Manuel Lopes Figueroa/Reuters
Luxemburgo conversa com Roberto Carlos e David Beckham em treino do Real Madrid Manuel Lopes Figueroa/Reuters

Luxemburgo em 10 anos: do Real Madrid à segundona da China

Nesta sexta, completa-se uma década da saída do treinador dos merengues

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

04 de dezembro de 2015 | 11h42

Em 4 de dezembro de 2005, Vanderlei Luxemburgo se despedia de nomes como Ronaldo, Zidane, Figo, Beckham e Raúl após uma passagem considerada mal-sucedida pelo poderosíssimo Real Madrid, da Espanha, justamente na época em que o elenco recebeu o apelido de 'Galáticos' por causa do grande número de estrelas. Já hoje, em 4 de dezembro de 2015, dez anos depois, Luxemburgo comanda nomes como Yang Jun, Wai Chiu, Xia Ningning e Wan Cheng à frente do Tianjin Songjiang, da segunda divisão da China, clube que assumirá em 2016.

Após faturar o Campeonato Brasileiro de 2004 com o Santos, somando um total de cinco títulos do maior torneio nacional por quatro clubes diferentes, e ensinando futebol para muita gente, Vanderlei Luxemburgo foi anunciado como novo técnico do Real Madrid, gerando certa surpresa tanto na Europa quanto no Brasil. Afinal, ele foi um dos primeiros brasileiros a treinar um clube europeu do primeiro escalão. Mesmo tendo comandado até a seleção e faturado uma série de títulos na década anterior, Luxemburgo chegou como 'desconhecido' na Espanha. Sua expectativa era de vencer à frente de um dos melhores clubes do mundo. Mas não foi bem assim.

Sua estreia no clube merengue aconteceu de forma inusitada: em jogo de apenas seis minutos, contra a Real Sociedad, pelo Campeonato Espanhol. Por incrível que pareça, a partida começou em 2004 e terminou em 2005, já que, nos minutos finais, o Santiago Bernabéu foi evacuado por uma ameaça de bomba em 12 de dezembro. O juiz imediatamente paralisou o confronto, que estava empatado em 1 a 1, e seu final foi marcado apenas para janeiro.

Por incrível que pareça, 40 mil pessoas compareceram no estádio para acompanhar os seis minutos finais daquele jogo. Para a disputa, Luxemburgo utilizou a seguinte estratégia: deixou os jogadores treinando em ritmo forte durante 1 hora e 15 minutos antes do jogo, para que eles entrassem com gás, visando a vitória nos minutos finais. E não é que deu certo? A três minutos do encerramento, Ronaldo sofreu pênalti. Com classe, Zidane converteu. O jogo terminava 2 a 1 para o Real Madrid, animando a torcida do Real Madrid em relação à chegada do treinador brasileiro.

Quatro dias depois, era hora de finalmente treinar o Real Madrid para um jogo de 90 minutos. Mas não era um jogo qualquer: o duelo seria contra o Atlético de Madri, no Vicente Calderón, casa do rival da capital espanhola. Mais uma vez, o time de Luxemburgo se impôs e fez 3 a 0 no maior clássico da cidade, com direito a dois gols de Ronaldo e um de Solari.

Após assumir o time em meio a uma época turbulenta, o treinador brasileiro conseguiu encerrar a temporada com 16 vitórias, 3 empates e 3 derrotas e foi vice-campeão espanhol. Neste estágio, conseguiu até vencer o poderoso Barcelona de Ronaldinho Gaúcho por 4 a 2. Porém, os questionamentos começaram a partir do planejamento para a temporada 2005-2006, quando Luxemburgo trouxe uma 'legião' de brasileiros: Robinho, Julio Baptista e o lateral Cicinho foram contratados a valores milionários. Além deles, o meia Ricardinho e o zagueiro Edu Dracena também teriam sido recomendados pelo técnico.

A quantidade de brasileiros no elenco e na comissão técnica começou a chamar a atenção dos astros da equipe. Além disso, Luxemburgo também começou a implantar regimes de concentração, que são comuns no Brasil, mas que os craques europeus não estavam acostumados. A falta do domínio do idioma espanhol, mesmo após meses vivendo no país, começou a minar a confiança dos jogadores no treinador.

"Ele trouxe as conquistas do futebol brasileiro e tudo que fazia no Brasil para a Espanha, mas não conseguiu combinar esse trabalho e aprender um pouco da cultura europeia. Proibiu algumas coisas que o europeu não estava acostumado", lembrou o lateral Roberto Carlos na época. "O trabalho dele foi bom, mas quando você tem dois ou três jogadores que não entendem o que o treinador quer, e alguns líderes no grupo... aí esses dois ou três acabaram contaminando os outros para que o trabalho do treinador não seguisse na época. Vanderlei não teve tanta facilidade para se adaptar aos jogadores."

