'Nós somos meio bipolares', afirma técnico Levir Culpi

De volta depois de seis anos no Japão, treinador do Atlético-MG também se esforça para educar jogadores

Entrevista com

Levir Culpi

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2014 | 07h00

Levir Culpi passou 6 anos no Japão. Era admirado, respeitado. Decidiu voltar ao Brasil no final do ano passado e em abril deste ano retornou ao Atlético Mineiro, clube de onde saiu em 2007 rumo ao Oriente. Pressentia que iria viver fortes emoções nessa quarta passagem pelo Galo. Acertou em cheio.

Precisou “enquadrar’’ alguns jogadores, foi decisivo para que o já desmotivado Ronaldinho Gaúcho seguisse seu caminho, mandou indisciplinados embora, deu chance a garotos como Jemerson e Carlos. Formou um time competitivo, já tem um título (da Recopa Sul-Americana) e está bem perto de comandar uma das conquistas mais importantes da história do clube, a Copa do Brasil, que se vier no próximo dia 26 será em cima do arquirrival Cruzeiro. Gloria suprema.

Tudo com muita emoção, como nas vitórias por 4 a 1 sobre Corinthians e Flamengo pelo torneio. Tudo sem perder o humor, as tiradas inteligentes e a franqueza. Sinceridade que lhe permite dizer com todas as letras que o brasileiro é um povo de boa índole, mas carente de educação. E lamentar esse atraso que, diz, se reflete no comportamento dos jogadores.

Aos 61 anos, Levir revela ao Estado não pensa em parar. Se o fizer, vai sentir falta até de ser xingado pela torcida. Xingamentos que inspiraram o título do livro que escreveu. “Um burro com sorte’’, lançado este ano, tem toda a renda revertida para o Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba, referência em pediatria. É a forma que Levir encontrou para contribuir com a sociedade.

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Por que você decidiu voltar ao Brasil?

Eu já tinha seis anos seguidos de Japão. É aquela coisa: o ser humano nunca está satisfeito...Você quer sair, quando sai quer voltar. O ser humano nunca está feliz. Eu não posso me queixar, consigo me adaptar nos lugares que vou. Eu me dou bem, mas sempre com aquela vontade de voltar.

Lá o esquema de trabalho é, digamos, bem mais civilizado...

Se você for comparar, não tem nada a ver. Até as comemorações são mais comedidas lá no Japão. Eu cheguei a ter picos de emoção umas três vezes em seis anos. Mas assim de atingir um ponto quase de desequilíbrio mental, uma coisa inexplicável, acho que só mesmo no futebol brasileiro. A paixão não existe como aqui, a gente se entrega muito mais à alegria e adere muito à tristeza. Nós somos meio bipolares.

Como foi a readaptação ao futebol brasileiro?

Tudo aqui é mais intenso. A única que é bem lenta aqui, bem calma, é a educação. Eu costumo dizer que a única coisa que evoluiu no Brasil foi o atraso. Veja bem: se você partir do princípio que não pode mais ter duas torcidas no estádio, se chega num ponto desses... Se você medir o índice cultural do povo brasileiro, o número de analfabetos, de ignorantes, é decepcionante. Agora, a índole do povo é aquela alegria. A gente sente que o povo brasileiro é um povo bom, nós só somos mal educados.

Esse atraso na educação ainda te choca ou te frustra?

Não me choca, me incomoda. Eu sei o que é, então já não me choca mais. Mas, por exemplo, um cara que for para o Japão, mesmo com nível cultural bom, vai ficar um pouco chocado com a diferença. Percebe as coisas na hora. Mas eu fico mais é incomodado com a situação (no Brasil), porque pela própria ignorância que temos não sabemos como cobrar, de quem cobrar. O povo não sabe nem votar... O governo vai ter de investir muito na educação para que o povo, daqui a uma ou duas gerações, saiba o que é melhor.

Parece pouco esperançoso...

Sinceramente, eu fico um pouco decepcionado com essa distância que existe entre alguns países que se organizaram e o nosso Brasil. Mas assim mesmo nós somos felizes. Eu não consigo entender como o pessoal do Nordeste, só para citar porque nós vemos isso no Brasil inteiro, o cara naquele Agreste consegue ser feliz. O brasileiro precisa de mais respeito, sabe? Precisa de mais educação para a gente ter um mundo parecido com o deles (os japoneses).

