'Nunca dei uma cabeçada no Bebeto', diz técnico Dunga

Técnico da seleção brasileira nega culpa na Copa de 90

Entrevista com

Dunga, técnico da seleção brasileira

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2016 | 07h00

Dois momentos que não aconteceram entraram como fatos na história do volante Carlos Caetano Bledorn Verri, mais conhecido como Dunga, técnico da seleção brasileira desde 2014 (15 vitórias, 1 empate, 2 derrotas). O primeiro foi não ter conseguido parar o atacante Maradona em um jogo decisivo da Copa do Mundo de 1990 – o que resultou no gol da Argentina (Caniggia) e na eliminação do Brasil. O segundo foi ter dado uma cabeçada em Bebeto no jogo contra o Marrocos, na Copa de 1988 (Brasil 3 a 0). Dunga não fez nem uma coisa nem outra – os lances estão no youtube – mas nunca se esforçou para dizer “não fui eu”. Deixou rolar, e ficou com a fama. “Tem certas coisas no futebol que não adianta você ficar falando; quanto mais você ficar falando, mais vão te bater”, disse. Em entrevista exclusiva, concedida no início do ano, falou, também, sobre o pênalti que converteu na Copa de 94 – Brasil tetracampeão –, sobre o azar de seu amigo Baggio no mesmo jogo e sobre o polêmico episódio da convulsão de Ronaldo na Copa de 1998.

Vê-se, claramente, no vídeo do jogo Brasil e Argentina, na Copa de 1990, que o senhor não foi o último nem o único que podia ter barrado o Maradona. Por que assumiu essa falha?

Dunga – Eu tenho na cabeça a imagem total: o Maradona sai daqui, eu saio dali, dei um carrinho nele pra tentar barrar, mas como o apoio dele era a perna mais forte, não deu. Aí tinha mais um jogador, e tinha mais quatro atrás ainda. Mas quando as pessoas não querem enxergar, e não querem ouvir...

Mas aí o senhor tem sua parte de responsabilidade por ter assumido a culpa, não? Podia ter dito que não foi o último que podia barrar o Maradona...

Dunga – A bola da vez era eu, era a Era Dunga. Então tinha que se achar um culpado. Por mais que você explique, por mais que você fale, eles iam te bater, pior ainda. E eu jamais vou botar a culpa em alguém, A, ou B, ou C. Se os caras acham que foi assim, eu vou fazer o quê?

Mas todo mundo viu esse lance – e prevaleceu que o responsável foi o senhor...

Dunga – É justamente por isso. Quando as pessoas querem ver uma coisa, não adianta você ir contra. Na minha forma de ser, eu jamais vou transferir a responsabilidade para um colega. Não é correto. É uma equipe; quando perde, perde todo mundo. Se todo mundo na imprensa viu essa mesma imagem, e todo mundo escreveu a mesma coisa, e continuam falando, então não adianta eu falar. Tem que assimilar o golpe e caminhar pra frente.

Outra história exagerada a seu respeito é a tal cabeçada que teria dado no Bebeto durante o Brasil e Marrocos da Copa de 98. Ficou realmente bravo, berrou com o Bebeto, mas não teve cabeçada nenhuma. Como foi esse lance?

Dunga – O Bebeto tinha que vir na frente da bola, pra gente organizar a barreira. Chamei uma, duas, três vezes, e me exaltei realmente, porque ele não vinha. Mas é uma copa do mundo, em um segundo decide tudo, um gol muda tudo. É a minha forma de ser, tem que jogar a vida. Não teve cabeçada nenhuma, teve uma discussão áspera. Mas é aquele negócio: se tu ficar repetindo que não é, os caras não querem ouvir. Não adianta explicar. Tem 30, 40 centímetros entre eu e o Bebeto, mas os caras botaram aquilo e fica uma verdade.

Na verdade quatro centímetros, talvez três...

Dunga – Não teve nada disso. Foi um lance normal. Do jogo, do momento. Jamais eu vou agredir um cara. 

Nos bons tempos da Copa de 94, o senhor converteu aquele pênalti contra a Itália, o Baggio perdeu, o Brasil foi tetra, e o capitão Dunga levantou a taça. O senhor já disse que no momento do pênalti não ouvia absolutamente nada. Como é que foi? Tentou não bater?

Dunga – Foi assim: o Romário estava no chão, eu estava no banco, tomando água, e o Parreira vinha vindo. Eu disse: “Ih, ele vai me escolher”. Aí ele veio: “E aí, meu capitão, vai bater?”. “Claro! Tranquilo, professor”. Mas aí já ficou tenso, não tem como.

O que pensou, antes do pênalti?

