Maxim Shemetov/Reuters
Gianni Infantino, presidente da Fifa, tem feito reuniões sobre o tema. Maxim Shemetov/Reuters

Nova regra para negociações do futebol ‘turbina’ ganho de agentes

Medida adotada em 2015 visava tirar poder dos empresários de jogadores, que ganhavam na porcentagem da venda. Só que agora eles faturam mais em comissões

Renan Cacioli, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2018 | 07h00

A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) registrou que, de abril de 2017 a março deste ano, mais de R$ 35,3 milhões em comissões foram parar na mãos de agentes de futebol por transações feitas no mercado nacional. Trata-se de um aumento de 46,52% em relação ao período anterior, quando as negociações movimentaram R$ 24,1 milhões. O que também vem aumentando é o número de profissionais envolvidos nessa ponte entre atletas, treinadores e clubes: os 330 intermediários cadastrados em 2016 se transformaram em 513 até a semana passada – a lista é atualizada constantemente.

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Os números acima fazem parte de relatórios que a CBF precisa entregar à Fifa anualmente. A norma integra a lista de medidas que a Federação Internacional adotou em 2015, quando passou a proibir que terceiros dividissem com jogadores e times fatias sobre os direitos econômicos do atleta. Em tese, a ideia era diminuir o poder dos agentes, que ganhavam muito dinheiro com transferências, fortalecer os clubes e tornar o sistema mais transparente, já que várias dessas negociações aconteciam por fora, às margens do mercado.

O problema foi que, na prática, quase nada mudou no cenário das transações. Em vez de ganhar na porcentagem sobre o jogador, o empresário passou a faturar com comissões.

“Pra quem era apenas agente e não investidor, não mudou praticamente nada. Mas se ontem eram feitos dez negócios por ano, hoje são mil. Hoje, o grande agente tem poucos jogadores de ponta, porém, muitos contatos em clubes na Europa, os compradores. E os pequenos agentes, como não têm esse nível de contato, sempre necessitam dos grandes”, diz Giuseppe Dioguardi, o Pepinho, no ramo há mais de 15 anos.

O agente pode ser contratado por um clube para trazer ou vender um atleta e/ou treinador, ou por estes para negociá-lo. Cada parte pode escolher um ou mais intermediários para viabilizar a transação. E um mesmo agente pode receber comissão de todos os lados interessados.

Além de não reduzir o poder financeiro de terceiros, a regulamentação da Fifa também falhou na tentativa de tornar o mercado mais transparente.

Para se ter uma ideia, os dados do primeiro parágrafo foram computados pela CBF com base no que os próprios empresários informaram. Estes têm 30 dias para entregar um formulário com o valor e a natureza do serviço em via assinada pelas três partes: clube, agente e jogador. Aos clubes, cabe apenas avisar à confederação se a transação teve ou não intermédio de alguém, sem especificar quanto foi desembolsado.

Pegue-se o número do último período, por exemplo. Os mais de R$ 35,3 milhões até poderiam parecer elevados, se não estivessem diluídos entre 732 operações informadas pelos agentes. Ou seja, seria como se cada transação feita tivesse custado pouco mais de R$ 48,3 mil. Em um mercado milionário no qual se costuma cobrar 10% de comissão sobre o valor bruto do negócio, beira a ingenuidade achar que as transações não giraram muito mais grana.

“Já recebi muitos empresários dizendo que não receberam nada, mas participaram da operação. Será mesmo? Quer dizer que você tem só 10%, 20% de transações em que recebe dinheiro? E o resto, faz de graça?”, questiona Reynaldo Buzzoni, diretor de registros e transferências da CBF.

Há exemplos gritantes de discrepância. No último relatório entregue por Buzzoni à Fifa, consta que simplesmente nenhum agente recebeu dinheiro em tratativas com o Flamengo. Zero. Já de acordo com o balancete de 2017 do clube carioca, nada menos do que R$ 17,7 milhões aparecem no item “custos de comissão”.

“Os agentes são sempre a ovelha negra, o patinho feio do negócio. O bom agente faz o futebol andar, cria oportunidades para o seu cliente. Não há por que fugir do sistema da CBF. Quem não declara na hora é o clube”, reclama André Cury, agente que intermediou a ida de Neymar para o Barcelona

ESPECIALISTA VÊ REGRAS SEM UNIFORMIDADE

O Estado entrevistou o advogado Américo Espallargas, especialista na área de direito esportivo. Para ele, o grande problema das regras atuais é a falta de uniformidade entre as regras dos países e a falta de fiscalização da Fifa. Para ele, isso gera um alto número de negociações 'não declaradas', o que aumenta o lucro dos agentes.