Sua responsabilidade como treinador, num país em que o torcedor tem no futebol, e no seu clube, uma das principais “fontes de alegria’’, aumenta?

Aumenta muito. Eu conheço as duas partes, porque estou no futebol desde os 14 anos, no infanto-juvenil do Coritiba. Conheço o mundo, como nós somos formados. Tive a grande felicidade de ter pais que eram semianalfabetos, numa colônia italiana, mas sabiam que o estudo podia nos dar dias melhores. Então formaram os quatro filhos e isso eu jamais vou esquecer. Fica marcado para mim essa diferença de cultura. Eu, com 17, 18 anos, passei no vestibular de Educação Física. Hoje, nós temos em cada time um ou dois jogadores com mais que o segundo grau. Então é realmente um fator educacional.

E seu trabalho com os jogadores?

Esses dias tivemos um problema disciplinar, foi a minha maior derrota no Atlético desde que cheguei (as dispensas de Jô, André e do lateral-esquerdo Emerson Conceição, por terem levado mulheres para o hotel em que o time estava concentrado em Curitiba). Porque eu não sou um disciplinador, não gosto de ser chamado assim. Sou técnico de futebol, queria estar ali para discutir futebol com o jogadores e fazer jogar, só isso. Mas a gente (os treinadores) tem um papel educacional. Eu tenho feito muitas reuniões com eles (jogadores) e procuro passar as dificuldades de nossa profissão. É a melhor coisa que eu posso fazer por eles.

Como é esse trabalho educacional?

Eu estou procurando colocar (para os jogadores) todos os exemplos. Converso com eles sobre o que aconteceu (com muitos atletas que não se cuidaram), a história do Garrincha, do Adriano... A gente vai tomando algumas decisões educacionais, como conselheiro, mas é muito difícil você mexer na formação de uma pessoa. Quando eu não consigo atingir esse objetivo, isso me deixa muito magoado.

Até ocorrer a dispensa dos três, eles devem ter aprontado outras vezes e você deve ter tentando alertá-los. Aí não deu mais...

É isso mesmo. É igual pai e filho. Você dá umas palmadas de vez em quando no menino, mas ama o menino, quer educar, quer que ele seja bom. Então vai passando os conselhos, vai falando, mas tem um limite, porque a fila anda. Tem gente querendo espaço ali, que está se matando no campo para conseguir uma vaguinha. A gente não pode deixar de premiar esse tipo de atleta. Infelizmente, a gente convive muito com isso (falta de comprometimento) no nosso meio.

Mas há a contrapartida. Foi uma grande vitória conseguir conscientizar o Diego Tardelli (no início do trabalho, Levir ameaçou barrar Tardelli, que estaria ‘jogando com o nome’)?

Olha, tem algumas coisas que eu não consigo definir se é qualidade ou defeito. Uma delas é a sinceridade. Não sei se é qualidade ou defeito, porque magoa às vezes. Mas prefiro que as pessoas falem o que estão sentindo, porque é muito mais fácil para você se posicionar. Quando você não sabe o que a pessoa está sentindo, te dá uma insegurança. Agora, se o cara é autêntico, você acaba confiando mais nele.

Mas como foi com Tardelli?

Com o Tardelli teve uma conversa franca. Ele tem um potencial que é o DNA do pai, o Tadeu jogou comigo no Coritiba, e era um dos líderes do time, um volante, muito bom jogador. Até brinquei, agora só falta treinar o filho do Tardelli. Três da família eu não vou aguentar.

O que realmente aconteceu com o Ronaldinho Gaúcho?

Chega um momento que não dá mais. Um dia, falei com o Ronaldinho que não gostaria de ter a vida que ele tem. Ele não consegue ir num supermercado, num restaurante... Ele tem fã-clube na China, lá ele tinha de sair pelos lados no aeroporto. Ele é um cara introvertido, de ótimo coração, muito legal, todo mundo gosta dele, mas ele foi obrigado a ficar reservado. Mora em condomínio fechado, numa casa onde pode receber amigos, ter uma vida meio privada. Isso dificultou um pouquinho a concentração dele no futebol.

Ele perdeu a motivação?