A principal desavença de Luxemburgo na época de Real Madrid foi com o craque português Luis Figo. Ao montar a equipe à sua maneira, o técnico acabou colocando o camisa 10 no banco, o que gerou revolta do meia. Questionado recentemente pelo jornal Marca se teria uma vaga no atual time do Real, Figo disparou: "Depende de qual treinador. Se fosse com Luxemburgo, suponho que não. Com Benítez, eu teria muito mais possibilidades". Em 2005, Figo acabou deixando a Espanha para se transferir para a Inter de Milão.

Estes desentendimentos, somados à falta da fluência no idioma espanhol e a falta de melhores resultados, culminaram na demissão de Vanderlei Luxemburgo do Real Madrid em 4 de dezembro de 2005, ou seja, há exatos 10 anos. As derrotas mais sentidas foram para o Lyon, que eliminou o time da Liga dos Campeões daquele ano, e para o Barcelona, por 3 a 0, em pleno Santiago Bernabéu, com direito a show de Ronaldinho Gaúcho, quando o meia brasileiro foi aplaudido de pé pelos torcedores merengues. Luxemburgo deixava o Real Madrid após um ano, 45 partidas e 68% dos pontos conquistados.

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Luxemburgo conquistou apenas estaduais desde o Real

Técnico não consegue repetir o sucesso de outras épocas

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

04 de dezembro de 2015 | 11h49

Desde a saída do gigante Real Madrid, há quem diga que Vanderlei Luxemburgo passou por um descenso na carreira: em dez anos, foram mais nove mudanças de clubes, passando por mais 7 times diferentes até desembarcar na província chinesa de Tianjin para treinar o Songjiang na segunda divisão local, conforme já anunciou.

Santos, Palmeiras, Santos (de novo), Atlético-MG, Flamengo, Grêmio, Fluminense, Flamengo (de novo) e Cruzeiro. Nestes clubes, Vanderlei Luxemburgo chegou com muita história como treinador, mas não conseguiu repetir o sucesso das épocas anteriores. Neste período, foram cinco títulos, todos estaduais, o que não chega a ser um ‘desastre’ em termos de conquistas, mas fica longe do esperado por causa do gabarito que Luxemburgo construiu ao longo de sua carreira.

Logo após deixar o Real Madrid (mais precisamente dez dias depois), o treinador voltou para o Santos, mesma equipe que havia deixado para assumir o clube madrilenho. O trabalho na volta à baixada santista representou o mais longo dele  Vanderlei Luxemburgo em um clube: dois anos, comandando a equipe nas temporadas 2006 e 2007.

Mesmo sem o elenco estrelado da passagem anterior, Luxemburgo conquistou o bicampeonato paulista nos dois anos. Porém, fracassou na disputa da Libertadores. Apesar das duas temporadas de trabalho, o time passou por uma enorme reformulação: foram, ao todo, 41 contratações e 37 saídas de jogadores. O técnico deixou a equipe ao fim da temporada 2007, mesmo com o vice-campeonato brasileiro, em meio a ‘desacordos’ com a diretoria a respeito do planejamento para 2008. Poucos dias depois, ele já acertava sua ida para o Palmeiras. Luxemburgo nunca teve problemas com o desemprego no futebol nesses dez anos.

No Palmeiras, ele encerrou o jejum de títulos da equipe que já perdurava desde a conquista da Libertadores em 1999: foi vencedor do Campeonato Paulista de 2008, com um time estrelado por nomes como Valdivia e Diego Souza. Foi o único título da equipe naquele ano. Mesmo assim, Luxemburgo ajudou a equipe a se classificar para a Libertadores do ano seguinte.

O técnico deixou a equipe no meio de 2009, após uma suposta briga com o atacante Keirrison e com a diretoria. Após uma rápida quarta passagem como técnico do Santos (apenas 26 partidas), rumou para o Atlético-MG, onde também teve pouco tempo de trabalho, mesmo após o título mineiro de 2010: foram só 53 jogos. Ao fim daquele ano, assumiu a responsabilidade de comandar o Flamengo, seu clube de coração.

