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Igor Ferraz, Rafael Pezzo e Renan Fernandes, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2015 | 07h00

No dia 27 de dezembro de 2014, a lanterna do Campeonato Inglês, tido por muitos como 'o mais difícil do mundo', era ocupada pelo modesto Leicester City. Nenhuma surpresa muito grande, afinal, o time havia sido recém-promovido de volta à elite. Um ano se passou desde então e, hoje, 27 de dezembro de 2015, a liderança do campeonato não é mais composta pelos poderosos Manchester City, Chelsea, Arsenal ou Manchester United. Acredite: a liga mais rica do mundo é encabeçada pelo próprio Leicester, que vem se sagrando como a maior surpresa do futebol europeu nesta temporada.

Apesar dos 131 anos de história, o Leicester é considerado um time de média expressão na Inglaterra. Sediado na cidade de mesmo nome, que fica na zona central do país (a 143km de Londres), o clube é conhecido pelo apelido 'The Foxes (As Raposas)' por conta da região, que era conhecida pela caça em larga escala ao animal no século 19. Atualmente, a cidade abriga pouco mais de 300 mil dos 53 milhões de habitantes da Inglaterra.

Após se safar do rebaixamento na última temporada, terminando em 14º lugar, o Leicester veio para a atual edição do Campeonato Inglês com o mesmo objetivo. Desde então, passaram-se 18 partidas. Foram incríveis 11 vitórias, 5 empates e apenas duas derrota das Raposas, que coloca o time na liderança do certame. De quebra, a equipe ainda tem o melhor ataque (37 gols) e a melhor campanha como visitante desta primeira metade da temporada. Existem dúvidas sobre a capacidade do Leicester de manter a atual forma, porém, mesmo que o título não venha, já é possível dizer que a campanha do time é histórica.

Desde que o Campeonato Inglês se transformou na Premier League, em 1992, apenas cinco clubes levantaram a taça: Manchester United, Arsenal, Chelsea, Manchester City e Blackburn Rovers (considerado o último 'azarão' a ser campeão, apesar do belo time que foi montado para a temporada do título, em 1994-95). Desta forma, o Leicester busca quebrar um tabu de 21 anos sem títulos de clubes fora do eixo Londres-Manchester. A favor do Leicester, conta o fato de que, dos últimos seis times que passaram o natal na ponta do campeonato, cinco terminaram campeões.

HISTÓRIA

O Leicester City foi fundado no longíquo ano de 1884, por um grupo de alunos da escola Wyggeston. Seu primeiro nome foi Leicester Fosse, pelo fato de jogar em um campo nas proximidades da Fosse Road. Até a entrada na Football Association, em 1890, o time mandou seus jogos semiprofissionais em mais três estádios diferentes da cidade até a mudança para Filbert Street, local que recebeu as partidas do Leicester até o ano de 2002. Naquele ano, o moderno Filbert Way terminou de ser construído. Hoje, o estádio do Leicester leva o nome da patrocinadora do clube: King Power Stadium. Com capacidade para 32.500 pessoas, recebe até mesmo jogos da seleção inglesa.

A temporada de 1908-09 foi a primeira do clube na elite do futebol inglês, mas não reserva boas lembranças. Afinal, naquele ano, o time foi novamente rebaixado e ainda sofreu a maior derrota da história do Campeonato Inglês: 12 a 0. Para piorar, os algozes foram o Nottingham Forest, rival histórico da equipe junto com o Derby County e o Conventry City. Leicester e Conventry formam a grande rivalidade local da East Midlands (as duas cidades são separadas por apenas 24 quilômetros). O clássico é conhecido como 'Derby M69' devido ao nome da auto-estrada que liga as duas cidades.

O primeiro título oficial do Leicester City só veio no ano de 1925, quando o time foi campeão da segunda divisão. A equipe, que 'passeou' pelas diversas divisões da Inglaterra durante sua história, ainda repetiu este feito mais seis vezes (a última em 2013-14). Em 2008-09, chegou a ser campeã da terceira divisão.

Porém, a maior glória do clube em seus 131 anos (pelo menos até agora) foi a conquista da Copa da Liga Inglesa por três vezes. A primeira veio em 1963. Após dois vices da Copa da Inglaterra, o Leicester levantou a taça da Copa da Liga em final contra o Stoke City. O segundo título já veio na 'época de ouro' da equipe - o final da década de 90, em 1996-97, e o último em 1999-00. O time ainda foi vice-campeão em 1998-99 e disputou a Copa da Uefa (atual Europa League) nos anos de 1998 e 2001.

Agora, 16 anos após a conquista do último grande título, o Leicester vai atrás do grande feito de sua história, que seria o Campeonato Inglês na atual temporada. Se conseguirem, pelo menos, repetir a campanha do primeiro turno, as Raposas terão chances bem reais de escrever a história e conquistar o maior campeonato nacional justo em sua época mais competitiva.

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Igor Ferraz, Rafael Pezzo e Renan Fernandes, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2015 | 07h00

Esqueça Rooney, Aguero, Sanchez ou Diego Costa. A corrida pela artilharia no Inglês está sendo disputada por Jamie Vardy (15) e Riyad Mahrez (13). A dupla do Leicester, que está sendo a sensação da temporada, foi comprada por um total de 1.350 milhão de libras (R$ 7.934.287). O valor é irrisório se comparado com as cifras astronômicas gastas pelos gigantes ingleses nas janelas de transferências. Só o Manchester City gastou R$ 816 milhões nas contratações apenas de Sterling e De Bruyne. 

