O atacante que calou 100 mil corintianos

O ex-atacante Ronaldo Drumond, que no dia 22 de dezembro de 1974 calou mais de 100 mil corintianos no Morumbi, ao marcar o gol que garantiu o título paulista daquele ano para o Palmeiras (e a manutenção do inimigo na longa fila de espera por um título), é hoje o tranqüilo proprietário da Certa Imóveis, em Belo Horizonte. Sem problemas financeiros, passa a maior parte das horas vagas jogando tênis. E lembrando dos bons tempos.A lembrança daquele momento histórico está mais forte agora, quando a torcida palmeirense vive dias de euforia com o retorno da equipe à Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. Embora o time atual tenha jogado muito mais pressionado que o de 29 anos atrás, na opinião de Ronaldo a tradição fez a diferença no momento decisivo. "Existem coisas no futebol que os anos não apagam. O peso da camisa, por exemplo. A camisa do Palmeiras pesa muito. Eu senti isso na pele. O time do Picerni não apresenta nada de diferente, mas tem uma aplicação de causar inveja. Fez uma grande campanha. E lançou esse Vágner, um dos atacantes mais promissores do País."Aos 57 anos, Ronaldo se emociona ao falar do passado - principalmente quando se recorda do gol mais importante de sua carreira. Um gol que pertence à história do futebol brasileiro."A equipe vivia um momento de tranqüilidade, sem cobranças. A pressão estava toda sobre o Corinthians, que não ganhava um campeonato havia 20 anos. Logo nos primeiros minutos da decisão, deu para notar que eles estavam nervosos, com uma carga emocional muito pesada. E o desespero deles aumentou quando eu abri o placar, aos 24 minutos do segundo tempo. A partir daí, o Corinthians morreu."A maneira inusitada como deixou o Morumbi naquele domingo de dezembro também não lhe sai da cabeça. "Dias antes do clássico, recebi várias cartas me ameaçando de morte. O Leivinha também recebeu. Mas como foram endereçadas ao Palmeiras, os dirigentes trataram de escondê-las para não prejudicar a preparação. Depois do jogo, fomos obrigados a entrar em um camburão da Polícia Federal. Dois policiais nos explicaram o que havia ocorrido e nos deixaram praticamente dentro de casa. Fiquei frustrado porque exatamente naquele 22 de dezembro eu completava mais um ano de casamento. Nem tive o direito de jantar fora."Ronaldo iniciou a carreira como juvenil do Cruzeiro em 1961 e, dois anos depois, se transferiu para o Atlético-MG. Em 1971, foi negociado com o Palmeiras, clube no qual permaneceu até 1976. Após uma breve passagem pelo Santos, voltou ao Cruzeiro para encerrar a carreira. "O futebol das décadas de 60 e 70 não pagava os salários de hoje, mas eu soube guardar algum dinheiro. Se hoje estou bem, devo tudo à bola. Comprei alguns imóveis em Belo Horizonte e, mesmo com a instabilidade da economia atual, não vejo nenhum investimento melhor."

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