Ele atingiu o nível mais alto no futebol. Foi campeão do mundo, melhor jogador do mundo... Então, para você manter a concentração tem de ser o Cristiano Ronaldo. O Ronaldinho não tem a personalidade do Cristiano Ronaldo, ele é brasileiro, já é um pouco diferente. Ele tem 34 anos, tem de pagar um preço muito caro para estar em alta performance, como sempre esteve.

Ronaldinho teve uma excelente fase no Atlético...

Teve um fator psicológico que ajudou muito ele, o problema com a mãe (dona Miguelina teve um câncer, mas se curou) e a torcida abraçou a causa. Ele ficou muito emocionado. Ele precisa de um fator emocional para estar sempre em alta. Mas foi um prazer (trabalhar com Ronaldinho), porque ele ainda deu uma desequilibrada comigo nos jogos. A qualidade técnica dele é muito acima, um negócio absurdo. Ainda conquistamos uma Recopa. Foi legal. Ali terminou o período dele no Atlético, eu achei que ficou bom para todo mundo. Ele vai ter sempre uma lembrança legal do Atlético e o Atlético vai ter sempre uma lembrança boa do Ronaldo.

É difícil suceder alguém vencedor. No teu caso, hoje poucos lembram do Atlético do Cuca e seu time é diferente do dele. Como foi essa transformação?

É difícil responder a essa pergunta. Eu entrei no lugar do (Paulo) Autuori (iniciou a temporada no Atlético e ficou apenas 4 meses) Mas o Cuca escreveu o nome na história do Atlético. Mas a vida rola, é igual você perder uma grande amor, separar a esposa, aquela história não acaba. O nome dele vai ficar gravado pelo grande trabalho. Aí o Autuori entrou. Só que foi uma conquista que o Atlético teve (da Libertadores em 2013) que deixou automaticamente todos flutuando. Da maneira como foi, só mesmo com o Atlético que acontece essas coisas. Então, na minha opinião, demorou um pouquinho para pisar no chão de novo. O Autuori tem uma filosofia completamente diferente da do Cuca, é difícil você acoplar imediatamente. Aí veio o campeonato regional, saiu de uma Libertadores vai disputar o regional, o nível de competitividade é muito diferente. O torcedor ainda está embriagado por aquela conquista, então não vai no jogo no interior de Minas. É bem diferente. O Autuori sofreu esse impacto e eu vim logo em seguida, já meio que numa reformulação, o pessoal já um pouco acordado. E começou a dar certo. E por uma coincidência muito grande começou a dar certo com os meninos da base, que parece ser uma coisa que me persegue.

Passados alguns dias, você já consegue ter uma explicação para aqueles 4 a 1 sobre Corinthians e Flamengo?

Esses dias eu brinquei falando que o (Albert) Einstein estava tentando explicar o universo e não conseguiu. Não me comparando com o cara, eu estou há mais de 40 anos no futebol e não consigo explicar algumas coisas. Dá maneira como nós perdemos para o Corinthians e o Flamengo (ambos por 2 a 0, nas partidas de ida) já foi meio sem explicação. Não era para ser aqueles resultados. E não era para ser também daquela maneira que foi em Minas, duas vezes quatro. Uma virada assim... é jogo histórico, né?

Mas há alguns fatores que podem influir?

Não há uma explicação muito lógica. Todo mundo que fala tem um pouco de razão. Falam que o time do Atlético lá no Independência, no Mineirão, é muito melhor. Realmente é, porque está tudo junto, a ajuda da torcida, o time é muito rápido, não sei o quê, então tem essas coisas. Tudo tem um pouco de lógica, mas exatamente o que aconteceu não se explica. Porque o gol, a bola bate num, bate na cabeça do outro, dá na canela de um, sobra para cá, o cara enfia um bico e a bola entra. Então, não tem explicação lógica completa. A única coisa é que a gente realmente sente uma emoção muito forte, sente quando o ambiente está bom, a atmosfera está legal, tem um pressentimento bom.

E os 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil na Copa? Tem explicação?

Foi alguma coisa parecida com esses 4 a 1. Não há explicação lógica. Houve realmente descontrole de momento, uma sequência de gols incrível, muito rápida. Quando que aconteceu aquilo numa Copa do Mundo? Nunca. Então foi realmente uma coisa muito inesperada. Pegou todo mundo de surpresa, então deve ser tratado dessa maneira, não como fracasso, como um retrato do futebol brasileiro. Não é bem isso.

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Mas teve o lado bom de praticamente se esquecerem do que ocorreu em 1950?