Dunga – “Se eu errar, depois do que aconteceu em 90, eu estou crucificado. Mas ao mesmo tempo tem a segunda hipótese, eu estou tendo uma segunda chance de escrever a minha história, e, mais do que isso, eu me preparei para esse momento, a vida toda, tenho a chance de ser um homem decisivo”. Por mais que o esporte seja coletivo, ali, no pênalti, ninguém vai te ajudar. É você e o resto do mundo. Nesse momento eu crio autoconfiança. Ninguém cria pra mim. Eu crio. Porque se eu treinei, estou preparado, é isso que eu queria. Qual é o problema?

Aí veio a hora da verdade...

Dunga – Então o Massaro bateu, perdeu, e chegou a minha vez. Eu peguei a bola e comecei a caminhar. Não eram 30, 40 metros. Eram dez quilômetros. Silenciou o estádio. Eu via mais ou menos como uma fotografia toda colorida, mas nada do estava acontecendo. Nesse meio tempo eu fiquei pensando: como eu batia com o Taffarel, e como eu batia com o Gilmar. Com o Taffarel, eu batia colocado, com o Gilmar, eu falava o canto que eu ia bater e só pedia pra ele não sair antes. Aí eu tive que tomar a decisão. No momento que a bola entrou, sim, aí eu fiquei cansado. Essa geração tinha um negócio muito importante, porque ganhou tudo: mundial de juniors, primeira medalha olímpica, Copa América depois de 70 anos – fora do Brasil, em La Paz -, final de Copa do Mundo depois de 24 anos. E o mais interessante é que quando foi para os pênaltis 70% [dos jornalistas] já tinham escrito que ia perder, porque o Brasil nunca vencia nos pênaltis. E nós ganhamos nos pênaltis. E eu fui um desses personagens.

E como foi com o Baggio, que era seu amigo, e ficou ali, desolado... Um ano antes, em uma entrevista, o senhor o elogiara como o melhor jogador do planeta.

Dunga – E ele era. Logo depois eu fui falar com ele. Porque é duro. Você fica marcado. Eu dei um abraço, nessas horas não tem muito o que dizer. É lógico, se fosse eu, que ia ser dez vezes pior. Ele não, porque era o craque da Itália. Mas mesmo assim isso fica marcado.

A grande história da Copa de 98 foi a do Ronaldo, que teve a tal convulsão, não ia jogar e acabou jogando, contra a França. O que foi que aconteceu, afinal?

Dunga – O meu quarto ficava em frente ao do Ronaldo. Eu ouvi uma correria, abri a janela, “deve ser um torcedor que invadiu aí e está tudo certo”. Aí fechei a janela de novo. Continuou a confusão. Aí eu fui ver o que era. Estavam todos os jogadores no quarto do Ronaldo, ele estava passando mal.

A palavra convulsão corresponde ao que viu?

Dunga – Era mais ou menos isso. A imagem não era boa. O quadro era feio. Nós fomos para a palestra, o Ronaldo não participou da palestra. Tinha uma escada, e estamos eu e o Leonardo falando com o presidente Ricardo Teixeira. “Ó, tem que levar o rapaz pra fazer exame, a gente não sabe qual é o problema”. Aí a gente foi pro campo e pra palestra. Tinha um campo atrás, e ele foi lá caminhar, sozinho. A gente fez a palestra, e quando a gente voltou, nós fomos pro estádio, e ele foi fazer o exame, no hospital. Ele fez o exame, voltou, nós já estávamos prontos, indo pro aquecimento, não deixaram fazer aquecimento dentro do campo, e a gente fez aquecimento interno. Aí quando ele entrou eles foram pra uma sala, com o Zagalo, os médicos e a comissão técnica. Quando voltaram, o Ronaldo ia jogar. Eu e o Sampaio fomos direto lá no Edmundo. “Vai dar confusão”. Ele falou “está tranquilo”. O Ronaldo voltou e jogou. Foi só isso. Não tem mais história nenhuma. Depois do jogo, na coletiva, quem foi falar sobre o assunto foi o Zagallo. E aí, depois, cada um fala uma coisa. Se você me perguntar, hoje, se eu queria que o Ronaldo jogasse, eu vou te afirmar hoje, eu queria, era o melhor do mundo, a minha chance de ganhar com o Ronaldo era maior.

Forçaram a barra para que ele jogasse?

Dunga – Não. Ele jogou porque ele quis jogar. Ele sabia que estava numa final, queria jogar. O cara é competitivo.

E porque não deu, em 98?

Dunga – Nós ganhamos a Copa de 94, chegamos na final de 98. Mas jogar contra um país que é a sede da Copa do Mundo, na final, é complicado. Aconteceu isso com o Ronaldo, e um monte de coisa que atrapalhou a concentração no jogo. São coisas do futebol. O Zidane nunca ia pra área cabecear, pode conferir, e naquele dia ele foi. O Zidane, até aquele jogo, não era o Zidane que nós falamos hoje. Depois é que virou o Zidane. Ele ficou dois jogos suspensos, e não estava jogando o que sabia. Naquele jogo ele jogou tudo o que sabia e mais um pouco.

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