1. Você diz que não há uniformidade na regra para intermediários, que varia de país a país. Poderia explicar um pouco melhor isso?

Todos os países precisam obedecer à regulamentação, que é mínima. A Fifa, em 2015, passou a responsabilidade para cada federação. Há países que exigem a contratação de um seguro, outros exigem idoneidade bancária, alguns não exigem nada. Há discrepâncias comercias e regulatórias. Isso acaba fazendo com que em alguns locais seja mais fácil ser agente do que em outros. Não faz sentido. A atividade é a mesma, não importa se você faz negócio no Paraguai, na China ou no Brasil.

2. Você também argumenta que o aumento no número de intermediários levou a uma queda de qualidade do serviço prestado. Como assim?

O agente Fifa era especializado, sabia operar dentro do mercado. E agora há uma pulverização de agentes, e não são pessoas necessariamente desse mercado. Tem gente que não faz ideia do que está fazendo. O agente tem de cuidar da carreira do jogador, para que tenha uma boa assessoria de imprensa, marketing, bons acordos comerciais. Antes, o agente ganhava nos dois lados, na transferência e no lado comercial. Hoje ele só se preocupa com a intermediação do negócio.

3. Em fevereiro de 2017, a CBF publicou alteração referente à comissão paga aos intermediários. O recomendado é 3% da remuneração bruta até o fim do contrato, mas se tornou possível negociar entre as partes esse porcentual. Isso foi determinante para que se chegasse ao cenário atual?

Acho que não. Esse número de 3% foi uma tentativa da Fifa de sugerir um patamar, mas ela sabe que se o mercado nacional falar que o porcentual é 10%, vai ser 10%. Eu nunca vi uma transação com 3%. O habitual em qualquer país é 10%.

4. É possível afirmar que o número de negociações por fora supere as declaradas oficialmente?

Difícil dizer quanto é movimentado por fora. O que seria essa por fora? Pagamento de comissão? Direito econômico? Outro tipo de valor não regulamentado? Pode-se supor que o valor seja maior. Agora, cravar seria um pouco leviano.

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Na Europa, ideia é adotar medidas contra os abusos nas negociações

Entre as possibilidades discutidas estão a volta do sistema antigo, com agentes licenciados exclusivamente pela Fifa

Jamil Chade, correspondente em Genebra (SUI), O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2018 | 07h00

O fracasso das novas leis levou diferentes entidades a proliferar reuniões na Suíça para tentar restabelecer um diálogo e um processo que possa levar a uma adoção de novas regras. Dentre as possibilidades, discute-se a volta do sistema antigo com agentes licenciados exclusivamente pela Fifa e a implementação de um limite de comissões para empresários com margem que varie entre 5% e 10%. As novas medidas devem entrar em vigor a partir do dia 1.º de junho.

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Para David Seligman, um dos principais agentes europeus, o atual sistema desregulamentado pode gerar um abuso de muitos desses intermediários, principalmente diante de jovens jogadores estrangeiros que desembarquem na Europa.

Mel Stein, que criou na Inglaterra a Associação de Agentes de Futebol, também é um forte crítico das leis estabelecidas em 2015. Em sua avaliação, a imposição de um teto para o valor retido pelos intermediários poderia “destruir aproximadamente 50% dos negócios” dos membros de sua associação.

Os números confirmam que, de fato, a medida adotada em 2015 pela Fifa não funcionou. De acordo com a entidade máxima do futebol, intermediários ficaram com US$ 213 milhões (R$ 734 milhões) em 2013, como resultado de vendas e compras de jogadores no mundo. Em apenas cinco anos, o valor dobrou e, no ano passado, os agentes acumularam uma renda de US$ 447 milhões (R$ 1,5 bilhão). Desse total, US$ 125 milhões (R$ 431 milhões) estão na Inglaterra, seguido por Itália, Alemanha, França e Espanha.

Números colhidos ainda pela Comissão Europeia revelam que, entre 2013 e 2017, os agentes acumularam uma renda de US$ 1,6 bilhão (R$ 5,5 bilhões).

Hoje, nomes como Jorge Mendes, Kia Joorabchian e Pini Zahavi teriam o controle de jogadores que valeriam mais de 2 bilhões de euros (R$ 8,3 bilhões). Segundo a revista Forbes, Mendes sozinho teria uma “carteira” de 102 atletas, entre eles Cristiano Ronaldo, e uma fortuna pessoal avaliada em US$ 72 milhões (R$ 258 milhões).

Na avaliação da Fifa, o novo sistema teria como objetivo evitar a lavagem de dinheiro. Mas, para os críticos, ao deixar o controle sobre esses intermediários nas mãos das federações nacionais, a realidade é que se estaria criando um “faroeste” no mercado global do futebol. 

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