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Adversário retira candidatura e Blatter fará o seu quinto mandato como presidente da Fifa Arnd Wiegmann/Reuters

Governo quer usar escândalo na Fifa para esvaziar poder na CBF

Polêmica envolvendo Marin vai facilitar aprovação da MP

Daniel Carvalho e Rafael Moraes Moura, O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2015 | 17h00

O Palácio do Planalto pretende tirar proveito da crise da Fifa para minar o poder da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O envolvimento do ex-presidente da entidade, José Maria Marin, e de um empresário, J. Hawilla, com profunda ligação com a administração da entidade desde a época em que era comandada por Ricardo Teixeira, foram percebidos imediatamente como grande oportunidade de enfraquecer a CBF, ainda mais numa época de verdadeira queda de braço por causa da medida provisória do refinanciamento da dívida fiscal dos clubes.

É por aí, aliás, que o Planalto pretende atacar. O texto da MP 671 está em apreciação no Congresso e a CBF estava jogando pesado, com apoio de parlamentares da chamada bancada da bola, para alterar artigos que não são de seu interesse, mas que o governo considera fundamentais para instituir boas práticas de gestão no futebol brasileiro. A entidade é radicalmente contra, por exemplo, à criação da Liga de clubes, possibilidade estabelecida pela MP, e tentava de todas as maneiras eliminar esse “risco’’ do texto.

Agora, com a CBF nas cordas, e com seus apoiadores no Parlamento constrangidos pelas denúncias que levaram Marin inclusive à prisão na Suíça, a mobilização do governo é para que não só a criação da Liga seja aprovada como uma das contrapartidas para o refinanciamento da dívida dos clubes ser efetivada, como outros itens contestados pela CBF - com apoio em geral dos próprios clubes, diga-se - seja aprovado.

A entidade presidida por Marco Polo Del Nero se opõe à Liga, entre outros motivos, porque dessa maneira deixaria de administrar e promover o Campeonato Brasileiro, a mais rentável competição do futebol nacional. Mas manteria a atribuição de cuidar da seleção nacional, como fazem a maiorias da confederações mundo afora. São os contratos ligados à seleção que proporcionam à CBF o grosso de seu faturamento.

Além da Liga, outro item do texto da Medida Provisória 671 que a presidente Dilma Rousseff encaminhou em março ao Congresso e tira o sono dos cartolas da CBF é o que estabelece limites para a manutenção de um dirigente no poder. O texto propõe mandato de quatro anos, com direito a uma reeleição - o que valeria também para os clubes. A entidade é contra. Defende a tese de que, por ser um sociedade particular, são seus membros que devem deliberar sobre os mandatos de seus dirigentes.

Direito a voto dos atletas em órgãos colegiados dos clubes e a criação da Autoridade Pública de Governança do Futebol, que fiscalizará a implantação das medidas, também desagradam à CBF.

No entanto, agora o governo, que para elaborar a MP ouviu vários seguimentos, entre eles o dos atletas, acredita ser possível aprovar o texto sem grandes alterações. Na próxima semana, a discussão prosseguirá no Congresso e a CBF, além de estar em posição desfavorável, terá de dividir o foco com uma outra preocupação: a CPI que a investigará. Além de precisar ter a atenção voltada para possíveis novas denúncias em âmbito internacional. E o governo pretende aproveitar a ocasião.

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