Novo eldorado, China atrai legião de brasileiros

Asiáticos querem chegar a uma final de Copa. Para isso, investem pesado e buscam jogadores e técnicos no Brasil

Raphael Ramos, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2014 | 17h00

SÃO PAULO - Quantidade, definitivamente, não é qualidade. País mais populoso do mundo, com 1,3 bilhão de habitantes, a China não é capaz de ter uma seleção minimamente competitiva. Para tentar mudar esse quadro, resolveu intensificar a caça a talentos no país pentacampeão do mundo. A China, então, tornou-se um destino cobiçado por jogadores e treinadores brasileiros, atraídos por contratos que dificilmente encontrariam em outros mercados. Hoje, 50 brasileiros atuam no país.

Se antes os chineses tinham uma liga fraca e pouco estimulante, que não acompanhava o crescimento econômico acelerado do país, agora a realidade é outra. Os asiáticos oferecem milhões de dólares e, em troca, os brasileiros levam à Ásia expertise. Assim, o futebol chinês, aos poucos, tem evoluído, enquanto os jogadores e os técnicos brasileiros fazem fortuna.

O governo é o principal motor do futebol no país, seja com investimentos diretos ou indiretos. Dos 16 times da Primeira Divisão, quatro são de empresas estatais. Os demais são de propriedade privada, mas contam com a colaboração financeira do governo. E os repasses de dinheiro público só têm aumentado desde a chegada do presidente Xi Jinping ao poder, no ano passado. Fã de futebol, Jinping traçou como meta a chegada de sua seleção à final da Copa em um futuro próximo e parece disposto a não medir esforços para – com uma ajuda do Brasil – alcançar o seu objetivo.

Somente nos três primeiros meses do ano, dos US$ 126 milhões (R$ 295,5 milhões) investidos em contratações pelos clubes do país, US$ 22,7 milhões (R$ 53,2 milhões) foram para o Brasil. As transações mais caras foram feitas pelo Shandong Luneng, que pagou R$ 24,7 milhões pelo argentino Montillo, ex-Santos, e R$ 16,3 milhões por Aloísio, ex-São Paulo. O clube também abriu os cofres na contratação do técnico Cuca, que recebe R$ 1,5 milhão por mês, cinco vezes mais do que ganhava no Atlético-MG. Antes de fechar com o treinador, os chineses haviam procurado Tite e, no ano passado, tiraram Vágner Love do CSKA Moscou (Rússia) por R$ 35,1 milhões.

O clube é de propriedade de um grupo de distribuição de energia que resolveu investir pesado para fazer frente ao Guangzhou Evergrande, time que tem dominado o futebol chinês nos últimos anos. Atual tricampeão nacional, o clube também conquistou a Liga dos Campeões da Ásia. Tudo isso turbinado por reforços que custaram US$ 76 milhões (R$ 171 milhões) à Evergrande Real Estate Group, empresa do setor imobiliário que é dona do clube. Lá, sob o comando do italiano Marcello Lippi, campeão do mundo em 2006, jogam os brasileiros Renê Junior, Muriqui e Elkeson. Até o ano passado, a estrela do time era o argentino Conca, que retornou ao Fluminense.

Todas as transações foram intermediadas por Joseph Lee, empresário indonésio que desde 1993 negocia jogadores brasileiros com o mercado asiático. “Naquela época, os clubes nem eram profissionais. No começo, só os jogadores brasileiros de clubes da Terceira Divisão é que iam para lá. Agora, nós temos atletas de ponta. O estrangeiro é muito respeitado e valorizado na China.”

A China tem feito agora algo parecido com o que o Japão fez na década de 90, quando levou nomes como Zico e Leonardo para atuar no seu campeonato nacional. A proposta é aprender com os brasileiros. “A China sempre quis ser uma potência no futebol e a importação de jogadores e treinadores brasileiros está ligada à intensificação de intercâmbio entre os dois países. A relação está bastante avançada e não se limita mais apenas à área comercial, com compra e venda de produtos”, diz Tang Wei, diretor-geral da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico.

O comércio entre os dois países atingiu US$ 83,3 bilhões (R$ 195,3 bilhões) no ano passado, um aumento de 10% em relação a 2012. Vão para o país asiático 20% do total das exportações brasileiras. Para a cônsul-geral do Brasil em Xangai, Ana Cândida Perez, o futebol pegou carona nesse estreitamento de relação entre os dois países. “A China não importa e exporta apenas mercadorias, mas também conhecimento, ciência e tecnologia, hábitos de consumo, moda e gostos. É natural que o futebol, esporte mais popular do mundo, também tenha caído no gosto dos chineses.”

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