Com a conquista da Taça Guanabara e da Taça Rio, o Flamengo foi o campeão carioca de 2011 com uma equipe estrelada pelos recém-contratados Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves. Naquele ano, o Rubro-Negro chegou a liderar o Campeonato Brasileiro, mas caiu de rendimento e perdeu o título, além de ter fracassado na Libertadores. Mesmo classificando a equipe para o torneio continental do ano seguinte, Luxemburgo foi demitido em 2 de fevereiro de 2012.

Três semanas depois, foi anunciado como novo treinador do Grêmio. Naquele ano, conseguiu ser vice-campeão brasileiro, terminando o campeonato apenas atrás do Fluminense. Porém, seu episódio mais lembrado pelo clube gaúcho foi uma confusão em que se envolveu com os atletas da equipe chilena do Huachipato, pela Libertadores de 2013. Em 26 de julho daquele mesmo ano, foi demitido após 91 jogos e nenhum título.

Novamente, ele não demorou para acertar com um novo clube: seria o Fluminense, onde, por causa da torcida declarada ao Flamengo, já chegaria questionado. Nas Laranjeiras, fez um dos piores trabalhos de sua carreira, com sete vitórias, nove empate e dez derrotas. Naquele ano, já sob o comando de Dorival Júnior, o Fluminense seria rebaixado dentro de campo, mantendo-se na primeira divisão após o polêmico ‘caso Héverton’, da Portuguesa.

AMORDAÇADO

Em 2014, voltou ao Flamengo para um desafio inédito em sua carreira: livrar a equipe da zona de rebaixamento, ou ‘zona da confusão’, como o próprio técnico cunhou o momento da equipe. Luxemburgo teve sucesso no objetivo, chegando ao 10º lugar, mas se manteve no cargo apenas até maio deste ano, quando foi novamente demitido. Em sua quarta passagem pelo Rubro-Negro, também ficou marcado pelo episódio em que se ‘amordaçou’ em uma entrevista coletiva após ser suspenso por dois jogos do Campeonato Carioca.

Pouco depois, assumiria o Cruzeiro, que defendia o bicampeonato brasileiro. Seu trunfo era a última passagem pela equipe, em 2003, quando faturou a inédita tríplice coroa com o campeonato estadual, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. Porém, 12 anos depois, teve um trabalho fraco, deixando a equipe à beira da zona de rebaixamento. Era hora de buscar novos ares e aceitar o desafio de treinar o Tianjin Songjiang, na segunda divisão chinesa.

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Time de Luxemburgo lutou contra queda para a 3ª divisão chinesa

Equipe recebeu injeção de dinheiro de empresa farmacêutica

Igor Ferraz, O Estado de S. Paulo

04 de dezembro de 2015 | 11h57

Após passar por quase todos os clubes grandes do Brasil e dez anos depois de treinar o Real Madrid, Luxemburgo desembarcou na China em 24 de setembro deste ano. Longe dos grandes centros e dos holofotes, o treinador fará um trabalho a que não está acostumado, porém, apesar da pouquíssima expressão do Tianjin Songjiang, Vanderlei terá 'carta branca' para reforçar o time em 2016.

Sob o nome de Hohhot Binhai FC, o clube foi fundado no ano de 2006, e apenas em 2008 se tornou Tianjin Songjiang após ser adquirido por uma empresa de marketing esportivo local. Em 2011, fez sua primeira aparição na segunda divisão nacional, onde permanece até hoje. Na temporada 2015, o time chegou até a lutar contra o rebaixamento para a terceirona do futebol chinês, mas escapou e terminou a competição em 9º lugar.

Recentemente adquirido por uma poderosa empresa farmacêutica da China, o clube recebeu uma grande injeção nos cofres no meio do ano de 2015, permitindo à equipe assinar com Vanderlei Luxemburgo.

O brasileiro teria sido oferecido à equipe por meio do empresário chinês Sun Xianlu, que atua no Brasil. Após problemas com o idioma espanhol no Real Madrid, o filho de Xianlu deve ser o tradutor do técnico no trabalho na China. Ele começa a trabalhar já neste mês de dezembro, com o objetivo de subir com a equipe pela primeira vez para a elite do futebol chinês. 

A empresa que comanda o clube tem planos audaciosos. Neste ano, ela deixou de patrocinar o Tianjin Teda, rival local da primeira divisão que discordou dos planos ousados de transferências. Pelo regulamento, a equipe pode inscrever três atletas estrangeiros. Luxemburgo tem a ideia de contratar um trio de brasileiros de peso. Luis Fabiano, de saída do São Paulo, e Éverton, que trabalhou com o técnico no Flamengo, já foram especulados como possíveis reforços. Nenhum foi anunciado.

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