Rodrigo Cavalheiro/Estadão
Rodrigo Cavalheiro/Estadão

A redenção de um clube, sob a mirada do homem-galinha

Estudante de 17 anos vira ícone da torcida do River Plate

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente em Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2015 | 14h25

Às 22h44min de quarta-feira, 5, o argentino Nicolás Verryt perdeu várias penas em razão de um peixinho. A 200 metros de onde ouvia seu rádinho cinza, um atacante estranho, Lucas Alario, acertou um estranha e bonita cabeçada no canto direito baixo de Guzmán. O River Plate, que Nicolás tinha visto cair para a segunda divisão 1.482 dias antes, começava a ganhar a América diante do Tigres. E só por essa queda é que Nicolás perdia penas enquanto saltava e abraçava desconhecidos sob o temporal, a duas quadras do Monumental de Nuñez. O rebaixamento fez dele mais do que um torcedor. Transformou-o no homem-galinha.

"Se o River não tivesse caído, provavelmente eu estaria vendo o jogo em casa, confortável. O sofrimento tem tudo a ver", disse, enxugando a cara redonda, molhada de pingos de chuva e provavelmente alguma lágrima. O adolescente de 17 anos de Claypole, cidade da região metropolitana, a 52 quilômetros do Monumental de Nuñez, não fazia questão de ver o que o ocorria em campo, nem pela TV em um bar, assim como centenas que foram ao entorno do estádio "sentir o jogo". Isso inclui ouvir o grito de gol vindo da torcida segundos depois de escutá-lo no rádio, e só então acreditar que a bola entrou. 

De vez em quando, Nicolas sorria timidamente ao receber um elogio. "Te felicito, papá", disse um torcedor que passava. "Buen trabajo", acrescentou outro. Esse era o cenário fora do Monumental na noite em que o time voltou a ser campeão da Libertadores após 19 anos. Nos grupos reunidos em volta de algum radinho, uns bebiam cerveja, outros fumavam maconha. A maioria fazia as duas coisas. Mas havia os que não davam um pio. Os compenetrados só no locutor, que ficavam felizes em passar adiante algum lance importante sinteticamente, como um "quase gol deles" ou um "quase gol nosso". "Prefiro assim, só ouvir no rádio, sem ver nada", explicou Nicolás, cuja seriedade contrastava com a fantasia. Aquele galinha sisudo era como se alguém vestido de panda estivesse entre os que jogavam garrafas contra a polícia.

Assim começou o jogo fora do estádio, com violência. Apenas garoava e Nicolás tirava fotos com algum turista, como os brasileiros Diogo e Fioravante, estudantes de estatística que apareceram sem ingresso "só pra ver qual era". "Achei estranho eles ficarem fora do estádio sem procurar uma TV. Mas foi mais louco ainda atacarem a polícia do nada com garrafas", disse Diogo, de 33 anos, que mora em Brasília e passa duas semanas a cada seis meses estudando em Buenos Aires.

Foram as garrafadas, a resposta com gás de pimenta e o consequente avanço da tropa de choque que levaram Nicolás até o lugar onde ele ouviu o resto da partida, em uma banca de jornais já fechada, que protegia ele e sua tia parcialmente do aguaceiro. "A galinha era algo depreciativo, mas com o tempo a torcida assumiu o símbolo e agora gosta", disse Bibiana, que ajudou a achar na internet o modelo galináceo mais apropriado para que o sobrinho cumprisse a promessa feita em 15 de abril. 

Naquele dia, o River vinha de uma campanha medíocre na Libertadores, 4 pontos em cinco jogos, e precisava não só vencer o San José, de Oruro, da Bolívia, coisa que fez por 3 a 0. Necessitava que o Tigres ?- o mesmo do goleiro Guzmán, que levou o gol estranho do estranho Alario -, já classificado, vencesse os peruanos do Juan Aurich. Coisa que ocorreu por 5 a 4. "Prometi então que no próximo jogo viria vestido de galinha", explicou Nicolás no intervalo, quando as plumas plásticas do ombro direito já estavam espalhadas em um raio de 5 metros. 

