Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Numa viela em São Cristóvão, os primeiros chutes do Capitão do Tri

Em uma pequena rua de São Cristóvão, na zona norte do Rio, todos têm na memória as histórias do ilustre vizinho

Marcio Dolzan, Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

25 Outubro 2016 | 19h50

O céu cinzento e o silêncio da viela que leva à casa amarela de número 12 davam o tom de tristeza da tarde desta terça-feira. Foi lá, na pequena vila com acesso pela rua Sabino Vieira, no bairro de São Cristóvão, na zona norte do Rio, que nascera Carlos Alberto Torres. Na via estreita rodeada por pequenas casas, o menino que anos mais tarde seria eternizado como o Capitão do Tri deu seus primeiros chutes e marcou a vida dos moradores. Deixará saudades.

O próprio Carlos Alberto Torres contava que havia nascido em casa, com o auxílio de uma parteira. A família morou na vila até que o garoto tivesse oito anos. Depois, todos, à exceção de uma tia, dona Heleninha, se mudaram para o Largo do Bicão, na Vila da Penha, também na zona norte.

Nem por isso o Capitão do Tri esqueceu o lugar onde nasceu. “Ele gostava muito de dona Heleninha, vinha direto aqui e cuidava muito dela”, conta Fábio Hilário, 40 anos.

A chegada do morador mais ilustre do local às vezes acontecia de forma quase despercebida, mas em outras era transformada em um grande evento. Fátima da Silva Faria, 62 anos, diz que jamais esquecerá um abraço que recebeu de Carlos Alberto Torres há 46 anos. 

“Em 70, quando ele chegou aqui (depois do tri mundial), ele me deu um abraço e falou: ‘Fátima, me lembrei de você.’ Aquele último gol na Itália foi uma maravilha”, vibra, lembrando o gol marcado pelo capitão na final da Copa do Mundo, disputada no México e vencida pelo Brasil por 4 a 1. O gol do Capita é apontado como um dos mais bonitos de todos os tempos pela forma como foi construído.

Moradora da vila desde que nasceu, Fátima apareceu no portão de sua casa trajando uma camisa da seleção brasileira. “Coloquei assim que soube da morte dele”, contou, emocionada. “É uma perda incalculável. Ele foi o melhor capitão da seleção brasileira. O cara mais elegante, mais íntegro, e muito mais verdadeiro que todo mundo.”

A poucas casas daí, Ítala Cister, 72, também lamentava a perda de Carlos Alberto Torres. “Meu marido (José Silva, já falecido) era da mesma idade. Os dois cresceram juntos, foram colegas, jogavam bola aqui”, recorda. “Depois ele se mudou, mas sempre que voltava era paparicado pelas vizinhas.”

A morte de dona Heleninha – ninguém na vizinhança soube informar quando ocorreu – fez diminuírem as visitas de Carlos Alberto ao local. “A última vez foi quando ele concorreu a vereador”, arrisca Suely Oliveira, 54. O Capitão do Tri se elegeu para o legislativo municipal nos pleitos de 1989 e 1993. Em 2008, concorreu a vice-prefeito na chapa de Paulo Ramos, que acabaria vencida pela de Eduardo Paes, atual prefeito do Rio. 

Entre os moradores mais novos, alguns se confundem. “Ele jogou no Vasco, né? Ou foi no Flamengo?”, indaga uma garota. Dos quatro grandes clubes do Rio, Carlos Alberto Torres só não vestiu a camisa de um. “Eu reclamava com ele: poxa, você jogou em tudo quanto é time, menos no Vasco!”, conta Fátima, que afirma ser “vascaína, graças a Deus”. Ela também diz ter certeza de qual era o time do coração do Capita. “Ele era Fluminense. Fluminense! Ele me contou”. Em entrevistas, Carlos Alberto se dizia torcedor do Botafogo. 

A casa de número 12, local exato onde o Capitão do Tri nasceu, hoje está desocupada. O último morador dela faleceu há três anos e a família decidiu mantê-la fechada. Assim, no local em que deu os primeiros chutes aquele que se tornaria um dos maiores laterais-direitos de todos os tempos, só sobraram as lembranças. “Vou sentir falta dele”, lamentou Fátima. 

 

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