Robson Fernandjes/AE
Robson Fernandjes/AE

O 'Boquita' e o ex-italiano bairro de La Boca

História do clube argentino começou pelo porto, passou pela imigração italiana e teve mais recentemente, o lançamento das líderes de torcida

Ariel Palacios, correspondente, estadão.com.br

26 de junho de 2012 | 18h18

BUENOS AIRES – Nascido no bairro de La Boca, um setor da capital argentina originalmente povoado por imigrantes italianos, o time Boca Juniors, que completou um século em 2005, é o que mais mística acumula na Argentina. Por um lado, está a lenda da suposta composição operária de seus torcedores. Por outro, as características peculiares de seu "templo": o Estádio de La Bombonera (A caixa de bombons). E de quebra, o intenso fanatismo de seus torcedores.

"Filhos de Itália", "Defensor da Boca", "Estrela da Itália", "Boca Juniors". Estes eram os nomes que cinco rapazes, filhos de imigrantes italianos de Gênova, debatiam para batizar o time. Essa discussão transcorria em um perdido dia do distante ano de 1905. Finalmente optaram pelo nome de Boca Juniors.

Com o batismo feito, faltava a definição cromática. A primeira camiseta foi cor de rosa. Mas, diante de uma saraivada de gozações e de uma derrota de 3 a 1 para um rival já extinto do bairro de Almagro, os fundadores decidiram que a cor rosa, além de ser um pouco feminina, era azarenta. Optaram por mudá-la. 

Diante das dúvidas sobre a escolha do leque de cores, o quinteto genovês-argentino decidiu que as cores do Boca Juniors seriam as mesmas da bandeira do primeiro navio que entrasse no porto. A embarcação que chegou minutos depois ostentava as cores do estandarte sueco: azul e amarelo.

 

Seus torcedores definem-se como "boquenses", "xeneizes" (pelas origens genovesas do bairro) ou "bosteros", a denominação depreciativa lançada décadas atrás pelos rivais do River Plate, indicando que os torcedores do Boca eram meros carregadores de bosta de cavalo.

Para deleite dos torcedores masculinos heterossexuais, o Boca lançou na virada do século a moda das cheerleaders (líderes de torcida) no campo. Ou seja, curvilíneas "muchachas" – vestidas com ajustados e minimalistas uniformes azuis-dourados (as cores do Boca) - que com agitadas coreografias estimulam os jogadores a dar tudo de si no gramado.

COMPARAÇÕES

Comparar o Boca (ou qualquer outro time) categoricamente com um clube brasileiro pode ser algo forçado. Se bem que o Boca possui origens italianas, como o Palmeiras, tem uma das maiores e mais agressivas torcidas da cidade, tal como o Corinthians em São Paulo.

Seus vínculos com o porto de Buenos Aires são indeléveis... algo que ocorre, por exemplo, com o Santos. Mas, o frenesi da rivalidade que possui com o River Plate só é comparável ao clássico Fla-Flu. Isto é: quem é do River só pensa na derrota do Boca e vice-versa. O resto dos times são inexistentes no imaginário coletivo desses dois.

Um detalhe importante: quem pensa que a Boca ainda é um bairro italiano, está com a mente ancorada no passado distante. Os italianos já foram embora dali. Nas ruas de La Boca os italianos de verdade escasseiam. As "cantinas" apresentam uma cozinha supostamente da autoria de uma hipotética “nonna”. Mas, esta "nonna" na realidade é uma "abuela" de sonoro sobrenome espanhol.

LA BOMBONERA

O Estádio do Boca recorda uma caixa redonda de bombons, já que suas paredes íngremes fazem que o espectador que esteja sentado na última tribuna veja o campo como se fosse mergulhar nele. Por este motivo, é chamado de La Bombonera. Boquenses e não-boquenses sustentam que La Bombonera vibra junto com seus torcedores, especialmente quando a torcida grita os cânticos de respaldo, famosos por serem uma antologia ímpar de palavras de baixo calão, com abundantes referências às mães de outrem.

Existem estádios maiores no país. No entanto, pela sua mística que possui La Bombonera é considerada a "catedral" do futebol na Argentina.

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