Clauton de Souza/Estadão
Clauton de Souza/Estadão

Novas arenas e novo público no futebol brasileiro

Conceito de espetáculo muda e gera aumenta do valor dos ingressos e altera perfil do torcedor

ALMIR LEITE E LEONARDO MAIA, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 07h58

SÃO PAULO - Nas nove primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, 20% dos jogos foram disputados em novas arenas, em sua maioria construídas ou reformadas para a Copa do Mundo. Nelas, a média de público foi de 28.879 pessoas por partida. Nos estádios antigos, não passou de 9.550. Os números verificados nos palcos modernos, no entanto, trazem uma confirmação: o perfil dos torcedores que vão aos jogos de futebol está mudando. Os de menor poder aquisitivo estão dando lugar àqueles com maior poder de compra. E as famílias estão de volta.

Um dos fatores dessa mudança é o preço dos bilhetes, mais alto do que o cobrado nos estádios velhos. Os ingressos cheios mais baratos custam normalmente entre R$ 50 e R$ 60, podendo chegar a R$ 100.

"O preço do ingresso embute tudo o que a arena oferece. Entram na composição fatores como organização do jogo, conforto, serviços colocados à disposição do torcedor, custo operacional, qualidade do local, entre outros", diz o consultor de gestão esportiva da BDO Pedro Daniel, autor de comparativo entre a afluência de público nos estádios novos e nos antigos neste início de Brasileiro.

O trabalho constatou que o preço médio nas arenas modernas atingiu R$ 55,42. Nas outras, chegou a R$ 25,20.

Preços à parte, a curiosidade quanto às arenas e a promessa de melhores serviços - conforto, segurança, alimentação e higiene - andam chamando o público. Mas só quem pode pagar por esses benefícios as frequenta. "Está mudando o conceito. A ideia é mostrar que aquilo (a ida ao estádio) vale a pena. Não é apenas um jogo, e sim um programa", explica Pedro Daniel.

Essa "elitização’’ traz desconforto em alguns setores. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, está preocupado e tenta convencer clubes e gestores dessas novas arenas a destinar parte dos ingressos a torcedores de menor poder aquisitivo.

"É claro que os estádios mais sofisticados vão cobrar mais caro, mas a nossa ambição é que parte dos ingressos seja reservada para a população mais pobre", afirmou Rebelo ao Estado. "Os clubes podem fazer o subsídio cruzado, com o ingresso mais caro subsidiando o mais barato."

Um clube já está fazendo isso, segundo o consultor Pedro Daniel: o Grêmio, que na sua arena mantém um setor popular, para o qual o ingresso pode ser comprado por R$ 20 (meia-entrada). "O Grêmio conseguiu contemplar todo tipo de público."

Aldo Rebelo entende que a modernização dos estádios não pode implicar na exclusão da parcela mais pobre da população. "Isso tiraria um traço importante da consolidação do futebol como esporte mais popular do Brasil, que é o acesso da população pobre aos estádios."

O diretor de marketing do Flamengo, Fred Luz, discorda dos que enxergam uma mudança no perfil do torcedor a partir do surgimento das novas arenas. "Creio até que há mais inclusão do que exclusão porque o torcedor fanático sempre vai dar um jeito de ir ao estádio. E vejo que novas pessoas estão indo."

No atual quadro, uma alternativa para o torcedor pagar menos pelo ingresso é filiar-se aos programas de sócio-torcedor. "Os clubes usam a política de aumentar o preço dos ingressos para forçar a adesão a seus programas de sócio-torcedor", afirma Rebelo.

Os clubes não negam a estratégia. "Precisamos aumentar a receita com o público do futebol para tentar formar melhores times", diz Luz, do Flamengo. O Rubro-negro tem seis planos de sócio-torcedor, a preços entre R$ 39 e R$ 250, e hoje conta com pouco mais de 33.200 filiados - três mil se inscreveram após a marcação do jogo contra o Botafogo para o Maracanã.

O Flamengo é o responsável pelos melhores públicos em uma arena modernizada, o Mané Garrincha, em Brasília, que tem média de mais de 60 mil pessoas por jogo (veja arte). "Para manter o público, melhorar a questão do conforto e do acesso é importante, mas não adianta fazer nada disso sem um bom time", pondera Luz.

Que o diga o Ceará. Capengando na Série B, não leva ninguém ao Castelão, tão moderno quanto o Mané Garrincha.

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