Pois é. Eu acho que 1950 foi pior, que a pancada foi maior. E depois disso o Brasil foi 5 vezes campeão mundial. Então, dessas tragédias muitas vezes... O Japão renasceu de uma tragédia. Eles perderam uma guerra, o povo ficou arrasado e (o país) chegou a ser a segunda melhor economia do mundo. Então às vezes uma tragédia acorda a gente. Tomara que isso possa acontecer.

O que precisa ser feito no futebol brasileiro em termos de organização, de qualidade... E está sendo feito? Já se passaram 4 meses dos 7 a 1...

O engraçado é essa referência. Aprendeu! Vamos mudar o futebol brasileiro! Mas é uma coisa muito difícil. Porque não é só o futebol. Falam que o futebol tem de ser tratado igual na Alemanha, que lá os caras são organizados... Na Alemanha tudo é organizado. O transporte funciona, o povo é bem educado, os campos são limpos, os times pagam em dia... Ali o futebol funciona. Agora, a gente quer consertar o futebol como se o futebol fosse um problema nacional. É. Mas você tem de melhorar tudo. A qualidade da imprensa, que é muito amadora. Igual ao jogador, igual aos técnicos, somos muito amadores ainda. Precisamos melhorar tudo e eu só encontro uma solução para isso, uma palavra só que é educação. Então não adianta querer consertar uma coisa só no Brasil pra funcionar. A gente tem o dom do jogo, tem organização, observação, pode melhorar muito, mas nunca vai ser muito organizado. Até vai ser, mas a nossa geração não vai acompanhar isso.

Essa decisão da Copa do Brasil é especial. Decidir com o Cruzeiro aumenta a responsabilidade?

Sei que é o jogo mais importante para todo mundo. Para mim também. Vai ser o primeiro titulo do Atlético. Então, o valor do título para mim é muito importante.

Você gosta de trabalhar com a base. No Japão, revelou vários jogadores...

Isso é uma coincidência que começou aqui, nos times em que eu ia passando. Lá no Japão tem uma coisa: eles respeitam muito os mais velhos. Mas eu não vejo bem assim (no futebol) e falei para os jogadores. No futebol é a capacidade, são os números. Se tem menino de 18 que está fazendo gol e o cara de 30 não está fazendo, vai jogar o de 18. Eu procurei passar essa confiança para eles e deu certo. Foi uma coincidência também que vários meninos foram para a Europa, para a seleção japonesa. É muito legal.

E aqui no Brasil?

É a mesma coisa. Eu chego num clube e se perceber que o menino tem potencial vai. Por exemplo, a zaga do Atlético é excelente. Tem o Leonardo (Silva), Rever, Emerson, Edcarlos. São quatro zagueiros de ótimo nível e quem está jogando atualmente é o Jemerson. Então e uma questão de competência.

A garotada dá mais trabalho? Tem de conversar, ensinar, conscientizar? O Jemerson às vezes faz firulas perigosas.

O estilo dele é esse mesmo. Mas temos conversado sobre isso. Mas é a maneira de o jogador jogar. Ele não vai ser muito diferente disso. Ele não vai mudar muito, mas dá para melhorar. Ele é muito jovem. É igual o Carlos, o atacante. A gente tem algumas técnicas de finalização, de defesa. Vídeos que a gente analisa, mostra para os jogadores, isso pode desenvolvê-los um pouquinho melhor.

Revelar jogadores é a saída para o futebol brasileiro no estágio atual?

Acho que os jogadores continuam brotando. O que precisa é uma sequência, um encaixe, deixar o cara amadurecer para produzir. Quando você vê um menino promissor, se fizer dois, três anos de alto nível está fora (do clube). Está na Europa ou na mão de empresários, isso tira um pouco o foco da sequência. Uma sequência legal é o cara subir, conquistar dois, três títulos, aí se afirma. Mas há uma rotação muito rápida, muito alta dos jogadores. Isso se deve ao advento do empresário. Há uma necessidade de fazer transação, pois na transação muita gente ganha dinheiro. Então isso prejudica um pouco o andamento do jogador, a sequência nos times onde os jogadores nos times onde foram formados.

Você está com 61 anos, há quase 50 no futebol. Pretende ir até quando? E exercer outra função?

