Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Noites mal dormidas

O esporte, entre todas as manifestações humanas, talvez seja uma das que mais produzem histórias, personagens, emoção

Milton Leite*, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2018 | 04h00

Não foi fácil a noite de Bouhaddouz. Um gol contra no último minuto dos acréscimos da estreia na Copa provocou a derrota de Marrocos contra o Irã. O gol não muda nada no Mundial, são daqueles participantes que caem na primeira fase. Mas o zagueiro marroquino virou o primeiro personagem dramático destes primeiros jogos da competição na Rússia.

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Porque o esporte, entre todas as manifestações humanas, talvez seja uma das que mais produzem histórias, personagens, emoção. Principalmente nos grandes eventos como os Jogos Olímpicos ou um Mundial, com alcance maior de mídia e colocando diante da televisão bilhões de pessoas. Todas as lentes, todos os olhos, imediatamente focam o personagem, o homem que marcou o gol contra no último minuto de jogo em que seu time teve infinidade de chances de marcar e vencer.

Poucas horas depois, juntou-se a Bouhaddouz o goleiro espanhol De Gea, ao tomar frango histórico no duelo com Portugal, quando sua seleção jogava melhor e estava perto de virar placar que começou desfavorável – dificilmente a Espanha deixaria de vencer não fosse aquele gol. O que terá feito De Gea para preencher as horas em que o sono o abandonou em troca das imagens incessantes da bola escapando. O peruano Cueva, meia do São Paulo, foi mais um a perder o descanso noturno ao jogar nas nuvens um pênalti contra a Dinamarca.

Já a falta de sono de Hallddorsson teve outra razão, essa para ser lembrada pela vida toda. A excitação de uma tarde inesquecível. O dia em que esteve frente a frente com o melhor do mundo por cinco vezes, Lionel Messi, e venceu. Jogo empatado, enrolado e os favoritos argentinos conseguem um pênalti, que talvez significasse o gol da vitória na estreia das duas seleções. Não fosse a intervenção de Hallddorsson, o goleiro da Islândia, time sem tradição que já fez barulho na última Eurocopa. Como dormir depois de parar Messi?

 

E mesmo sendo Messi, terá sido possível fechar os olhos, não pensar no som da bola tocando na mão daquele gigante loiro e dormir? Tantos títulos, tantos prêmios, tantas vitórias e a consagração como um dos melhores da história serão suficientes para encarar esta falha como algo que até os gênios cometem, e relevar? Provavelmente, não. Tão cobrado pelo jejum de títulos da Argentina, Messi sabe que os dois pontos que ficaram para trás contra a Islândia podem ser decisivos.

Mais complicado ainda é ter desperdiçado o pênalti no dia seguinte à performance do rival de geração e premiações Cristiano Ronaldo, com seus três gols contra a Espanha, no empate arrancado nos últimos minutos de um jogo em que o adversário foi superior. Um pênalti sofrido e convertido, gol marcado com a ajuda do goleiro espanhol e uma cobrança magistral de falta nos minutos finais colocaram o português no topo até aqui.

Na madrugada de Sochi, CR7 deve ter ficado horas com os olhos abertos a percorrer capas de jornais do mundo, saboreando as manchetes sobre sua exibição. Vaidoso como poucos, o excepcional português terá resistido à tentação de levantar, olhar no espelho e dizer: “Tu és o cara, ó pá!”?

*NARRADOR DO SPORTV

 

 

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