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Noite dos milagres

São Paulo tem dura missão para seguir na Libertadores

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

13 de julho de 2016 | 03h00

Não há como negar realidade óbvia e dolorosa: a situação do São Paulo na Libertadores é escalafobética, complicada, delicada pra chuchu. Depois dos 2 a 0 que levou em casa, uma semana atrás, meteu-se num enrosco para enfrentar o Atlético Nacional, hoje, em Medellín. Tirar a desvantagem é difícil, levar a decisão da vaga para os pênaltis parece empreitada de titã. Dar uma surra nos colombianos, então, soa como conto de fadas.

Mas não é impossível.

Amigo tricolor, se você se considera, de fato, torcedor – e, portanto, sujeito de fé –, precisa acreditar em reviravolta, daquelas de antologia e únicas. Não se trata de papo de doido nem visão ufanista do que seja a tarefa na Colômbia. Desnecessário lembrar ao cronista que o futebol brasileiro anda em baixa e que atualmente qualquer adversário da região assusta. Ainda mais se for ajeitado e com bom toque de bola, como o Atlético Nacional. 

Falar a respeito da aspereza da tarefa é chover no molhado; não se comenta outra coisa desde a quarta-feira passada, para o bem ou para zoar com a dor alheia. Apelar para a razão significa ficar com ambos os pés atrás a respeito da perspectiva para Edgardo Bauza e rapazes. Olhar com frieza desanima, tanto mais que Ganso, Maicon, Kelvin estão fora de combate – e o elenco são-paulino não tem grande variedade.

Ou seja, tudo conspira contra. 

Mas, por que não dar um bico no racionalismo, esse grilo falante que insiste em ser a voz da consciência? Ao menos de vez em quando, melhor liberar a fantasia, embarcar na viagem que desemboca em conquistas heroicas. Se não for assim de que adianta torcer? Não vale a pena nem abrir a televisão.

O futebol permite divagações, pois é dos poucos esportes em que a lógica leva rasteiras, e com frequência. Exemplos esparramam-se aos milhares, em toda parte, em qualquer campeonato. As zebras correm soltas pelos gramados como nas savanas africanas.

Comprovação fresquinha da negação de prognósticos sensatos? Portugal campeão da Europa. Por acaso, especialistas na matéria apontavam os lusitanos como candidatos ao título? Evidente que não. À frente deles alinhavam-se Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha, França e outros mais. Um empate aqui, um empate ali, uma prorrogação acolá, um golzinho perdido adiante, e Cristiano Ronaldo com súditos fizeram a festa na casa francesa.

O joguinho de bola é fantástico.

Há diferenças entre a final em Saint-Denis e o pega de hoje. A principal e singela: lá nos arredores de Paris os dois times entraram em campo com 0 a 0, enquanto no “Atanásio Girardot” o São Paulo carrega o peso de 2 a 0 nas costas desde o primeiro minuto. Se tomar um gol, aumenta o desespero. 

Mas existe saída – com muito futebol, concentração, pontaria, nervos no lugar. Paciência e inteligência. Requisitos demais? Sim, mas nada sobre-humano. Bauza sabe que um gol por tempo leva aos pênaltis. E, no mínimo para isso, tem de estar preparado. Resta confiar em Lugano, em Michel Bastos, em Ytalo, em Calleri. Heróis improváveis, mas é o que há.

Muitas vezes, em apertos, vem à mente velha canção de Lucio Dalla, compositor italiano de fina sensibilidade (autor de “Caruso”) e morto anos atrás. A música começa assim... “É a noite dos milagres, fique atento...” Pois, são-paulino, por que não imaginar que esta quarta-feira possa ter uma noite de milagres? De ilusão também se vive, oras bolas.

ASTRO MADURO

Cristiano Ronaldo joga muito, e o tamanho do futebol dele é equivalente ao próprio ego. O moço é vaidoso que só – e daí? Não tem nada de mais cuidar do visual, se jamais descura da eficiência. Pois ele foi a alma portuguesa na conquista do Euro e esbanjou consciência social no retorno à pátria. Na festa em praça pública, em Lisboa, dedicou a proeza inédita aos imigrantes, aos refugiados, aos seres humanos que perambulam pelo mundo em busca de paz, de pão, de dignidade. Nessa, Cristiano bateu um bolão. 

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