Nicolás não conseguiu ingresso para as oitavas de final contra o Boca. Não conseguiu para as quartas contra o Cruzeiro, nem contra o paraguaio Guaraní nas semi. Não podia pagar 1 mil pesos (R$ 379) aos cambistas. Na decisão, decidiu cumprir o prometido, mesmo sem entrada. Não queria ter a culpa em caso de derrota. E não queria ouvir mais uma vez os amigos do Boca falando de RiBer. "Foi um inferno aquele ano, eu não tinha o que responder", disse Nicolás, que pretende ser jornalista esportivo "para ficar perto do River". Depois desse comentário, o secundarista lembrou de dar opiniões em vez de só descrever lances: "Barovero é o melhor goleiro argentino, longe. Mas convocam o Órion porque é do Boca". "(Marcelo) Gallardo tirou o Alario. Bom para prender a bola."

Quando o mexicano Aquino derrubou, aos 27 minutos do segundo tempo, o volante uruguaio Carlos Sánchez, parte dos torcedores que seguiam ouvindo a partida em rádios gritaram gol. "Só foi pênalti, foi pênalti", esclareceu Nicolás. O adolescente grudou então o aparelho na orelha direita. Na mão esquerda, onde estava máscara, espremeu o bico de plástico, talvez seu único sinal de nervosismo na noite. E lá se foram mais algumas penas com o "gol do título".

Quando Funes Mori marcou o terceiro, aos 33 minutos, em cabeçada após escanteio, o comportamento do homem-galinha mudou. Olhou para a tia, marchou para chuvarada e afirmou: "Vamos tentar entrar no estádio". A determinação durou 50 metros, quando chegou até centenas que como ele tinham ficado de fora, mas estavam mais perto do Monumental.

Quando a multidão viu Nicolás chegando, depenado mas ainda reconhecível como ave, enxergou nele um Funes Mori, um Suárez, um Alario (que atacante deixa o estádio sem dar entrevista após fazer o primeiro gol da final?). Nicolás, então, foi ídolo. Agarrado, jogado no meio da bagunça, dali só saiu para as fotos que lhe pediam. Quem não tinha celular, solicitava a Bibiana que tirasse uma com o sobrinho-galinha e então passava o número de telefone para recebê-la mais tarde. "É estranho. Fiz isso como uma promessa, que geralmente tem que ser um sacrifício. Mas é muito melhor do que se tivesse vindo com roupa", disse, enquanto ao seu redor cantavam alegremente o hit river-platense "Ai, ai, ai, La Bombonera la voy a quemar".

Quando falou para os pais que se vestiria como o mascote do clube para cumprir uma promessa, Nicolás ganhou apoio. A família toda é River. A mãe, costureira, colou cada uma das penas feitas a partir de 400 sacolas plásticas compradas por 60 pesos (R$ 22). Com base no modelo achado por Bibiana, cada pluma foi cortada na forma de D, do tamanho da palma de uma mão, e então grudada na camiseta de manga comprida, no capuz e na calça de moletom. Foram cinco horas para recortar a plumagem e uma hora para fixá-la. A faixa vermelha diagonal no peito foi feita com o mesmo molde, mas em uma espécie de flanela. A máscara, essa sim foi comprada pronta. 

No trem a caminho do estádio, quando "não sabia se ia dar pra ganhar", Nicolás usou só a calça com plumas, "para não chamar atenção". Da cintura para cima, levava a camiseta do River na série B em 2012, mais exatamente a 10, de Alejandro Domínguez. "Só uso ela." E foi sobre ela que ele colocou o restante da fantasia, já perto do Monumental de Nuñez, a casa do River Plate, onde se vestir de galinha não é vergonha. Menos ainda depois dessa quarta-feira, 5 de agosto de 2015.

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