todos, cada um ajudando da sua forma", comentou.

Galiotte disse lamentar a divulgação da carta durante uma ocasião importante para o clube, que disputa nesta semana o título do Campeonato Brasileiro. "Apenas lamento que as pessoas hoje, toda a energia que as pessoas precisam para a vitória, a gente desperdiça com uma série de notícias, teses e versões. Inclusive algumas inverdades", escreveu.

Confira a íntegra da carta de Paulo Nobre:

"Caros sócios,

Sou o Paulo Nobre, ex-presidente que comandou o clube de 21 de janeiro de 2013 a 15 de dezembro de 2016. Tomo a liberdade, neste momento político pelo qual passa nossa Sociedade Esportiva Palmeiras, de manifestar minha opinião. Estou totalmente afastado da vida política do clube há quase dois anos, e optei por não me manifestar até agora por não achar efetiva nenhuma manifestação a não ser próxima de uma eleição onde você, com seu voto, pode mudar o que por ventura julgar não estar bom.

Meu problema com o Sr. Mauricio Galiotte é muito mais profundo e sério do que uma mera divergência de opinião sobre um tema político, como o atual presidente simplifica ao tentar explicar nosso afastamento. Digo aos senhores que minha decepção pessoal com ele foi gigantesca e jamais poderia imaginar que ele tomasse as atitudes que tomou no final do meu mandato e durante os dois anos do seu, demonstrando uma total divergência de princípios e de conceito do que é certo e errado, ético ou não, e desta forma meu rompimento com ele é irreversível. Eu o considerava muito mais que um amigo. Nossas famílias tinham um relacionamento muito próximo, passávamos quase todos os feriados juntos e digo de coração aberto que tenho muitas saudades dos seus filhos, por quem tenho muito carinho, e do seu pai, que era um dos poucos familiares que eu permitia que frequentasse o camarote da presidência nos dias de jogos e fazia questão que sentasse na minha frente, para ser a 1ª pessoa que eu abraçava quando o Palmeiras fazia gol. Fico triste com tudo isso, mas hoje é passado e bola para frente.

Quero deixar muito claro que o ocorrido entre o Sr. Mauricio e eu pertence apenas a nós dois e essa carta não tem o objetivo de denegrir a imagem pessoal dele, que pode estar destruída comigo, mas o fato de ele merecer ou não meu desprezo, não faz dele necessariamente uma má pessoa com os outros. A partir daí, cada um que faça seu julgamento, e peço a todos vocês que não motivem seu voto sábado, dia 24 de novembro, baseados no que aconteceu pessoalmente entre nós dois, e sim que vocês avaliem tudo o que aconteceu no Palmeiras em 2017 e 2018, bem como as propostas das duas chapas, para poderem votar no que julgarem que será melhor para o futuro do clube.

De qualquer forma, eu gostaria de esclarecer os motivos que me afastaram completamente da política do Palmeiras. Tentarei fazer um resumo dos fatos que não expus até agora, por simplesmente achar que só tumultuaria e não seria produtivo fora do período eleitoral. Acredito que fazer oposição não pode ser algo destrutivo e é com muita alegria e respeito que vejo que a atual chapa de oposição também teve esse espírito, apenas se pronunciando quando algo sério expunha o Palmeiras e a atual presidência, não sei por qual motivo, se calava.

Durante os 14 anos militando na vida política do Palmeiras, formamos um grupo que apesar de pequeno era coeso, sempre levando a bandeira da meritocracia, transparência, ética e profissionalismo, pois sem elas não acreditávamos que uma gestão poderia estar à altura da Sociedade Esportiva Palmeiras e estaríamos praticando a velha política.

No final de 2010, esse pequeno grupo começou a crescer com outros conselheiros que comungavam das mesmas ideias e princípios. Resolvemos, então, nos lançar como uma 3ª via nas eleições presidenciais de janeiro de 2011. Foi nesta época que conheci o Sr. Mauricio e, desde o princípio, ficamos muito próximos por pensarmos muito igual. Perdemos aquela eleição, não desistimos e viemos a conquistar a presidência 2 anos depois, sempre criticando a velha política e acreditando que seria possível administrar o clube de acordo com nossos ideais. Nos 4 anos de minha presidência, colocamos em prática nossas ideias, o que possibilitou a volta do Palmeiras ao protagonismo nacional e continental e mostramos que era possível o clube ter responsabilidade financeira com indispensável sucesso esportivo. Por esta razão, me revolta ver alguém que esteve ao meu lado nesta árdua caminhada, mas de sucesso, praticar a contramão de tudo que sempre acreditamos, colocando em risco todos os conceitos que com tanta dificuldade conseguimos implementar no clube.

