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O Santos tem um dos trabalhos mais eficientes na formação de jogadores do futebol brasileiro Divulgação

CLUBES VEEM NA LEI ENTRAVE À FORMAÇÃO DE NOVOS ATLETAS

Veto ao vínculo esportivo de garotos a partir de 12 anos é criticado

Almir Leite, O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2015 | 17h00

Ao sancionar o Profut, o programa de Responsabilidade Fiscal do futebol brasileiro, a presidente Dilma Rousseff vetou artigo referente ao desporto de formação, que permitiria aos clubes ter vínculo esportivo com garotos a partir dos 12 anos – a lei determina 14 anos como idade mínima, e na condição de aprendiz. O veto fez recrudescer a polêmica. Clubes e CBF consideram que o trabalho de formação de novos atletas está prejudicado. O Ministério do Esporte e o Ministério do Trabalho entendem que Dilma agiu corretamente.

Os dois lados, evidentemente, têm suas razões e as defendem ferrenhamente. Os responsáveis pela formação alegam que é difícil e arriscado manter equipes sub-11 e sub-13, pois, sem vínculo, os meninos que se destacarem podem ser seduzidos por outras equipes – inclusive do exterior – e não há nada que possam fazer para mantê-los.

O secretário-geral da CBF, Walter Feldman, disse que a redução da idade para o vínculo esportivo foi uma questão bastante discutida durante a elaboração do texto do Profut e que havia praticamente consenso sobre a necessidade de sua adoção. “Hoje, um dos graves problemas é a questão da exportação precoce do que há de melhor do nosso futebol. E o vínculo é considerado um dos maiores problemas para a gente manter os meninos aqui no Brasil.’’

O diretor do futebol de base da Ponte Preta, Francisco Alvarenga, acrescenta um outro fator complicador: os empresários. “A gente tem muita dificuldade para segurar os jogadores, até pela pressão que os empresários exercem quando o menino está se destacando. Isso acontece com frequência’’, diz.

De acordo com Alvarenga, a Ponte gasta quase R$ 300 mil por ano para manter as equipes sub-11 e sub-13 (cerca de 40 jogadores). Por causa da falta de vínculo, há no clube quem defenda acabar com o sub-13. “Há uma discussão grande sobre isso, justamente porque não há essa garantia. Você pega o menino, começa a formar, alguém vê jogando e, como não tem contrato...’’

Ele explica que a solução encontrada pela Ponte é recrutar garotos da região, dar boas condições a eles e conversar com os pais. Com isso, consegue segurar alguns meninos promissores, como o meia Maurício, destaque do time sub-13.

Relação de trabalho

No entanto, há visões diferentes, além do aspecto meramente esportivo. O fato de os garotos terem de seguir normas, como rotina de treinamentos – na Ponte, são quatro treinos por semana – e estarem sendo preparados para que no futuro possam vir a ser jogadores profissionais, é entendido por alguns setores como uma relação de trabalho, o que é ilegal.

Por esse motivo, o Ministério Público do Trabalho defendeu e apoia o veto de Dilma. “Essa medida (a redução da idade do vínculo) é inconstitucional, porque a legislação proíbe trabalho em idade inferior a 14 anos e com 14 anos apenas na condição de aprendiz. A formação profissional desportiva, como acontece nos clubes de futebol, é uma modalidade especial de trabalho’’, afirma a procuradora do trabalho Elisiane dos Santos, coordenadora nacional de combate ao trabalho infantil.

É a mesma posição do Ministério do Esporte. “A forma como o texto (do artigo vetado) foi redigido pode mascarar relações do trabalho, contrariando a Constituição’’, explicou o secretário Nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Torcedor, Rogério Haman. “Quem deu a razão para o veto não entendeu a questão’’, rebate o diretor jurídico do Atlético-MG, Lásaro Cândido da Cunha. “Há muito palpite e pouco conhecimento.’’

Para ele, uma saída seria criar uma legislação específica para proteger esses garotos com idades até 13 anos, mas permitindo a existência do vínculo esportivo. “Vamos estabelecer determinadas limitações, como horas de treinos, isso é razoável’’, diz. “Em relação às competições de alta performance e profissionais, não tem jeito. Se o país quiser competir no mundo, cada vez mais tem de ser mais precoce (a formação).’’

Não é o que pensa Haman. “Entendemos que a lei não dificulta a formação de atletas, tendo em vista que continuamos revelando excepcionais talentos’’.

Presidente da Comissão de Direito Desportivo da OAB do Distrito Federal, o advogado Maurício Corrêa da Veiga define o veto como “uma grande oportunidade perdida de avançar no problema. Você mantém a limitação da idade, o jovem só pode praticar o desporto de formação a partir dos 14 anos. Isso não acompanha o que está acontecendo.’’ Ele, porém, reconhece a necessidade de se fiscalizar com rigor as categorias de base para coibir irregularidades que prejudiquem os garotos.

Derrubada do veto

Mesmo que timidamente, CBF e clubes tentam convencer o Congresso a derrubar o veto de Dilma ao artigo. “Ainda existe uma pequena luz no fim do túnel’’, acredita o advogado Corrêa da Veiga. Lásaro não é tão otimista. “Não sei se os clubes estão partindo para a ofensiva. O debate está morno’’, diz.