Essa é mais uma resposta que eu não consigo dar. Fico pensando pelos dois lados. Aquela coisa: volta para casa, para ficar com a família. Agora vou curtir. Vou viajar, vou às compras, um mês numa boa. Aí, penso: agora vou pescar, mais um mês pescando. Aí vou ao supermercado (rindo). Vou fazer o quê. Não tem um jogo, não tem ninguém te xingando, não tem adrenalina... Então não tenho opinião formada sobre isso. Preciso me preparar para parar. Eu não tive esse problema como jogador, que é um dos maiores dos atletas, porque quando eu voltei de férias, voltei como técnico (do Juventude). Agora é outra parada. Vou para casa, vou fazer o quê?

Ser um diretor técnico é algo que já passou por sua cabeça?

Eu falo brincando que vou ser comentarista de futebol. Porque a melhor profissão do mundo é a de técnico e a segunda melhor é a de comentarista. No livro que escrevi, eu brinquei que o comentarista joga com 22, faz 6 substituições e nunca perde um jogo. É uma ótima e fica falando de futebol, que é a coisa mais gostosa do mundo. Então numa dessas, ser comentarista, alguma coisa assim, pra não sair do meio. Não sei o que pode acontecer.

Do ponto de vista financeiro você já está estabilizado. Não sente falta do convívio mais próximo com a família?

Na verdade eu sou um dependente da minha mulher e das minhas filhas. Se elas quiserem me dar um pé na bunda amanhã, eu vou sair sem nada, porque eu não sei onde está o dinheiro, não sei quanto é, não sei nada. Tenho duas filhas, Janaina e Maira, e a Marília, minha mulher. São elas que administram os negócios, nós temos restaurantes em Curitiba, administram tudo. E eu, como meu pai (seu Nino) mesmo falou, nunca trabalhei na minha vida. Só joguei futebol. Um dia ele me falou isso. Disse que queria saber se um dia eu resolvesse trabalhar, o que iria fazer na vida (risos). Eu não ligo pra nada, não tenho plano. As coisas vão acontecendo.

Se contrato com o Atlético vai até dezembro e o (Alexandre) Kalil está saindo da presidência. Isso interfere de alguma maneira?

Sim, porque o Kalil foi me buscar em Curitiba, ele confiou em mim, e nós acertamos o contrato em dois minutos. Ele é um cara muito franco e eu respeito as pessoas que são parecidas comigo. Ele gosta de falar o que sente, isso ajuda bastante.

Falta sinceridade no futebol?

Claro! A maioria das pessoas que falam sobre futebol esconde o que pensa. Elas se escondem. É aquela coisa de não (se)queimar, não falar... A maioria das pessoas não fala o que gostaria de falar. Isso é ruim por um lado, porque você às vezes deixa de ter os jogadores, por exemplo, a seu lado. Mas por outro lado às vezes você perde o emprego. Você fala a verdade, os caras ficam magoados e te mandam embora.

Você acha um absurdo um técnico ganhar R$ 600 mil, R$ 700 mil por mês?

Acho. Mas tem uma outra coisa: se você considerar o mundo capitalista, não é, porque, por exemplo, o Roberto Carlos ganha R$ 1 milhão (por show) e o Zeca e o Zequinha ganham para comer. É muito parecido no futebol. O atleta mais bem pago do mundo é o Cristiano Ronaldo. Se quiser ganhar igual a ele, joga igual a ele. Então não é que seja uma injustiça (os salários). O que eu acho é que é falta de planejamento. Você não pode ganhar, digamos, R$ 1 milhão para o Ronaldo se você não tem esse milhão. Você tem de fazer um time com o Zezinho e procurar fazer o melhor. Acontece que os times pagam salários altíssimos para os técnicos e alguns jogadores e não conseguem honrar os compromissos. Essa é que é a minha queixa. Não existe uma estrutura capaz de pagar isso. Então paga menos. É como no Brasil todo, há uma disparidade muito grande entre uns e outros. Acho que dava para achatar um pouco mais.

Tem algum projeto social?

Eu lancei um livro (Um burro com sorte), vou fazer o lançamento aqui em São Paulo, o livro vai ter toda a renda para o Hospital Pequeno Príncipe em Curitiba. Já fiz o lançamento em Curitiba. É um hospital referência nacional de atendimento pediátrico. Você entra no hospital, tudo funciona. Só que eles dependem de doações. 

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