O argelino Riyad Mahrez, de 24 anos, chegou ao Leicester em janeiro de 2014, por 350 mil libras, após se destacar no pequeno Le Havre, da segunda divisão francesa. O canhoto também fez parte do elenco de sua seleção na Copa de 2014. 

Se uma das apostas das Raposas fazia sucesso no segundo escalão da França há duas temporadas, a outra estava brilhando na quinta divisão inglesa. O inglês Jamie Vardy se destacou em 2012 ao marcar 31 gols pelo modesto Fleetwood Town FC e foi contratado no mesmo ano por 1 milhão de libras (R$ 5.77 milhões).

De lá para cá, o atacante de 28 anos vive um conto de fadas. Vardy bateu o recorde de gols marcados consecutivamente na primeira divisão, ao anotar em onze jogos seguidos. O feito pertencia ao holandês Ruud van Nistelrooy, que balançou as redes 10 vezes em 10 jogos, pelo Manchester United, em 2003. De quebra, ele também foi lembrado por Roy Hodgson para defender a Inglaterra pela primeira vez. Nesta temporada Vardy e Mahrez já somam 28 gols, mais do que 15 equipes do Inglês.

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Igor Ferraz, Rafael Pezzo e Renan Fernandes, O Estado de S. Paulo

26 Dezembro 2015 | 07h00

Se a atual posição do Leicester no Campeonato Inglês surpreende muita gente, pelo menos uma pessoa realmente acreditou no time. Trata-se de Vichai Srivaddhanaprabha, tailandês que adquiriu o clube em 2010. Logo após a conquista do título da segunda divisão na temporada 2013/14, Vichai anunciou que investiria cerca de 180 milhões libras (R$ 1,057 bilhão) no clube para que, em até três anos, os Foxes terminassem entre os cinco primeiros colocados da elite inglesa. 

“Estou pedindo três anos, e nós estaremos lá. Não desafiaremos os cinco melhores times imediatamente. Nós temos uma chance de batê-los? Sim, temos, mas acredito que precisamos estabilizar a nossa presença na liga primeiro e para depois pensarmos no próximo passo”, afirmou Srivaddhanaprabha em maio de 2014. 

Porém, nem mesmo o tailandês esperava uma ascensão tão grande em tão pouco tempo. Afinal, para a atual temporada, o dono do clube ofereceu 100 mil libras (R$ 587 mil) para o técnico Claudio Ranieri por cada posição que o Leicester terminasse acima da zona de rebaixamento. Ranieri já passou por clubes como Roma, Inter de Milão, Juventus e Chelsea, mas nunca conseguiu conquistar uma liga nacional. Por isso, o treinador é considerado mais um dos ‘azarões’ do clube. 

Caso a equipe confirme a liderança até o final da competição e conquiste o Campeonato Inglês, Ranieri teria direito a receber 1,7 milhão de libras (R$ 9,9 milhões) pelas 17 colocações acima da zona de descenso.

Valor irrisório para o tailandês Vichai Srivaddhanaprabha. Ele possui um patrimônio estimado em 2 bilhões de dólares (R$ 7,8 bilhões) e é CEO da King Power International Group, empresa sediada em Bangcoc e especializada nas populares ‘Free-Shops’, lojas que vendem produtos ausentes de impostos, encontradas principalmente em aeroportos ou grandes embarcações. Em 2009, a companhia se viu imersa em um grande escândalo ao ser acusada de estar envolvida em uma quadrilha de extorsão de turistas no aeroporto de em Bangcoc.

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Igor Ferraz, Rafael Pezzo e Renan Fernandes, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2015 | 07h00

Assim como Liverpool, com os Beatles, e Manchester, com o Oasis, a cidade de Leicester também é movida ao som de uma banda de rock: o Kasabian. A banda foi formada em 1997, justamente quando o Leicester City conquistou a segunda Copa da Liga Inglesa de sua história.

Em dezembro de 2015, pode-se dizer que o Kasabian é uma das maiores bandas de rock do mundo e já lançou cinco álbuns de estúdio. O grupo ainda pode ter a felicidade de compartilhar o sucesso mundial com o clube de coração: justamente o Leicester City, que ocupa a liderança do Campeonato Inglês. Eles frequentam os estádios para acompanhar o time desde a adolescência e continuam aparecendo mesmo depois da fama.

Antes da estreia na atual temporada do Campeonato Inglês, contra o Sunderland, em casa, o técnico Claudio Ranieri inovou ao colocar os jogadores do Leicester em campo sob o som da música 'Fire' do Kasabian, nos alto-falantes do estádio. A canção é uma espécie de 'hino' para a equipe é é tocada a cada gol. Os jogadores absorveram o espírito, venceram por 4 a 2 e, desde então, o Leicester não parou mais.

"Eu falei para meus jogadores: vocês vão entrar no estádio para o primeiro jogo com a música do Kasabian. Vocês são os guerreiros e têm que fazer o melhor para a torcida", afirmou Ranieri após o jogo. Quando perguntado se é fã da banda, o italiano de 64 anos disse ser gostar do estilo: "Não sei se sou fã, mas conheço eles. Fazem um bom rock e eu amo rock".

A cada vez que a equipe balança as redes, os torcedores voltam a entoar o hit 'Fire' no King Power Stadium. A música acabou se tornando a trilha sonora da grande campanha do Leicester, que, ao lado do Kasabian, vêm colocando a pacata cidade inglesa no mapa da música e, claro, do futebol.

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