Com o sucesso alcançado ao final da minha gestão, politicamente imaginei que o clube estava em relativa paz. Como fui o responsável por conduzir o processo sucessório, fiquei muito honrado e feliz de ter feito meu braço direito, grande amigo e 1º vice , Sr. Mauricio, meu sucessor, uma vez que nem clima para se fazer uma chapa de oposição havia no 2º semestre de 2016.

Entretanto em outubro de 2016, começou minha decepção. Gostaria de deixar claro que nunca combinei com o Sr. Mauricio que sua indicação a me suceder estava condicionada a minha participação na gestão. Sempre achei que o presidente tem que ter a liberdade de montar sua equipe sem qualquer obrigação com qualquer um. Quando ele estava formando sua diretoria, propôs que eu trabalhasse "escondido" para que o Sr. Mustafá e Sra. Leila não soubessem que eu fazia parte da gestão, o que sinceramente me ofendeu, pois jamais me sujeitaria a isso.

Finalmente, no dia 27 de novembro de 2016, dia do jogo contra a Chapecoense, eu descubro que o Sr. Mustafá havia feito uma carta, no final de fevereiro de 2016, dizendo que a Sra. Leira Pereira não era sócia desde 2015, quando ela comprou um título, mas sim desde 1996, pois tinha sido agraciada por ele, quando presidente, com um título e que por desordem do Palmeiras toda sua documentação havia sumido! (se ela já era sócia, por que comprou um título em 2015?)

Um ex-presidente não tem, isoladamente, o poder de fazer uma carta e o que está escrito nela passar a ser verdade. Ele teve a colaboração do diretor financeiro nomeado em minha gestão, Sr. José Eduardo Luz Caliari, o qual na época contava com minha total confiança, para anexar com força administrativa essa carta na ficha da Sra. Leila.

Este mesmo Sr. que sempre precisou contar com o apoio do nosso grupo para se eleger conselheiro pelos sócios, tinha mais dificuldade ainda dentro do conselho deliberativo para se eleger conselheiro vitalício, até que em março de 2016 ele se elegeu com os votos do grupo do Sr. Mustafá!

Após o jogo da Chapecoense, o Palmeiras em festa, chamei o Sr. Caliari para saber porque ele havia aceitado e ratificado a carta do Sr. Mustafa sem me consultar antes - a princípio ele disse que não se lembrava! Depois, se lembrou que havia feito com o aval do Sr. Mauricio Galiotti, meu 1º vice e braço direito. Ao perguntar ao Sr. Mauricio, ele também não se lembrou do episódio e depois de algumas horas me disse que o Sr. Caliari disse a ele que o Sr. Mustafa havia dito que eu estava a par de tudo! O que é mais engraçado, é que eu passava a imagem de um presidente duro, austero e centralizador. Por que, se me perguntavam tudo, ninguém tocou nesse assunto delicado comigo?

Neste momento, eu reuni o departamento jurídico, que fez um parecer totalmente contrário a essa carta que conta uma história que não se comprova nas documentações do clube e que todos sabem que não é verdade. Com isso, eu revoguei a validade dessa carta antes de sair da presidência. O Sr. Mustafá reapresentou a carta na primeira semana de mandato do presidente Sr. Mauricio e ele a aceitou. O caso era administrativo, onde uma sócia não tinha condições estatutárias de ser candidata por falta de tempo para isso, porém a partir do momento que deram condições de candidatura e ela se elegeu, passou a ser um problema político que foi julgado pelo conselho deliberativo, que encantado com a patrocinadora e com o futuro maravilhoso que era prometido, simplesmente fez vistas grossas e aceitou a tal carta.

Com essa atitude de aceitar aquela carta só para agradar uma patrocinadora que queria ser conselheira naquele momento, sem esperar o tempo que o estatuto previa como todos os conselheiros que lá estão hoje esperaram, percebi que seria uma gestão com princípios distintos dos nossos e não seria nem de perto uma continuidade da gestão que eu, com muito sacrifício, suor e lágrimas, presidi. Diante disso, resolvi me afastar.