O Ministério Público do Trabalho vai continuar defendendo a manutenção do veto. “Nos preocupamos com a proteção integral da criança e do adolescente. Não há nenhuma hipótese de admissão de qualquer tipo de flexibilização para uma idade inferior à mínima, que já é uma idade reduzida’’, considera Elisiane dos Santos.

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Alemanha tem modelo bem-sucedido de descoberta de talentos

Trabalho de garimpagem teve início há 15 anos

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2015 | 17h00

Referência para o futebol brasileiro após a Copa de 2014, a Alemanha está bem à frente quando se trata da formação de jogadores. O trabalho iniciado há 15 anos garimpa garotos saídos há pouco tempo das fraldas e, obrigatoriamente, une futebol e estudo.

 

Tudo começou após um fracasso, a eliminação alemã na primeira fase da Euro de 2000. E o vice-campeonato mundial de 2002, que marcou o fim de uma geração, deu o empurrão definitivo para o trabalho de formação de novos talentos. Até o governo se envolveu no projeto, que já teve investimento superior a US$ 1,2 bilhão e começou a dar os primeiros frutos dez anos depois de iniciado - a renovação da seleção teve início da Copa da África do Sul - e atingiu seu ponto alto em 2014.

No programa criado pela Federação Alemã no ano 2000, os clubes são obrigados a garantir o estudo do garoto até o ensino médio. No campo da formação esportiva, todas as equipes da Primeira e da Segunda Divisões são obrigados a ter centros de treinamentos voltados para a garotada.

Esses CTs têm de ser certificados e são vistoriados periodicamente. A fiscalização é rigorosa. São avaliados aspectos como infraestrutura, estratégia e métodos de trabalho, organização e habilitação dos profissionais que lidam com a garotada.

Além de técnicos e preparadores físicos habilitados para trabalhar na base, os clubes têm de ter pedagogos, psicólogos, nutricionistas, entre outros profissionais. “Formação de treinadores, desenvolvimento de talentos e de futebol na escola, em conjunto com a operação do jogo, fornece uma base importante para as equipes e para o futebol de alto nível’’, diz o diretor da federação Ulf Schott, responsável pela base.

Mas não são apenas os clubes que formam jogadores. Muitas vezes o trabalho é iniciado em uma das 366 academias públicas mantidas pela federação. Nelas, crianças a partir dos nove anos praticam o futebol, no princípio de forma lúdica. Com o tempo, vão sendo “apresentadas’’ aos conceitos técnicos e táticos do futebol. São quase 30 mil crianças e jovens hoje.

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Fiel à Ponte Preta, garoto de 13 anos resiste ao assédio

Meia foi cortejado por Palmeiras, Cruzeiro e Atlético-MG

Almir Leite, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2015 | 17h00

Maurício Silveira começou a jogar pela Ponte Preta com 10 anos. Ficou um ano fora. Voltou. Recebeu propostas de Palmeiras, Cruzeiro e Atlético-MG, entre outros. Balançou. Mas resolveu ficar. Maurício tem hoje 13 anos.

Meia habilidoso, o garoto ficou por vários motivos. Torce pela Ponte, como toda a família. Além disso, sente-se em casa. “Gosto bastante da estrutura e também gosto muito das pessoas de lá, que me tratam com respeito’’, diz. Hoje, ele é um dos destaques do sub-13 da Macaca.

Maurício não saiu porque não quis, pois nada, além do coração, o prende à Ponte. E também porque o pai, José, entende que o garoto não pode desprezar o clube que lhe abriu os braços. “Ele é muito novo e tem de ser fiel ao clube.’’

Empresário da área de transporte, José recebeu, assim como o filho, o assédio de empresários de outro ramo, o do futebol. “Não sei se estou certo, mas penso o seguinte: moleque bom não precisa de empresário, tem de jogar bola’’, acredita. “Na base, tem de ser direto com o clube. O clube tem de tomar conta e o jogador, na idade dele, tem de se preocupar em treinar, se divertir e em estudar.’’

Outro forte motivo para Maurício permanecer na Ponte foi que, se saísse, ficaria longe de casa - o afastamento dos garotos do convívio familiar também foi levado em conta no veto ao vínculo desportivo a partir dos 12 anos. “Ficar longe pesou 110% na nossa decisão. Ficar sozinho, longe da família, dos conselhos, conviver com gente mais velha que não conhecemos... Uma hora vai acontecer, mas quando ele estiver mais maduro’’, diz o pai.

José Silveira, porém, entende os pais que agem de maneira diferente. “Quem aposta tudo no garoto (como solução financeira para a família), esquece um pouco os perigos que a criança pode correr.’’ 

Risco que Maurício não correu. “Se eu falar que (as propostas) não mexeu com a cabecinha dele... ‘puxa pai! Cruzeiro, Atlético!’. Se eu não fosse um pai centrado, com certeza ele iria e a Ponte Preta perderia’’, admite José.

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