Sócio, você que acompanhou tudo o que aconteceu nestes dois últimos anos, é quem pode dar o aval para essa administração que pratica a velha política continuar, ou para que uma nova administração com princípios semelhantes aos praticados na minha, assuma. Quero deixar muito claro que quando você votar no Sr. Genaro Marino, você não está votando no Paulo Nobre, mas sim em um presidente que tem os mesmos princípios que eu.

Não existe nenhum combinado que, caso o Sr. Genaro vença, eu assuma esse ou aquele departamento, mesmo porque eu não gostaria de militar na vida política do Palmeiras por um bom tempo, quero poder ter o direito de ser um torcedor. Mas vejo tanto no Genaro, como no Tomaselli, Galassi, Fronterotta e Guilherme pessoas extremamente sérias, dedicadas e com princípios administrativos iguais aos meus e de nosso grupo.

Pergunto a você, sócio: você está satisfeito com a atual administração do clube?

Você gosta da maneira com a qual o atual presidente se comporta no dia a dia e nas crises que aparecem toda hora?

Você se sente representado pelo atual presidente?

Você se orgulha de ter um presidente como ele conduzindo o Palmeiras?

Como você, sócio e palmeirense, se sente em ver o Palmeiras virar a imagem e semelhança da presidente da Crefisa?

Você não acha estranho tanta vontade, esforço e dinheiro investido para uma campanha de mudança de estatuto para um mandato de 3 anos e assim possibilitar que a Sra. Leila já possa ser candidata a presidente em 2021?

Você não acha estranho em uma campanha a chapa da situação ao invés de trazer ideias trazer só brindes para agradar a você, sócio?

Você acha normal, por um erro ou engano de lançamento na contabilidade do patrocinador, o Palmeiras assumir R$ 120 milhões de dívida, que vieram como presente da patrocinadora?

Você, sócio, já não viu esse tipo de política ser praticada antes e acabar afundando o Palmeiras na lama?

Sem dúvida os elencos montados em 2017 e 2018, na minha opinião, foram muito bons, e temos que comemorar muito esse título brasileiro, mas não te preocupa o Palmeiras estar a cada dia andando menos com as próprias pernas e ficando cada vez mais dependente do dinheiro e da boa vontade da patrocinadora?

Foi na minha gestão que a Crefisa e a FAM chegaram no Palmeiras e eu sou o primeiro a dizer que como patrocinadores eles são sempre muito bem-vindos, mas vocês não enxergam nenhum conflito de interesses em um patrocinador participar da política do clube?

Meus caros amigos, eu percebo que após 4 anos de dedicação física, financeira e mental com a qual eu colaborei com o clube, não ficou nenhum legado para essa administração que me sucedeu, isso é muito frustrante, mas é a vida. Agora avalie você dia 24 de novembro que tipo de Palmeiras você quer para os próximos 3 anos.

Para ser muito sincero, por mais que a Sra. Leila tenha descoberto o Palmeiras só em 2015, vamos acreditar que ela tenha realmente se apaixonado pelo clube, como ela diz, afinal nós sabemos que o Palmeiras é apaixonante! Só por esse motivo já acredito que eles não deixariam de patrocinar o Palmeiras.

Também como grande empresária e vendo como a Crefisa e a ​FAM ganharam visibilidade patrocinando o Palmeiras, não há motivo para eles deixarem o clube. Agora, se tudo isso não for verdade e eles saírem do Palmeiras, garanto que outros patrocinadores virão, pois, o Palmeiras é gigante e o mercado sabe disso.

Você quer um Palmeiras que saiba pescar e conquiste seus objetivos, ou um Palmeiras que recebe o peixe dependendo do humor e da vontade de alguém?

Senhores, o Palmeiras não é brinquedo de ninguém, é mais que um clube de futebol, o Palmeiras é uma família, é quase uma religião!

O Palmeiras para ser respeitado pelo mundo, precisa antes se dar ao respeito!

Só peço a todos vocês que pensem muito bem antes de votar, e que Deus nos ilumine e nos proteja!

Um abraço verde,

Paulo Nobre".

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.